Documento criado em 19 Abril 04
ASPJ Em
Português 2° Trimestre 2004
Tenente-Coronel Mona Lisa D. Tucker, USAF
Desde o início de sua existência como nação independente, em 1947, a Índia seguiu seu próprio comando no desenvolvimento da política exterior. Uma visão de mundo tão independente e o desejo de se tornar uma potência regional hegemônica no sul da Ásia freqüentemente colocaram a Índia em descompasso com os Estados Unidos. Embora ambas as nações compartilhem valores democráticos, seus valores e interesses raramente convergiram no mundo da política internacional. A Índia e a China, que sustentam ser as duas maiores e mais antigas civilizações do mundo, também têm tido uma relação que oscila como gangorra.1 Este artigo examina a história da política exterior da Índia e da China e discute sua relação atual, bem como as possibilidades para o futuro, ambas pelo prisma dos interesses dos Estados Unidos. Embora ambos os países tenham desenvolvido uma relação de maior cooperação nos últimos 20 anos, a Índia continua em busca tanto de capacidade nuclear adicional quanto de relações mais fortes com os Estados Unidos porque ainda vê a China como ameaça. Alguns observadores talvez argumentassem que a Índia e a China estão no caminho da cooperação, de maneira a efetivamente contrabalançar a hegemonia dos Estados Unidos na Ásia. Este artigo, contudo, argumenta que, embora a Índia esteja prosseguindo cautelosamente com esforços cooperativos com os chineses, vê a China como ameaça importante e que é bom, para os Estados Unidos, que seja assim, como meio de contrabalançar a China, vista como seu único competidor aproximado em termos estratégicos.
Ao alcançar sua independência, a Índia se dispôs a se tornar uma potência mundial com influência global, embora muito de sua atenção estivesse fixa no Paquistão. A Índia também estendeu as mãos ao Congresso Nacional Africano, da África do Sul – que havia adotado a resistência passiva advogada por Mohandas Gandhi – fornecendo treinamento e assistência aos africanos que lutavam para livrarem-se dos opressores coloniais. Não desejando tornar-se um peão dos Estados Unidos e da União Soviética, as duas superpotências mundiais, durante a Guerra Fria, a Índia foi co-fundadora do Movimento Não-Alinhado até que se tornou mais conveniente aproximar-se da União Soviética.2 Além disso, a Índia defendeu o total desarmamento nuclear de todas as potências nucleares, ao mesmo tempo que buscava, ela própria, o status nuclear. Continuava a condenar as potências nucleares, mas viu as armas nucleares como seu passaporte para tornar-se uma força global.3
A Índia e o Paquistão têm-se concentrado cada um na destruição do outro, desde a partição da Índia pelos ingleses. A legitimidade de cada governo parece depender da ilegitimidade do outro. Por um lado, a própria existência de um estado mulçumano, como o Paquistão, ameaça a idéia indiana de ser, ela própria, uma sociedade pluralista com um governo secular que também representa a segunda maior população mulçumana do mundo. Por outro lado, o Paquistão foi fundado com a crença de que o mundo necessitava de um estado mulçumano que fornecesse aos mulçumanos status igual e governo sob a lei islâmica. Conseqüentemente, a política exterior da Índia continua a concentrar-se na ameaça paquistanesa – aparentemente, tudo mais é secundário, embora a Índia tenha desenvolvido um cenário de duas frentes em sua estratégia de segurança nacional, após a ação militar bem-sucedida da China contra ela, em 1962.4 A Índia sempre se sentiu superior ao Paquistão, atitude reforçada por ter derrotado claramente este país em 1971. Entretanto, após ter a Índia testado uma arma nuclear, em 1974, o Paquistão iniciou seu próprio caminho encoberto para conseguir o status de potência nuclear. Com efeito, quando a Índia realizou sua demonstração nuclear subseqüente, em 1998, o Paquistão respondeu da mesma maneira, com o seu próprio teste. Agora era evidente para o mundo que tanto a Índia quanto o Paquistão pretendiam dirigir suas capacidades nucleares um contra o outro. Outras disputas entre Paquistão e Índia surgem da disputa aparentemente irresolúvel a respeito de Caxemira. Além disso, a degradação de suas relações ocorreu com a chamada tática de terrorismo patrocinado pelo Estado, usado pelos paquistaneses especialmente na região de Caxemira. A despeito de confiarem os Estados Unidos no Paquistão, como aliado na guerra global ao terrorismo, a Índia continua a insistir que seu vizinho é um inimigo e uma fonte de grande parte do terrorismo no mundo.5
