Documento criado em 26 Julho 04
ASPJ  Em Português 3° Trimestre 2004


Resenhas Críticas


Fighting with the Screaming Eagles: With the 101st Airborne from Normandy to Bastogne, de Robert M. Bowen, organizado por Christopher J. Anderson. Stackpole Books (http://www.stack polebooks.com), 5067 Ritter Road, Mechanicsburg, Pennsylvania 17055-6921, 2001, 240 páginas, US$29.95.

O livro Fighting with the Screaming Eagles, de Robert M. Bowen, conta uma história minuciosa das experiências de um homem e sua companhia de infantaria de planadores na invasão aliada da Europa Ocidental, em 1944-1945. Desde o treinamento com a 101ª Divisão Aeroterrestre no Fort Bragg, Carolina do Norte, o deslocamento pelo Atlântico até a Inglaterra e a invasão do dia-D—e, em seguida, desde os ferimentos sofridos no campo de batalha, à captura na Batalha das Ardenas e finalmente à libertação de um campo de prisioneiros de guerra (PG)—a narrativa de Bowen transmite a gama completa de emoções e experiências de um combatente americano no teatro de operações europeu durante a Segunda Guerra Mundial.

A narrativa do autor inicia-se com o processo de apresentação no Fort George Meade, em Maryland, e sua transferência para o Fort Bragg, Carolina do Norte e o 401º Regimento de Infantaria de Planadores da 101ª. Divisão Aeroterrestre. Bowen fornece um relato circunstanciado de suas experiências na Inglaterra antes da invasão; passando pela Operação Overlord; pelo combate na França, Holanda e Bélgica e, finalmente, até sua detenção na Alemanha. Concentrando-se tanto em suas próprias experiências quanto nas de sua unidade, seu livro representa uma das pouquíssimas narrativas sobre unidades de infantaria de planadores na Europa Ocidental.
Bowen elaborou sua narrativa logo após a guerra, recorrendo a suas lembranças e à coleção de cartas que escreveu para sua esposa no decorrer da campanha. A precisão de suas descrições e sua capacidade de contar história dão vida à sua experiência, provando, uma vez mais, que não há substitutos para o historiador que viveu o seu próprio tema.

O heroísmo de Bowen e de seus camaradas, que é por ele descrito de forma atenuada, brilha em sua humildade e franqueza. A perspicácia do autor, bem como sua capacidade de cultivar as imagens de suas experiências nas mentes dos seus leitores, faz de Fighting with the Screaming Eagles uma valiosa contribuição ao crescente corpo de trabalhos que cobrem a invasão aliada da Europa Ocidental na Segunda Guerra Mundial.

1º Ten Jay Hemphill, USAF
Edwards AFB, California

The Kremlin’s Nuclear Sword: The Rise and Fall of Russia’s Strategic Nuclear Forces, 1945–2000, de Steven J. Zaloga. Smithsonian Institution Press (http://www.sipress.si.edu), 750 Ninth Street NW, Suite 4300, Washington, D.C. 20560-0950, 2002, 288 páginas, US$45.00 (encadernado).

Este resumo histórico registra os pontos altos e as armadilhas do desenvolvimento de armas soviético. Bem documentado e utilizando novos materiais de fontes russas, lança luz sobre os segredos soviéticos e russos. Durante a Guerra Fria, este livro teria sido uma mina para as agências de inteligência do Ocidente, uma vez que as informações minuciosas sobre os sistemas e o processo decisório soviético referente a aquisição de armas eram envoltos em segredo. Inicialmente, os leitores ocidentais se debaterão com os codinomes e a nomenclatura dos sistemas de armas soviéticos—muitos deles sequer correspondem aos termos encontrados em tratados de controle de armas patrocinados pela União Soviética. A prática de dualidade nos nomes levou a algumas polissemias interessantes. Por exemplo, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) denominou um submarino nuclear Akula e os soviéticos também chamaram de Akula a classe de seus maiores submarinos portadores de mísseis (que o Ocidente denominou Typhoon). As diferentes versões dos mísseis são ainda mais difíceis de serem perfeitamente identificadas, já que o Ministério de Defesa Soviético e os projetistas dos próprios mísseis usaram, todos eles, terminologias diferentes para descrever o mesmo míssil ou sua versão modificada. Contudo, a introdução de Zaloga, os apêndices e uma lista de referência cruzada entre Soviética/ OTAN, servem de meios auxiliares para o leitor de orientação militar. 

