Documento criado em 1° Setembro 05
ASPJ  Em Português 3° Trimestre 2005

Nem Sempre É Imprescindível
Lutar pela Superioridade Aérea

Comodoro (Reformado) José C. D’Odorico, Força Aérea Argentina

DESCULPEM-ME AQUELES QUE me queiram acusar de traidor a um dos mais reverenciados dogmas do poder aéreo. Entretanto, neste mundo entregue ao revisionismo, há conceitos muito apreciados que começam a sofrer questionamentos que não devem ser descartados. Ficarmos presos a uma formalidade que não tem, a seu favor, mais do que afirmações enfáticas pode ser tão imprudente quanto nos deixarmos seduzir por uma corrente de modernismo que deseja mudar tudo. Por isto, ante a perplexidade que o título possa despertar, peço um momento de reflexão antes que decidam se merece uma reação indignada a ousadia de desafiar o princípio que, pelo menos até agora, foi o mais respeitado da guerra aérea.

Como subsídio a esta solicitação, perguntem-se: "podemos jurar sobre o livro da doutrina aérea básica que, sejam quais forem as circunstâncias, é imprescindível combater pela obtenção da superioridade aérea antes de atacar os centros de gravidades de um inimigo? É provável que os pilotos veteranos não vacilem em ratificar o que tem sido uma regra áurea desde que, na Segunda Guerra Mundial, os aliados sofreram dolorosas baixas nos bombardeios maciços sobre o continente europeu. Desde aquela conflagração, comprovou-se que as forças de superfície perdiam a liberdade de manobra quando a aviação adversária podia atacar em quaisquer condições atmosféricas e a qualquer hora as posições defensivas, a artilharia, os transportes terrestres e os blindados.

A idéia de que era necessário obter primeiro a superioridade aérea instalou-se nas forças aéreas com a firmeza de um princípio que devesse ser respeitado para garantir a vitória. A doutrina que incorporava este ensinamento não tardou em ser divulgada e venerada em todos os países. Curiosamente, embora tivesse causado profunda alteração nas regras táticas, esta idéia não sugeriu um estudo ulterior ampliado para determinar se ela era válida em qualquer circunstância. Os estrategistas aéreos preferiram elogiar as experiências colhidas pelas forças aéreas na guerra e estruturá-las doutrinariamente.

Se as forças de grande vulto aprovavam este princípio, que argumento poderiam usar as forças pequenas e menos experimentadas para porem em dúvida o que ensinavam os que se consideravam líderes? O novo evangelho da guerra aérea dominou os estados-maiores (EM) aeronáuticos e desqualificou tudo que contrariasse essas lições aprendidas a sangue e fogo. Aqueles que eventualmente objetassem eram condenados ao ostracismo profissional, e ninguém se atreveu a criticar os axiomas sacralizados por Trenchard, Douhet, Mitchell e de Seversky.

Obtenção da
superioridade aérea

Participo da idéia de que, para ter liberdade de manobra no ar e na superfície, há que se ter: 1) superioridade aérea, no mínimo em certas áreas e em certos momentos, e 2) de preferência, o domínio do ar sobre um teatro de operações (TO) ou um país. Entretanto, esta concordância não me leva a renegar o título. Para que se concretize a superioridade aérea pode haver ou não necessidade de empenhar-se, para isso, recursos importantes. São as circunstâncias de momento e lugar que determinarão o quanto de recursos será empenhado. O problema principal, em essência, não é como eliminar o perigo que vem do ar, mas discernir se é possível atacar desde logo o oponente ou se é necessário empreender, antes de outras operações aéreas, uma campanha para eliminar os riscos. Hoje em dia, as estratégias estão submetidas a provas contínuas, por causa de novos sistemas de armas e modos de emprego; por isso, é tão imprudente pararmos no tempo, permitindo que as doutrinas usadas pelos países mais fortes neutralizem o surgimento de teorias de defesa adaptadas a uma realidade local e regional. Um país não é idêntico ao outro e tampouco são idênticas suas necessidades de defesa. Embora possa servir de referência genérica, a doutrina estrangeira costuma ter aplicação prática limitada em Estados cujo potencial é diverso dos daqueles em que elas foram redigidas. Adaptações apressadas têm, para o Estado menor, mais conseqüências negativas que positivas, visto propiciarem expectativas e gastos que não correspondem às necessidades reais.