Relações Estados Unidos–Índia
A posição de não-alinhamento da Índia a colocou em confronto com os Estados Unidos. Os Estados Unidos viram, inicialmente, a Índia – a maior democracia do mundo – como algo valioso que era necessário prevenir contra os comunistas. Quando a Índia não ficou do lado dos Estados Unidos durante a Guerra da Coréia, o secretário de estado John Foster Dulles chamou os indianos de “imorais”. Ao longo do tempo, os Estados Unidos acabaram por aceitar a política de não-alinhamento da Índia como um aborrecimento, mas não uma ameaça. Como resultado, a Índia desfrutou de benefícios tanto dos Estados Unidos quanto da União Soviética, favorecendo-se, desse modo, com a Guerra Fria, durante algum tempo. Contudo, à medida que os Estados Unidos ficavam cansados com a relação soma zero entre a Índia e o Paquistão, bem como com a incapacidade que eles revelavam para resolver suas diferenças, procurou distanciar-se desse continuado conflito. Quando a Guerra Indo-Paquistanesa de 1971 resultou na derrota fragorosa do Paquistão, a Índia emergiu como potência regional do sul da Ásia,6 mas os Estados Unidos perderam a paciência com ambos os países, por causa de sua prática de usarem armas e auxílio dos Estados Unidos para combaterem um ao outro. Com a detonação da ogiva nuclear indiana, em 1974, os Estados Unidos novamente se opuseram à Índia, com base na não-proliferação, procurando fazer com que aquele país terminasse o processo de testar armas nucleares e armar-se com elas.7 Entrementes, o Paquistão também passou a ter a capacidade nuclear, presumivelmente com a ajuda da China, e levou a efeito seus próprios testes nucleares. Mais uma vez, a Índia acreditou que os Estados Unidos estavam tentando dificultar seu estado hegemônico, promovendo mais sanções e tocando as fanfarras da não-proliferação na arena internacional. Tornando-se mais atolados no Vietnã, os Estados Unidos retiraram seu auxílio tanto à Índia quanto ao Paquistão. A Índia começou a ver o desenho do apoio dos Estados Unidos ser seguido por sanções quando desagradava à América. Ou então os Estados Unidos ignoravam totalmente a Índia, optando por cortejar o Paquistão, a China e – mais tarde – até a União Soviética. Não é surpresa que a Índia se tenha tornado crescentemente desconfiada em relação aos Estados Unidos e, embora inclinada inicialmente ao não-alinhamento, se tenha tornado cada vez mais próxima da União Soviética.8
Relações União Soviética-Índia
A Índia não considerava a União Soviética, de modo algum, como ameaça. Embora os dois países estivessem muito afastados ideologicamente, Jawaharlal Nehru, primeiro-ministro inicial da Índia, admirava a capacidade soviética de se ter tornado uma potência mundial construindo a própria economia, forças armadas e poder político em seus próprios termos. Na verdade, a União Soviética tornou-se o modelo econômico da Índia para a construção de uma infra-estrutura de estradas, barragens e usinas elétricas, e seu principal benfeitor em termos de vendas de armas.9 Obviamente, esta relação com a Rússia aumentou as tensões da relação com os Estados Unidos.10 Mas a União Soviética não ajudou a Índia na questão nuclear, e sua invasão do Afeganistão, em dezembro de 1979, pegou a Índia de surpresa, pondo à prova a relação dos dois países. Além disso, o colapso da União Soviética degradou gravemente a prontidão militar da Índia, porque, sem auxílio soviético, já não podia manter logisticamente seu equipamento.11 Desalentada por ver como os israelenses haviam usado a tecnologia ocidental e dos Estados Unidos para derrotar facilmente os árabes e suas armas fornecidas pelos soviéticos, a Índia buscou novamente o Ocidente.12
Relações China-Índia