Por meio da ajuda de fontes recentemente disponíveis, o livro documenta as percepções de ameaça que levaram a União Soviética a desenvolver, construir e desdobrar forças nucleares, em especial mísseis balísticos intercontinentais baseados em terra (ICBM). A força aérea soviética, incômoda no que se referia a foguetes e mísseis nos anos 50, perdeu efetivo e três exércitos aéreos para as então recentemente formadas Forças de Foguetes Estratégicos, quando a liderança do Partido Comunista decidiu que foguetes seriam melhores do que bombas. Superando obstáculos tecnológicos, a marinha finalmente obteve mísseis submarinos nos anos 60 e Zaloga descreve as dificuldades encontradas durante este processo.

Semelhantemente a Russian Strategic Nuclear Forces (2001), de Pavel Podvig, o livro de Zaloga cobre de modo bastante minucioso os desenvolvimentos soviéticos em armamentos nucleares. Zaloga, contudo, tem algumas surpresas e insinua que poderão surgir mais quando os arquivos da era soviética se tornarem disponíveis. Particularmente intrigante é sua narrativa a respeito de como a indústria de defesa soviética manipulou e influenciou o ministro de defesa soviético e a liderança política com vistas a obterem decisões favoráveis referentes a financiamento e produção. Contínuos problemas técnicos e profundos receios xenófobos forçaram a União Soviética a desenvolver e desdobrar sistemas nucleares em maior quantidade do que o Ocidente. Essas motivações são especialmente expressivas no caso dos mísseis. O desejo de alcançar a paridade e, em seguida, a superioridade nuclear face ao Ocidente levou os soviéticos a desdobrarem um número ainda maior de armas. Zaloga também discute armamento defensivo, se bem que lamentavelmente o faça de modo mais resumido do que em seus capítulos sobre armas ofensivas. Não obstante, ele explica como sucedeu uma das grandes controvérsias de controle de armas EUA-USSR—aquela sobre o radar de alerta contra mísseis balísticos em Krasnoyarsk. Além disso, uma vez que líderes soviéticos desconfiados consideravam o ônibus espacial dos EUA uma arma, determinaram que ele fosse rastreado e visado como alvo pelo FON-1, um sistema embriônico de mísseis antibalísticos baseados em terra que afetou a tripulação do ônibus espacial. O leitor irá encontrar muitas outras historietas como esta que tornam o texto de leitura ainda mais fácil.

A história do ICBM móvel SS-16, tal como narrada neste livro, deve servir de motivo para certa preocupação, já que as afirmativas feitas pelo serviço de inteligência no início dos anos 70 parecem ser verdadeiras—especificamente, que o sistema foi desdobrado sigilosamente e mantido fora do alcance dos meios técnicos nacionais americanos para garantir que os órgãos de inteligência dos EUA jamais se inteirassem de sua existência. Zaloga também mostra o efeito que a estagnação do final dos anos 80 exerceu sobre a União Soviética e como a Iniciativa de Defesa Estratégica e outros sistemas de armas americanos finalmente levaram a USSR à ruína. Os sistemas de comando e controle implementados pela USSR ao longo dos anos tornaram-se mais desesperados, resultando, ao final, em um sistema semi-automático que poderia ter desencadeado um ataque final devastador, caso a liderança soviética tivesse sido morta em Moscou. Zaloga é um dos primeiros autores a documentar como as armas nucleares foram retornadas à Rússia após a União Soviética fracassar e quatro estados sucessores emergirem com essas armas. As tentativas da Rússia de modernizar seu arsenal nuclear e os custos associados a isso, em termos tanto financeiros quanto humanos, são cobertos no último capítulo. Essa modernização, que continua até hoje, mostra como a antiga superpotência ainda deseja apegar-se, por meios nucleares, à condição de grande potência.

Embora The Kremlin’s Nuclear Sword ainda careça de algumas minúcias incorporadas nos 55 anos que cobre, este resumo certamente ajuda o leitor a compreender como a União Soviética conduzia seus assuntos nucleares. O que destaca este livro é sua facilidade de leitura. Estruturado cronológica e funcionalmente em torno dos sistemas de armas soviéticos, ele apresenta um tratamento abrangente de alto nível. Cabe agora a livros futuros tratar de questões técnicas e operacionais referentes a cada sistema de armas.

