Documento criado em 1° Setembro 05
ASPJ Em
Português 3° Trimestre 2005
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A edição em português da
ASPJ é uma distinta fonte de informação no domínio da cultura aeronáutica militar e civil. Não só nos presenteia com excelentes artigos sobre as novas tecnologias, como também se debruça sobre doutrina e liderança, tão essenciais ao desempenho das tarefas acometidas aos militares.Depois de ter evoluído da versão brasileira para uma edição em português, o universo alargou-se ao mundo da lusofonia e está a transformar-se num veículo de informação, também contribuinte para a integração das várias culturas emergentes das ex-colonias portuguesas. E é aqui que o grande trabalho do editor se mostra em todo o seu esplendor. A
ASPJ tem desenvolvido um trabalho notável de adaptação às várias comunidades, no esforço de levar a cultura aeronáutica aos leitores na língua de Camões. Pena é que seja tão difícil a recolha de artigos originais das várias comunidades lusófonas. Entende-se a dificuldade com os países africanos que trilharam caminhos consumidos pela evolução das ideias e que agora se vão aproximando dos ideais do ocidente. Entende-se menos a pouca participação da comunidade europeia, tão próxima do ideário divulgado pela edição inglesa. Melhor a participação brasileira, rica em ideias e conhecedora de avançadas tecnologias, experimentadas e concretizadas em brilhantes projectos. Compreendo a dificuldade, tão bem superada a cada artigo, em adaptar as traduções às várias culturas. Louvo a generosa atitude em pegar cada texto e adaptar as expressões às comunidades de leitores, com o máximo denominador comum, sendo que por vezes o texto claro para um português, é pouco perceptível para um brasileiro e que esta dificuldade se multiplica ao ser lida por angolanos, moçambicanos, guineenses, cabo-verdeanos, santomenses, timorenses ou macaenses. E quando olhamos para as designações consagradas por uma organização que são como criptografia para outros, o cenário configura um enorme desafio para o qual o editor precisa de muita coragem e muito esforço. O engenho presente na edição portuguesa vem melhorando a cada número e está a transformar a sua revista num mais que louvável esforço em melhorar a comunicação entre a comunidade lusófona ligada à divulgação da tecnologia e cultura aeronáutica.Sobre os artigos publicados permita-me o elogio quanto à diversidade e riqueza dos assuntos tratados. Nos últimos números podemos ler textos desde a dificuldade em dominar as línguas e conhecer as culturas do mundo, até às últimas novidades em tecnologia de voo, geração de energia, navegação ou telecontrolo. A doutrina está sempre presente e as projecções transformistas para o poder aéreo no futuro também são tratados assiduamente. Perante a missão proposta para a revista, é difícil discordar da riqueza e diversidade dos assuntos tratados. No entanto, o poder militar tão avassalador dos Estados Unidos da América, sem contestação que sequer se aproxime por qualquer outro país do mundo, leva muitos a pensar que a desproporção não traduza uma eficiência na sua aplicação. É notório o contraste com a linha de pensamento europeia que, reconhecendo os benefícios dos 60 anos de paz que o chapéu de defesa americana garantiu no continente, propõe um esforço mais dirigido para os pilares do poder económico, diplomático e informacional. Mantendo a temática da defesa, apreciações deste tipo poderiam contribuir para uma perspectiva mais universal da problemática das relações e conflitos internacionais. Uma outra perspectiva da defesa que está presente na resolução de conflitos é a que se prende com as operações de paz a decorrer em vários pontos do globo e para as quais a contribuição dos Estados Unidos não parece atingir os níveis que o poder económico e diplomático americano levariam a supor. Análises e perspectivas nesta área aparecem como uma necessidade. Tanto mais que a percepção do valor de cada cultura parece ser uma vulnerabilidade da sociedade americana bem conhecida e muitas vezes explorada por adversários e concorrentes. Mais estranho ainda o contraste entre esta realidade e a intensa espiritualidade na vivência social que surpreende quem contacta com o dia a dia das comunidades norte-americanas. A poderosa máquina do audiovisual tem exportado uma imagem da sociedade e valores americanos que está longe da realidade. Essa imagem é exacerbada em muitas culturas onde interesses adversos colhem atitudes de animosidade baseadas em visões distorcidas que a máquina informacional americana transmite. Esta faceta do poder não me parece ter sido suficientemente abordada e analisada, revelando um pilar desequilibradamente fraco quando contraposto ao poder militar. Numa campanha que pretende acabar com o terrorismo, todo o esforço para compreender a assimetria do combate deve ser considerado para melhor se construir o desejado "end state". Sabemos quanto vale a vontade, a fé, a identidade e a imaginação. Sabemos como David venceu Golias. Sabemos como fracas nações venceram conflitos com grande assimetria de poder militar. Nunca será demais revisitar alguns cenários e incorporar na cultura as lições aprendidas em cenários onde a lógica parecia ditar um desfecho bem diferente.
Uma boa especulação sobre o futuro é sempre uma boa matéria para publicar. Como será o poder militar nas próximas décadas? A electrónica invadiu todos os sistemas e a robótica está assumindo o controlo automático de muitos processos. Juntamos a isto uma intensificação dos meios de comunicação e temos o nosso planeta transformado numa aldeia global na qual qualquer conflito ocorrerá sempre entre vizinhos, ainda que em posições antípodas no globo terrestre. E o encanto da exploração espacial com ingredientes de tecnologia, risco e conhecimento? E a grandeza de sistemas que banalizam a comunicação, a navegação e a exploração do planeta? E os robots exploradores em outros mundos que nos trazem uma informação detalhada de outros ambientes como se estivessem aqui bem perto? Tanto assunto para analisar, debater, imaginar... Mas tudo começa na escola. Como pode um país poderoso, capaz de intervir em qualquer parte do planeta, não propiciar aos seus cidadãos o conhecimento desse mundo? Como pode ser tão basicamente contornado o ensino da História Universal ou a geografia física e humana da Terra? Como entender um mecanismo informativo constituído por centenas de canais de televisão, centenas de jornais e milhares de estações de rádio, além dos ciberespaços, onde a informação internacional prima por uma quase completa ausência? Como pode o cidadão comum ter uma opinião sobre o que se passa num qualquer canto do mundo, se não sabe onde fica, quem lá vive e o seu passado histórico? Não deveriam estas preocupações incomodar os formuladores de doutrina da Defesa, os políticos, os sociólogos e até mesmo as organizações sociais com preocupações evangélicas e caritativas? Presumo que o cidadão americano não esteja muito desperto para estes problemas e por isso mesmo estes assuntos parecem-me merecer mais atenção.
Gosto da
ASPJ que trimestralmente leio com grande interesse. Gostaria que ela pudesse também alargar o seu universo temático e despertar as mentes que dão corpo ao poder aeronáutico e espacial para outras realidades mais mundanas e igualmente poderosas, capazes de desfeitear o excelente desempenho das mais modernas frotas de máquinas de combate. Aprecio imenso o grande esforço na edição de uma revista que para além da divulgação das ideias contribui para a comunidade lusófona com um elemento comum de leitura capaz de aproximar as várias culturas aeronáuticas.Parabéns e bem-haja pelo seu excelente trabalho.
Glicinio Fernandes
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