As relações sino-indianas também experimentaram muitos altos e baixos, durante e após a Guerra Fria. Nehru planejava uma relação estreita entre seu país e a China, com vistas a ambos tornarem-se fortes aliados regionais com uma posição importante na mesa mundial. Não haveria, porém, de ser assim. Uma vez que os dois países tinham grande potencial e não tinham ambições territoriais adicionais, Nehru acreditava que compartilhariam um caminho comum. Ambos estavam nas laterais, assistindo à Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Ambos tinham grandes populações e precisavam construir suas respectivas economias. Ambos aspiravam a tornarem-se grandes potências e tinham o requisito potencial para virem a sê-lo.13 Portanto, a Índia – o segundo país a reconhecer formalmente a República Popular da China como representante única da China – ficou compreensivelmente surpresa em 1962, quando as disputas fronteiriças entre os dois países sofreram uma escalada e a China invadiu partes da Índia, apoderando-se de um pedaço de seu território. Como resultado da agressão chinesa, a Índia continua com a disputa fronteiriça entre os dois países até hoje.
Piorando as relações entre China e Índia, o Paquistão cedeu cerca de 5.800 km2 da Caxemira indiana à China, em 1963. Além disso, em 1965, durante o conflito indo-paquistanês, a China forneceu armas ao Paquistão e acusou a Índia de “agressão criminosa”.14 Entretanto, porque estava firmemente decidida a permanecer superior militarmente ao Paquistão, a Índia adotou uma política de acomodação com a China – um movimento indubitavelmente motivado pela percepção indiana de que jamais poderia ganhar qualquer outro conflito contra a China. À medida, porém, que a China se tornou cada vez mais favorável ao Paquistão, a Índia fortaleceu seus laços com a União Soviética. A invasão do Afeganistão, pela União Soviética, em 1979, fez com que os Estados Unidos e a China se tornassem mais ativos na região, ambos, uma vez mais, fornecendo ajuda e equipamento militar ao Paquistão.15
Atuais e futuras relações China–Índia
Ainda preocupada com a disputa fronteiriça mencionada acima, a Índia continua cautelosa em seu tratamento com a China, que não tem pressa em resolver o problema, embora a Índia continue a pressionar quanto a essa questão a cada visita de intercâmbio.16 A Índia também olha a China de maneira reticente por causa de sua história recente com o Paquistão. De maneira específica, a China forneceu ao Paquistão muito do seu armamento e tecnologia, incluindo-se, muito provavelmente, sua capacidade nuclear. A China ainda se recusa a reconhecer Sikkim como parte legítima da Índia, tendo chamado isto de “anexação ilegal”, em 1975, e insiste em dificultar a busca, pela Índia, de um assento permanente no conselho de segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).17
Outro empecilho nas relações China-Índia é a posição da Índia a respeito da autonomia do Tibete e dos direitos humanos. A Índia forneceu refúgio a diversos líderes espirituais tibetanos exilados, e a China referiu-se, severamente, ao encontro entre o primeiro-ministro indiano Shri Atal Bihari Vajpayee e o Dalai Lama, em 1998, como interferência em seus assuntos internos. A Índia irritou ainda mais a China permitindo que este e outros tibetanos exilados manifestassem seus pontos de vista e influenciassem a opinião mundial a respeito do tratamento do seu povo.18 A despeito dessas dificuldades, os líderes políticos indianos afirmam que desejam boas relações com a China. Negam ver a China como ameaça, embora as forças armadas indianas pareçam, claramente, pensar de outro modo. Além disso, o Ministério de Relações Exteriores fala a respeito de cooperação com a China e oportunidades de comércio; todavia, funcionários de alta hierarquia identificaram verbalmente a China e o Paquistão como as duas ameaças principais contra a Índia. Uma corroboração adicional ocorreu no começo de março de 2003, quando jornais indianos descreveram as aeronaves Su-30 MKI, compradas recentemente, como meios para lançar armas nucleares em qualquer parte da China. Essas referências abertas à China como ameaça parecem desmascarar a retórica de cooperação que se ouvem em alguns círculos.19
O relatório anual de 2001-2 publicado pelo Ministério das Relações Exteriores indiano afirma que a Índia “busca relações amigáveis, cooperativas, de boa vizinhança e mutuamente benéficas com a China, com base nos Cinco Princípios de Coexistência Pacífica, enunciados conjuntamente pelos dois países. A Índia busca uma relação estável de longo prazo baseada na igualdade, em que ambos os lados sejam sensíveis às preocupações um do outro”.20 Entretanto, parece à Índia que a China não foi suficientemente sensível para resolver as disputas fronteiriças que perduram por bastante tempo e não considera a Índia como igual.