Cap RR Gilles Van Nederveen, USAF
Alexandria, Virginia

The Forgotten Air Force: French Air Doctrine in the 1930s, de Anthony Christopher Cain. Smithsonian Institution Press (http://www.sipress.si. edu), 750 Ninth Street NW, Suite 4300, Washington, D.C. 20560-0950, 2002, 248 páginas, US $34.95 (encadernado).

O rápido colapso da França em 1940—o país sucumbiu em seis semanas ao ataque alemão—foi um grande choque para a maior parte do mundo. Alguns estudos pós-fato tentaram determinar a razão exata da derrota da França. Agora, Anthony Christopher Cain, um tenente-coronel da Força Aérea recentemente designado editor da Air and Space Power Journal, examinou a força aérea francesa e o papel por ela desempenhado nessa débâcle. Cain procede ao seu exame por meio da revisão da Armée de l’Air do primeiro pós-guerra, concluindo que os homens do ar franceses foram açoitados por uma sucessão de convulsões e maquinações políticas de um exército e marinha indignados e cobiçosos. Como resultado, os homens do ar adotaram uma política de “defesa reativa”—ou seja, reconheceram o ânimo defensivo e cansado de guerra dos políticos e exército franceses, passando a adotar conscientemente um caminho que iria encaixar a política aérea nessas modalidades defensivas. Isso demonstrou-se insensato.

A força aérea francesa era a maior e mais poderosa do mundo quando do final da Primeira Guerra Mundial, em 1918. Embora não fosse uma força independente, granjeou, não obstante, certo prestígio por seu excelente desempenho durante a guerra. As coisas, contudo, logo se deterioraram. A desmobilização golpeou a Arma aérea de maneira especialmente forte, em parte porque os oficiais do Exército que a comandavam davam preferência ao encaminhamento de verbas para forças e equipamentos terrestres. Em acréscimo, os políticos franceses refletiam o ânimo do povo, que se achava crescentemente temeroso e pessimista quanto ao ressurgimento da Alemanha. A política de defesa—prontamente apoiada pelo Exército—concentrou-se cada vez mais em uma postura defensiva no leste. A Linha Maginot permaneceria como uma trincheira de concreto impregnável quando os alemães retornassem. A teoria aérea, que na França enfatizava a natureza ofensiva e revolucionária do ataque aéreo estratégico (da mesma forma que na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e na Itália), foi nitidamente mal-recebida nesse ambiente passivo. Mesmo quando a força aérea tornou-se uma força independente em 1933, os homens do ar julgaram prudente concentrar-se no apoio a forças de terra. De modo irônico, a guerra iria mostrar que eles tampouco desempenharam particularmente bem esta missão.

Cain argumenta que Pierre Cot, ministro do ar no decorrer da maior parte da década de 30, percebeu o perigo dessa postura e tentou corrigi-la por meio de um esforço vigoroso de formulação de doutrina, reorganização da indústria aeronáutica, jogos e exercícios de guerra mais realísticos e uma instituição de treinamento mais robusta. Desafortunadamente, seus esforços deram em nada. À medida que a guerra se aproximava, o exército apertava seu controle sobre a força aérea e, já em 1940, comandantes terrestres mais uma vez controlavam todos os meios aéreos. Os esforços de Cot no sentido de reformar a indústria de aviação francesa tiveram destino semelhante. Mesmo diante da iminente ameaça alemã, as companhias não puderam ser induzidas a enxugar e modernizar o processo de produção. Quando chegou a maré alemã em maio de 1940, as aeronaves disponíveis eram pouquíssimas e demasiado lentas. Assim, a França de 1940 serve como o exemplo clássico de como má estratégia e más decisões políticas podem ter resultados catastróficos.

Na verdade, os desafios diante da Força Aérea francesa entre as duas guerras mundiais não lhe eram exclusivos. Tanto na Grã-Bretanha quanto nos Estados Unidos, cortes orçamentários causaram grande prejuízo às Armas aéreas. Na Grã-Bretanha, por exemplo, a Real Força Aérea (RAF) recebeu em média meros 15% do orçamento de defesa; e nos Estados Unidos, o Corpo Aéreo teve percentual ainda menor. De modo similar, a RAF achou-se constantemente sob ataque do Exército e da Marinha, que tentavam reverter a institucionalização da RAF como força independente e retomar as aeronaves que perderam em 1918. Nos Estados Unidos, é claro, o Exército controlou firmemente seu Corpo Aéreo e reprimiu toda conversa sobre uma força independente. Em acréscimo, a Grã-Bretanha—e em muito menor grau os Estados Unidos—tinha que atender às necessidades de defesa imperial com uma série de governos muito mais interessados no desarmamento do que no rearmamento. Ainda assim, a RAF e o Corpo Aéreo conseguiram enunciar uma doutrina de poder estratégico que contribuiria para o seu êxito na guerra. O que ocorreu na França?

Cain não nos diz qual foi o percentual do orçamento da defesa alocado para a Força Aérea francesa no período entre as duas guerras mundiais, nem seu efetivo em termos de aeronaves e pessoal. Tampouco aprendemos que papel a Escola de Estado-Maior e a Escola de Guerra desempenharam em educar (em oposição a treinar) seus alunos quanto à guerra futura. Não obstante, ficamos com a impressão clara de que a Força Aérea francesa sofreu de uma notória falta de líderes eficazes e vigorosos no primeiro pós-guerra. O livro não faz menção a comandantes dominantes como Hugh Trenchard; incitadores como Billy Mitchell, que colocava a força acima de si próprio; ou mesmo os tipos de oficiais de iniciativa e criativos da Escola de Estado-Maior da RAF e da Escola Tática do Corpo Aéreo, que formularam uma doutrina de bombardeio estratégico—a despeito do que as outras Forças e os políticos diziam desse método de guerra. Quando os generais do exército francês punham exigências, os líderes da Força Aérea cediam. Cain conclui que esses líderes não eram decadentes, traidores ou estúpidos. Talvez não, contudo tampouco parecem ter sido desprendidos, visionários ou brilhantes.

The Forgotten Air Force é um bom livro com algumas lições importantes. A Força Aérea francesa caiu da primeira para a última posição em um período extraordinariamente curto. A liderança—ou, mais precisamente, a falta dela—revelou-se fundamental nesse parafuso fatal. Devemos todos preocupar-nos a respeito de se nossa Força Aérea está cultivando, ou não, os tipos de líderes e pensadores que irão assegurar nossa prontidão em conflitos futuros.

Coronel RR Phillip S. Meilinger, USAF
McLean, Virginia

The Military History of Tsarist Russia, editado por Frederick W. Kagan e Robin Higham. Palgrave Macmillan (http://www.palgraveusa.com), 175 Fifth Avenue, New York, New York 10010, 2002, 272 páginas, US$59.95 (encadernado).

Este livro, primeira visão-geral em inglês, em um único tomo, sobre o desenvolvimento das Forças Armadas da Rússia, é formado por 13 monografias que cobrem desde o surgimento do exército moscovita em 1400 até o colapso do exército czarista em 1917. É o complemento ao volume seguinte dos editores, The Military History of the Soviet Union, que cobre o período de 1918 a 1991. De um modo geral, os ensaios fazem uma revisão dos períodos sucessivos do desenvolvimento do exército. A coleção, contudo, inclui um trabalho sobre a marinha czarista e vários outros mencionam desenvolvimentos navais significativos. Os editores são bem qualificados para produzir este novo acréscimo aos trabalhos existentes sobre a história militar russa. Frederick Kagan, filho do eminente historiador Donald Kagan, é professor-assistente da Academia Militar dos EUA em West Point e autor de vários livros sobre a história militar russa, bem como sobre políticas de defesa e prontidão militar contemporâneas dos EUA. Robin Higham, co-editor, é professor emérito de história militar na Kansas State University e foi editor das revistas Military Affairs e Aerospace Historian. Os autores dos ensaios são também por si próprios bem qualificados. 

Há um ensaio introdutório e outro que representa um sumário dos assuntos tratados, ambos muito bem escritos pelos editores. O primeiro é uma visão geral da história militar russa durante este período. Apresenta os principais fatores—vastidão geográfica, diversidade étnica, recursos naturais, desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e relacionamentos cambiantes com vizinhos—que afetaram o desenvolvimento das forças militares russas, bem como os eventos históricos resultantes. Os autores dos ensaios subseqüentes usam então esses fatores, em graus variáveis, para discutir um período particular do desenvolvimento das forças militares russas sob os czares (e czarinas). Como um todo, esses ensaios são bem-escritos e deveras informativos ao narrarem a história militar russa na era dos czares, mostrando, de modo especialmente habilidoso, como fatores políticos, sociais e econômicos afetaram o desenvolvimento militar e a condução de operações militares. No ensaio em forma de sumário, os editores voltam a examinar esses fatores à luz dos ensaios precedentes, assinalando a boa conduta e a capacidade de combate do exército russo durante o século dezoito e o seu declínio durante o final do século dezenove e início do século vinte. Os autores da maior parte dos ensaios oferecem áreas para pesquisa histórica futura, especialmente agora que os arquivos russos são mais prontamente acessíveis aos historiadores.