Nas últimas décadas, a Índia tem buscado a resolução da questão de fronteira. Desde que as relações diplomáticas em nível de embaixador foram retomadas, em 1976, após um hiato de 25 anos, a Índia e a China deram passos para fortalecer medidas de cooperação. Em 1988, Rajiv Gandhi, primeiro-ministro indiano, visitou a China e, quando os dois países retomaram o diálogo diplomático em alto nível, decidiram estabelecer um grupo de trabalho conjunto para discutir as fronteiras. Como resultado da visita do primeiro-ministro Nara-simha Rao, em 1993, a China e Índia assinaram um acordo de Paz e Tranqüilidade na Fronteira e estabeleceram o Grupo de Especialistas de Diplomatas e Militares Indianos e Chineses para auxiliar nas tarefas do grupo de trabalho conjunto. Do lado chinês, o premier Li Peng visitou a Índia em 1991 e o presidente Jiang Zemin o fez em 1996. Durante a visita deste último, os dois lados estabeleceram o Acordo de Medidas de Construção de Confiança no Campo Militar ao Longo da Linha de Controle de Fato nas Áreas de Fronteira entre a China e a Índia. Ambos os países concordaram em trabalhar para uma relação construtiva e cooperativa durante o século XXI. Não obstante, embora o grupo de trabalho conjunto se tenha reunido 13 vezes desde sua criação, o problema de fronteira continua sem ser resolvido.21 Outros esforços cooperativo incluem seis memorandos de entendimento e acordos, assinados em Nova Déli, em 14 de janeiro de 2002, que tratam de cooperação em áreas de ciência e tecnologia, espaço exterior, turismo, medidas fitossanitárias e de fornecimento à Índia, por parte da China, de dados hidrológicos a respeito do rio Brahmaputra, durante a estação das cheias.22
Após o teste nuclear levado a efeito pela Índia em 1998 e sua revelação de que a ameaça chinesa o tornara necessário, ambos os países concordaram com a necessidade de um diálogo bilateral em matéria de segurança. Cerca de um ano após retomarem relações, a Índia e a China declararam que não consideravam uma à outra como ameaça. A primeira reunião do diálogo de segurança ocorreu em Beijing, em março de 2000, e a segunda, em Nova Déli, em fevereiro de 2001. Após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, a Índia e a China concordaram que deveriam manter uma estreita cooperação e estabelecer um diálogo bilateral contra o terrorismo. Os líderes chineses também observaram que, uma vez que ambos os países se sentem ameaçados pelos Estados Unidos, devem cooperar para contra-balançar a América.23 Segundo Zhou Gang, embaixador da China em Nova Déli, “a ameaça não é da China à Índia, nem da Índia à China. Vem de outros lugares. . . . Só existe uma força dominadora do mundo, e afirmar sua dominação é criar um mundo unipolar. É bastante realístico [para Índia e China] aperfeiçoarem [suas] relações em uma parceria cooperativa”.24
Quando Li Changchun, membro do polit-buro do partido comunista chinês e secretário do partido na província de Guangdong, visitou a Índia, em maio de 2001, afirmou que Índia e China eram os maiores países em desenvolvimento no mundo e que tinham a responsabilidade de promover o desenvolvimento econômico, o bem-estar de ambos os povos e o fortalecimento dos laços bilaterais. Também observou que os dois países compartilhavam mais coisas em comum do que diferenças e que ambos os lados concordavam com a existência de oportunidades concretas para o desenvolvimento de comércio bilateral.25
Este comércio cresceu rapidamente na última década. Em 1991, o volume de comércio entre os dois países era de US$265 milhões, e em 2001 chegou a US$3,6 bilhões. O crescimento desde 2000 até 2001 foi de 23,4%. A Índia importa mais do que exporta para a China, tendo as importações crescido 21,5%, de 2000 a 2001. Suas principais exportações incluem minério, lava, cinza vulcânica, fios/ tecido de algodão, plásticos, substâncias químicas orgânicas, combustível mineral, petróleo, fios/tecido de seda e maquinário. Para ambos os países, contudo, seu comércio bilateral é significativamente menor do que o resto do seu comércio exterior. A Índia e a China continuam a intercambiar delegações comerciais e mostras de produtos; além disso, cada uma delas estabeleceu joint ventures e companhias de sua inteira propriedade no outro país. As companhias indianas na China incluem as empresas farmacêuticas Cadilla e Wockhardt, Orissa Industries Ltd., Infosys, Tata Exports, Torrent Group, Lupin Laboratories e Kanoria Chemicals and Industries.26