Em todos esses ensaios, o leitor encontra dois temas significativos. Primeiro, os editores desejam pôr termo à idéia de que o exército russo tenha sido historicamente incapaz de ganhar guerras, idéia esta que se desenvolveu a partir do declínio da capacidade militar russa após 1854. Ensejam que o leitor compreenda com clareza que o exército russo de fato ganhou batalhas e guerras ao final dos séculos dezessete e dezoito contra as potências da época, incluindo a Suécia, Turquia e mesmo a Prússia e a França Napoleônica. Fazendo isso, os governantes da Rússia conquistaram um império vasto e potencialmente rico, estendendo-se da Europa Oriental ao Extremo Oriente e do Ártico ao Oriente Médio e à Ásia Central. Ao mesmo tempo, os ensaios coligidos lembram-nos de que a obtenção desse vasto império seria também uma fonte do relativo declínio militar da Rússia próximo do final do século dezenove ao enfrentar inimigos novos, modernizados e relativamente mais poderosos: a Alemanha no Ocidente e o Japão no Oriente.

O segundo tema significativo que permeia estes ensaios é o de o desenvolvimento econômico e social de uma nação ter efeito significativo sobre o desenvolvimento do seu poder militar—exércitos e marinhas não se desenvolvem exclusivamente no âmbito da política. O exército russo conquistou grandes vitórias nos séculos dezessete e dezoito porque seus adversários eram semelhantemente organizados e armados. As origens do declínio militar russo, como assinalam os ensaios, encontram-se no atraso do desenvolvimento social (a servidão não foi abolida senão em 1867, privando conseqüentemente o exército de uma fonte adequada de recrutas para uma reserva devidamente treinada na era dos exércitos-em-massa) e do desenvolvimento econômico. Este apresentava duas facetas. Primeira, o desenvolvimento econômico inadequado (o movimento, à semelhança do Ocidente, em direção ao capitalismo e industrialização) significou que os governantes russos se acharam crescentemente incapazes de custear a modernização militar após 1854 (por exemplo, equipando centenas de milhares de soldados com armas de tubo raiado de carregamento pela culatra) e de produzirem armas modernas (a Rússia dependia de armas estrangeiras quando entrou em guerra em agosto de 1914). Portanto, como assinalam os últimos ensaios, o exército russo após 1900 estava inadequadamente treinado e armado para enfrentar o exército japonês em 1904-1905 e o exército alemão em 1914-1917, mais modernos. Entretanto, o exército russo e alguns dos seus generais tiveram bom desempenho contra o exército austro-húngaro nos primeiros anos da Primeira Guerra Mundial.

Como um todo, o volume editado por Kagan e Higham sobre a história militar czarista é um trabalho bem-escrito e de fácil leitura sobre um tópico deveras importante. A ênfase nos fatores sociais e econômicos que afetaram o desenvolvimento militar da Rússia é especialmente digna de nota. A julgar pela discussão do exército soviético encontrada nos ensaios introdutório e em forma de sumário, bem como por referências ocasionais em alguns dos ensaios intermediários, parece-nos que Kagan e Higham vêem influências similares na criação e desenvolvimento do exército soviético após 1917. Tanto o leitor especializado quanto o leitor em geral irão considerar Military History of Tsarist Russia uma boa leitura e uma boa história militar.

Ten Cel Robert B. Kane, USAF
Maxwell AFB, Alabama

Warfare in the Western World, 1882–1975, de Jeremy Black. Indiana University Press (http://www. indiana.edu/~iupress), 601 N. Morton Street, Bloomington, Indiana 47404, dezembro de 2001, 256 páginas, US$45.00 (encadernado), US$19.95 (brochura).