A despeito desses movimentos, muito há a ser feito. A cooperação bilateral significativa exigirá mudanças na percepção de ameaça tanto da China quanto da Índia, a abstenção de rivalidade aberta a respeito de questões regionais, melhor gerenciamento das relações de cada um desses países com o Paquistão e resolução final de sua questão fronteiriça.27
A retórica dos funcionários do governo, tanto da Índia quanto da China, sugere que ambos consideram um ao outro como amigos e buscam a cooperação e a harmonia. Embora a Índia e a China tenham concordado em melhor e maior cooperação a respeito da solução das fronteiras, segurança, luta contra o terrorismo e comércio, a Índia ainda vê a China de maneira suspicaz. Ainda em março de 2003 discussões e exposições de funcionários do governo e militares de elevada hierarquia demonstraram que a Índia vê a China como uma das suas duas grandes ameaças.28 A Índia, agora, baseia sua estratégia de segurança em um cenário de duas frentes, usando a ameaça chinesa como razão de adquirir novos sistemas de armas. Com efeito, a China pode alcançar todas as partes da Índia com seu arsenal nuclear e a Índia comprou recentemente aeronaves Su-30 MKI, fabricadas na Rússia, já mencionadas, como resposta a essa ameaça e parte do esforço de preencher a lacuna militar entre os dois países. Parece que a Índia acredita que a China a tratará em condições de igualdade apenas se ela puder oferecer à China uma ameaça nuclear recíproca. Adicionalmente, os indianos ficam frustrados com o andamento “glacial” dos esforços de solução dos problemas de fronteira. A China tem-se mostrado lenta nesta questão desde que os dois países começaram seu diálogo, em 1998. Em poucas palavras, a Índia acha que a China não a considera uma potência regional ou asiática legítima. Para superar esta percepção, muitos indianos sentem necessidade de construir um arsenal militar mais forte e melhor. Já outros argumentam que a Índia jamais conseguirá vencer uma corrida armamentista contra a China.29
Além disso, a Índia e a China são rivais no mercado, competindo por negócios na Ásia, Europa e Estados Unidos. Embora busquem a cooperação em algum nível, tenham certamente aperfeiçoado o comércio bilateral, os dois produzem, em muitos casos, os mesmos bens; ambos têm populações de um bilhão de pessoas para empregar, e o empobrecimento de suas grandes populações lhes dá um poder aquisitivo pequeno. Mais uma vez, a China tem vantagens sobre a Índia em termos de bens, serviços e acesso a outros mercados. Por exemplo, os Estados Unidos mostraram muito mais interesse no comércio com a China do que com a Índia.30
Outros empecilhos a uma cooperação bilateral mais próxima incluem a posição da China a respeito de Sikkim e a posição da Índia a respeito do Tibete. Também a recusa da China de apoiar os esforços indianos de obter assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) impede uma cooperação de plena escala entre os dois.31
Embora a China e a Índia tenham concordado na guerra contra o terrorismo, a Índia continua reticente às relações da China com o Paquistão. No passado, a China forneceu ao Paquistão muitas armas e, historicamente, a relação deles buscou contrabalançar o poder indiano-soviético. Com a desintegração da União Soviética, será interessante ver como vão evoluir essas relações. Hoje, o Paquistão é um parceiro ativo dos Estados Unidos e do Ocidente na guerra global contra o terrorismo, mas a Índia sempre afirmou que o Paquistão é o principal perpetrador de grande parte da atividade terrorista, como se mencionou antes.32 Esta questão precisa ser tratada, se deve ocorrer maior cooperação.