Esta sinopse da história militar, desde a conquista inglesa do Egito em 1882 até o envolvimento americano no Vietnã, nas décadas de 60 e 70, é a terceira de uma trilogia de estudos, de Jeremy Black, sobre guerra e sociedade. O autor apresenta, em essência, uma introdução concisa, mas de maior amplitude e abrangência do que os tratamentos habituais concentrados nos aspectos operacionais da história militar. Embora a ênfase principal incida sobre a experiência européia ocidental, o livro, em certa medida, também cobre outras áreas. O argumento principal é o de que a consciência contextual é essencial quando se estuda o desenvolvimento e a interação de forças militares. O êxito ou o fracasso nacional na guerra é condicionado pelo complexo interjogo de elementos físico-geográficos e culturais: política, demografia, economia e religião, para mencionarmos alguns. Em cada uma dessas áreas, ganhos e perdas podem ocorrer como resultado da guerra e cada qual pode desempenhar papel significativo, às vezes independentemente de desenvolvimentos tecnológicos, no desfecho da guerra.

Postulou-se—de fato, inculcou-se—na política e estratégia de segurança nacional dos EUA que democracias são menos belicosas do que regimes totalitários. Não obstante, uma vez em guerra, podem desempenhar-se bem melhor em combate e chegar à vitória—testemunho disso é o seu desempenho nas duas guerras mundiais. Embora os sistemas totalitários possam ter a vantagem de agendas inicialmente focalizadas na concentração de esforços tecnológicos e gerenciais, têm uma capacidade comparativamente menor para prever as diversas tendências que se apresentam na guerra, as quais Clausewitz, teórico mestre, descreveu com tanta eficácia, ou a elas se adaptar. A guerra é uma luta entre sociedades tanto quanto entre exércitos.

Portanto, assim como as sociedades afetam decisivamente a guerra, da mesma forma a guerra é uma força importante de mudança social. Talvez em nenhum outro período da história que não no século vinte a guerra tenha sido tão dominante em moldar o progressivismo de gênero e racial, ao menos no mundo ocidental. Incontáveis padrões sociais, hoje fundamentais à nossa cultura, têm ligação direta com as necessidades em tempo de guerra.

A despeito desses laços militares/sociais, Black argui as correlações ou a causalidade entre desenvolvimentos militares no mundo inteiro. Contra a tentadora tendência de delinear fios de continuidade, ele não vê progressão linear, padrões diretos de mudança e difusão osmótica de desenvolvimento. Tal postura representa um desvio bastante radical do que é convencional, pois os historiadores militares—bem como as próprias Forças Armadas—vêm tradicionalmente supondo uma cronologia desenvolvimentista bastante clara, baseada na observação e na interação de adversários em guerra e aliados. Por exemplo, na guerra eletrônica o desenvolvimento de contramedidas e contra-contramedidas eletrônicas envolveu, por décadas, uma série de conquistas de um lado e de outro que foram tudo menos caóticas ou aleatórias. Mais que isso, nota-se, por exemplo, um número incontável de situações dos efeitos de espionagem, bem como uma miríade de outros tipos de interação que resultaram em padrões de mudança. A revolução do poder aéreo e da guerra mecanizada em geral não só teve linearidade, mas também progressão geométrica que rapidamente a difundiu em muitas e díspares áreas geográficas. Em conseqüência, o tema de Black é estimulante e sua ampla perspectiva histórica, cuja concentração contextual reside na interação complexa de forças sociais e a guerra, fornece valiosa contribuição à historiografia.

Cel Eric Ash, USAF
Maxwell AFB, Alabama

Victory in Vietnam: The Official History of the People’s Army of Vietnam, 1954–1975, do The Military History Institute of Vietnam, traduzido por Merle L. Pribbenow. University Press of Kansas (http://www.kansaspress.ku.edu), 2501 West 15th Street, Lawrence, Kansas 66049-3905, 2002, 512 páginas, US$49.95 (encadernado).

Victory in Vietnam é uma versão traduzida e atualizada da história oficial publicada pelo The Military History Institute of Vietnam, Ministério da Defesa, Hanói, Vietnã, 1988, e revisado em 1994. Merle Pribbenow é bem qualificado para a tarefa, tendo servido por cinco anos como funcionário e intérprete da Agência Central de Inteligência no Vietnã durante a guerra. De saída, recomendo enfaticamente este livro a todos os que estudam com seriedade a guerra. É às vezes enfadonho e árido, repleto de afirmações políticas bombásticas e jactância inequívoca. Mas contém algumas informações deveras reveladoras, em especial para os aviadores, e fornece uma visão do poder aéreo americano por meio dos olhos de um inimigo.

Esta história “oficial” da guerra adota a perspectiva do Exército Popular do Vietnã (PAVN), termo usado pelos norte-vietnamitas para seu exército e, por extensão, do vietcongue. Alegam que, em seu todo, os dois formaram o exército de maior efetivo do povo vietnamita. Para amparar esta ficção, declaram que o PAVN era constituído por três componentes: a força principal, a força local, e a milícia com as guerrilhas. Os norte-vietnamitas insultam os que contra eles lutaram, referindo-se a todos os militares sul-vietnamitas como lacaios ou soldados fantoches primeiro da França e depois dos Estados Unidos. O livro revela o emprego habilidoso de todos os três componentes para levar a cabo a estratégia de libertar o Vietnã de “intrusões estrangeiras”, unificando-o sob o controle do Partido Comunista e, por fim, estabelecendo hegemonia sobre o sudeste da Ásia. O PAVN serviu como a principal ferramenta para a consecução desses objetivos.

Victory in Vietnam descreve os vários estágios da guerra sob a ótica de Hanói, discutindo, de forma circunstanciada, diversos momentos particularmente difíceis durante a luta:

• 1955–1959, quando o Vietnã do Sul quase destruiu o movimento comunista no Sul.

• 1961-1962, quando assaltos helitransportados apoiados pelos EUA e viaturas blindadas de transporte de pessoal M-113 infligiram pesadas perdas às forças norte-vietnamitas.

• 1966, quando o efetivo e o poder aéreo americano cresceram espetacularmente e ataques aéreos sustentados contra o norte começaram a provocar danos em larga escala à economia norte-vietnamita.

• 1969, quando o General Creighton Abrams, comandante americano, atacou diretamente o PAVN, quase destruindo-o.

• 1971, quando forças sul-vietnamitas atacaram a Trilha Ho Chi Min no Laos.

• 1972, quando forças terrestres sul-vietnamitas e o poder aéreo americano mataram cerca de 100.000 soldados do PAVN.

O presente livro, enunciado definitivo do ponto de vista dos comunistas vietnamitas, revela que são simplesmente errôneas muitas das verdades aceitas em nossas próprias histórias da guerra. Por exemplo, vimos o conflito como a Guerra do Vietnã—uma limitação auto-imposta—e consideramos o combate no Laos e no Camboja como lutas à parte. Para os norte-vietnamitas, contudo, tratava-se de um conflito regional que grassou pelo Camboja e pelo Laos, envolvendo todos os países da área. Eles não hesitaram em enviar “voluntários” ao Laos ou ao Camboja para cumprirem seu “dever internacional”. Essa perspectiva legou-lhes grande flexibilidade e vantagem estratégica.

De 1959 em diante, os norte-vietnamitas construíram ampla rede de estradas pelo interior do Laos, para ligar todas as frentes à “área de retaguarda” (isto é, o Vietnã do Norte). Chamaram este complexo de a Estrada de Trung Son, nome inspirado na cordilheira de montanhas que se estendia pela espinha do Vietnã do Norte para o interior do Laos e o sul. Nós o denominamos Trilha Ho Chi Minh. O livro revela claramente, de maneira um tanto minuciosa, o grande esforço que o PAVN dedicou à construção e defesa da trilha.

Reconhecendo o valor desta artéria, gastamos vasto número de homens e equipamentos para fechá-la. Por quase 10 anos atacamos a trilha com infindáveis ataques aéreos, usando aeronaves B-52, aeronaves armadas AC-130 e uma grande quantidade de outros sistemas de armas como parte desse esforço. Em diversos pontos, a narrativa revela o alto preço que impusemos ao PAVN:

Em virtude de nossas dificuldades em obter suprimentos e recompletamentos e em virtude de o inimigo estar conduzindo ferozes contra-ataques contra nós, após a campanha do verão de 1969 uma importante parcela de nossa força principal foi forçada a retirar-se até nossos acampamentos para reagrupar-se. . . . Ao final de 1969 o inimigo havia retomado quase todas as zonas que libertáramos. . . . unidades foram forçadas a iniciar alimentação alternada de arroz em uma refeição, mandioca em outra. Alguns integrantes do nosso quadro de oficiais e soldados tornaram-se pessimistas e mostraram medo do combate aproximado e de permanecerem na zona de combate. Alguns desertaram de suas unidades, fugindo para áreas de retaguarda; alguns até entregaram-se ao inimigo (p. 246). 