Se a China e a Índia cooperassem a respeito de segurança e economia, o que significaria isto para os Estados Unidos? Poderiam elas efetivamente excluir os Estados Unidos das questões regionais e contrabalançar o poder dos Estados Unidos tanto regional como globalmente? Os Estados Unidos vêem a China como seu único quase-semelhante potencial no próximo par de décadas. Por outro lado, embora os Estados Unidos se tenham confrontado durante a maior parte da sua história, com a Índia, a atual administração procura solidificar uma relação cooperativa. Independentemente de se a pessoa é um idealista buscando maior potencial para valores compartilhados e globalização de mercado ou se é um realista procurando uma oportunidade de contraba-lançar a China com o peso de 1 bilhão de pessoas, os Estados Unidos se beneficiariam se o nível de cooperação entre a Índia e a China permanecesse baixo. Ambos os países fornecem mercados enormes para o comércio dos Estados Unidos, embora cada um precise de uma classe média maior, para que os Estados Unidos se beneficiem substancialmente. Do ponto de vista militar, os Estados Unidos continuam a ser reticentes em relação à China e poderiam usar o poder militar e as informações indianas para ajudar a manter a China em xeque. De maneira clara, as forças armadas chinesas são superiores, atualmente, às da Índia, mas uma Índia mais forte, com capacidade nuclear, pode, pelo menos, fornecer outra preocupação de segurança à China. Como observou o secretário de estado Colin Powell, na audiência de sua confirmação, “precisamos tratar de maneira mais sensata com a maior democracia do mundo. . . . A Índia tem potencial de manter a paz na imensa área do Oceano Índico e sua periferia”. Esta declaração bem pode indicar que os Estados Unidos já não percebem a China apenas como um mercado importante, mas sim como um competidor estratégico que precisa ser contido na Ásia.33
Muitos altos e baixos marcaram a história das relações sino-indianas. Hoje em dia, certo número de observadores acredita que a China e a Índia podem tornar-se parceiros cooperativos para contrabalançar a hegemonia dos Estados Unidos, mas, em realidade, a Índia ainda vê a China como uma de suas duas principais ameaças. Assim, os Estados Unidos fariam bem em fortalecer seus laços com uma Índia mais robusta e dotada de capacidade nuclear, de maneira a contrapor-se ao crescimento da importância estratégica e da influência da China.
A Índia continua em busca de hegemonia regional e influência global. Assim, laços mais fortes com os Estados Unidos contribuiriam para sua estatura como participante da cena mundial. Por outro lado, a Índia trata a China com cautela, e tratará de maneira semelhante os Estados Unidos, por causa da história deste último em impor sanções à Índia e isolá-la. Ainda está por acontecer que os Estados Unidos desenvolvam uma parceria, que beneficiará ambas as partes, com a maior democracia do mundo – meta implícita da atual administração dos Estados Unidos e das administrações anteriores ao estenderem a mão à Índia na tentativa de recompensá-la. Como delineado na atual estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, “os Estados Unidos empreenderam uma transformação em suas relações bilaterais com a Índia, baseados na convicção de que os interesses dos Estados Unidos exigem uma relação forte com a Índia”.34 Se nosso país permanecer fiel a este curso, a Índia e os Estados Unidos podem tirar vantagem de maiores oportunidades de comércio bem como de segurança estratégica contra a China.
Notas
1. Shri George Fernandes, “Concluding Address at the Fifth Asian Security Conference Organised by the Institute for Defence Studies and Analyses”, Strategic Digest, February 2003, 95.
2. Stephen P. Cohen, India: Emerging Power (Washington, D.C.: Brookings Institution, 2001), 72.
3. Ibid., 168.
4. Ibid., 203.
5. Exposição do Indian Integrated Defense Staff (IDS) aos alunos e professores da US Air War College, assunto: Descrição Genérica da Organização e Questões de Segurança, março de 2003.
6. Cohen, 137.
7. Amit Gupta, CRS Report to Congress: US-India Security Relations (Washington, D.C.: Congressional Research Service, November 2002), CRS-3.
8. Cohen, 270–71.
9. Ibid., 38.
10. Ibid., 142.
11. Ibid., 249–50.
12. Ibid., 139.
13. Ibid., 25.
14. “India’s Foreign Relations: China,” Ministry of External Affairs, Government of India, March 2003, on-line, Internet, 16 de junho de 2003, acesso em http://www. meadev.nic.in/foreign/china.htm.
15. Gupta, CRS-3.
16. Mark W. Frazier, “China-India Relations since Pokhran II: Assessing Sources of Conflict and Cooperation,” Access Asia Review 3, no. 2 (2000): n.p., on-line, Internet, 16 de junho de 2003, acesso em http://www. nbr.org/publications/review/vol3no2/essay.html.
17. “India’s Foreign Relations: China.”
18. Frazier.
19. Exposição do IDS.
20. Ministry of External Affairs, Government of India, Annual Report, 2001–2002, 25, on-line, Internet, 15 de julho de 2003, acesso em http://meadev.nic.in/A Report2002.pdf.
21. “India’s Foreign Relations: China.”
22. Ibid.
23. Ibid.
24. Frazier.
25. “India’s Foreign Relations: China.”
26. Ibid.
27. Waheguru Pal Singh Sidhu e Jing-Dong Yuan, “Resolving the Sino-Indian Border Dispute: Building Confidence through Cooperative Monitoring,” Asian Survey 41, no. 2 (March–April 2001): 351–76, republicado em South Asia Regional Studies Reader (Maxwell AFB, Ala.: USAF Air War College, 2003), 156.
28. Exposição do IDS.
29. Cohen, 163–64.
30. Gupta, CRS-21.
31. “India’s Foreign Relations: China.”
32. Exposições, Indian Ministry of External Affairs and the Integrated Defense Staff aos alunos e professores da US Air War College, assunto: Visão Estratégica da Índia—Paquistão, China, Ameaças e Esforços de Cooperação, março de 2003.
33. Gupta, CRS-4; e “Prepared Statement of Colin L. Powell, Confirmation Hearing before the Senate Foreign Relations Committee, January 17, 2001,” Bush Team Confirmation Hearings, on-line, Internet, 16 de junho de 2003, acesso em http://www.acronym.org.uk/53bush. htm.
34. George W. Bush, The National Security Strategy of the United States of America (Washington, D.C.: The White House, September 2002), 27, on-line, Internet, 16 de junho de 2003, acesso em http://www.whitehouse. gov/nsc/nss.pdf.
A Tenente-Coronel Mona Lisa D. Tucker (Bacharelado, Georgia Institute of Technology; Mestrado, Saint Mary’s University; Mestrado em Estudos Estratégicos, Air War College) é subcomandante do 89º Grupo de Comunicações, Base Aérea Andrews, Maryland. Comandou o 50º Esquadrão de Comunicações, Base Aérea Schriever, Colorado, foi oficial de estado-maior no Comando Espacial dos Estados Unidos e comandante do 71º Esquadrão de Comunicações, Base Aérea Vance, Oklahoma. A Ten Cel Tucker conclui com êxito os cursos da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, Escola de Comando e Estado-Maior e Air War College, todas pertencentes à USAF.
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