Em diversos momentos, nossos esforços quase resultaram no fechamento da trilha. Mas os norte-vietnamitas conseguiram mantê-la aberta. Como aviador que atacou a trilha em 1972, ficava eu simplesmente surpreso ao ler como o inimigo superou nossos esforços. Empregamos quase dois milhões de toneladas de bombas, foguetes, napalm, e assim em diante, contra a trilha e perdemos um número excessivo de homens. As baixas norte-vietnamitas foram pesadas, mas eles tinham presente que a estrada precisava ser mantida aberta não importava a que custo. Esta ligação vital deu-lhes a mobilidade estratégica necessária para movimentar o PAVN de uma frente a outra. Algumas das batalhas travadas pela Trilha Ho Chi Minh—tanto em terra quanto no ar—determinaram o resultado da guerra: o PAVN ganhou-as. 

Considerei esclarecedora a leitura de como o PAVN temia os B-52 e especialmente o AC-130 (que chamavam de “o fascínora”), que espreitava as estradas à noite. Para contra-atacar essas aeronaves e o poder aéreo em geral, a partir de 1970 o inimigo construiu uma estrada inteiramente “secreta” pela qual transitava à luz do dia. A estrada foi tão eficaz, que os capacitou a deslocar para o sul diversas divisões de primeira linha, em 1971-72, para o que se tornou a ofensiva da Páscoa. Esse deslocamento incluiu carros de combate T-54, que apareceram na batalha por An Loc a apenas 40 milhas ao norte de Saigon.

O fato mais revelador, contudo, sobre a trilha tem a ver com o modo pelo qual o PAVN construiu uma série de estradas após nossa retirada em 1973, quando usou todo o complexo para movimentar para o sul enormes quantidades de suprimentos e divisões inteiras para as batalhas travadas em 1975:

O volume de suprimentos enviados pela rota de transporte estratégica, do início de 1974 ao final de abril de 1975, totalizou 823.146 toneladas, 1,6 vezes maior do que o volume total transportado durante os 13 anos anteriores em conjunto. Deste total, 364.542 foram levados para diferentes campos de batalha, 2,6 vezes o total dos 13 anos anteriores. . . . Esses projetos, juntamente com a força motorizada de 6.770 caminhões, garantiram que nosso exército pudesse conduzir campanhas de combate de armas combinadas em larga escala. . . . Esta reserva de suprimentos foi suficiente para que apoiássemos forças de grande efetivo que conduziam operações de combate contínuas e prolongadas, conforme preconizado em nosso plano de combate estratégico (p. 350).

Deixou-se de mencionar nessa jactância o fato de que seus “irmãos internacionais” na União Soviética e na China forneceram toda esta grandeza militar. Victory in Vietnam gostaria de nos fazer acreditar que as fábricas norte-vietnamitas produziram todo este equipamento. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos reduziram seu apoio às forças do Vietnã do Sul, Camboja e Laos. Dada essa mudança na correlação de forças e na atmosfera política nos Estados Unidos, foram inevitáveis os acontecimentos de março e abril de 1975.

A discussão do livro sobre os ataques desencadeados pelos EUA a Hanói/Haiphong no inverno de 1972 também é fascinante. Os norte-vietnamitas orgulham-se do fato de terem tido êxito em nos expulsar, desconsiderando os enormes danos que impusemos ao seu país. Vêem eles sua “vitória” naquela batalha como uma segunda Dien Bien Phu e alegam terem derrubado 34 B-52. Nossos registros situam as perdas em 17. De fato, ao longo do livro, as alegações norte-vietnamitas sobre aeronaves derrubadas e forças inimigas destruídas (americanas, coreanas, sul-vietnamitas e laosianas) parecem excessivamente infladas. Mas é esta a perspectiva e a história militar deles—e eles foram os vencedores. Os norte-vietnamitas de fato alcançaram seu objetivo de reunificar o país sob seu controle e expulsar “influências estrangeiras”.

O PAVN ganhou a guerra para o norte—sempre, é claro, sob o controle do Partido Comunista. Mas as forças do PAVN foram o instrumento da vitória. Victory in Vietnam demonstra isso de modo desagradavelmente incisivo, mas eficaz. É a história deles e eles têm o direito de contá-la.

Cel RR Darrel Whitcomb, USAFR
Fairfax, Virginia


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