Em um país menos desenvolvido, uma análise sem preconceitos da situação pode conseguir que um EM aeronáutico ponha de parte a adesão a uma teoria geral que induza mecanicamente, durante um conflito, a desgastar em operações supérfluas as poucas unidades aéreas disponíveis. A pergunta básica é: "é preciso inexoravelmente e por antecipação empregar meios aéreos escassos, caros e de difícil reposição, a fim de lutar para obter a superioridade aérea? Se essa premissa fosse respeitada liminarmente e se a condição favorável se confirmasse, restariam recursos suficientes para continuar com ataques aéreos destinados a paralisar, neutralizar ou destruir objetivos estratégicos adversários e apoiar outras forças? Poder-se-iam efetuar operações para conseguir esses resultados fundamentais apesar da oposição que o inimigo pudesse oferecer? Ou seja, poder-se-ia chegar aos objetivos desejados e atacá-los superando a resposta da defesa adversária? Sem dúvida, as respostas solucionam o dilema de ser necessário ou não lutar pela superioridade aérea.

Vejamos alguns exemplos que a história militar aérea nos oferece. Talvez isto nos ajude a decidir em que ocasiões ou em que tipos de guerra seria preciso respeitar a doutrina tradicional dos livros ou seria necessário procurar outras soluções criativas. Quando se chocam duas potências que dispõem de forças aéreas modernas e poderosas, é preciso imaginar que ambas estão em condições de acionar sistemas defensivos capazes de infligir perdas significativas ao oponente. Vamos examinar sumariamente três casos que não são muito remotos.

Entre 1965 e 1972 a aviação norte-americana não planejou uma batalha específica para conquistar a superioridade aérea sobre o Vietnã do Norte, Laos e Camboja, porque chegava a qualquer ponto destes territórios, para cumprir suas missões, quantas vezes quisesse, sem correr riscos inaceitáveis. Embora tivesse sofrido perdas numéricas significativas, a maior parte delas ocorreu durante ataques com helicópteros e aviões táticos. As operações de bombardeio na Rolling Thunder e na Linebacker I e II não foram precedidas por uma campanha de ataque à aviação vietminh e de supressão da defesa aérea inimiga (SEAD) para o obtenção da superioridade aérea. Esta era uma condição que de fato se devia apenas à diferença de magnitude, qualidade e potência entre as forças que se enfrentavam. A superioridade norte-americana era esmagadora e a oposição representada pelos meios que soviéticos e chineses haviam facilitado ao Vietnã foi limitada. Os MiG-17, 19 e 21 que tinham essa origem não eram rivais para os F-4, 100, 102 e 105, e para os B-52, 57 e 66, exceto quando estes eram surpreendidos carregados de bombas.1

O segundo exemplo vem da Guerra do Golfo Pérsico (1991), em que uma coalizão de mais de 30 Estados se lançou contra o Iraque, que tinha uma FAe considerável e aguerrida, após oito anos de combates contra o Irã. Todos esperavam que se desenvolvesse uma disputa prioritária pela superioridade aérea. A operação Tempestade no Deserto incluía quatro fases aéreas definidas pelos objetivos estratégicos de cada uma, mas não se ordenavam segundo um calendário. O Ten Gen Charles Horner, comandante do componente aéreo da coalizão, assim as descreveu: I—Campanha Aérea estratégica; II—Superioridade Aérea no TO do Kuwait; III—Preparação do Campo de Batalha; e IV—Guerra Terrestre.2

Horner explicava que a Fase II havia sido imaginada por Schwarzkopf na sua condição de general do Exército dos Estados Unidos, mas não fora discutida pelo componente aéreo, embora houvesse redundância. No entanto, a Tempestade no Deserto converteu-se na primeira guerra aérea em paralelo da história, ao se executarem as três primeiras fases quase sem separação no tempo e entre elas. Não obstante, os efeitos estratégicos ambicionados foram alcançados com notável eficácia e mínimas perdas, unificando-se a condução de todos os meios aeroespaciais que operavam no TO.3

A seleção de alvos foi feita pelo USCENTCOM (US Central Command), não em Washington, como durante a Guerra do Vietnã, e tirou-se astuto proveito da surpresa tecnológica (F-117A), do ataque maciço e da contundência dos bombardeios com armas de precisão. O ataque aéreo estratégico não chegou a distinguir-se dos procedimentos de SEAD, mas ambos obtiveram, conjuntamente, a paralisação do C3I iraquiano, com a conseqüência de inoperância, destruição e desorganização das forças militares de Saddam Hussein, inclusive a força aérea, de que se esperava desempenho menos humilhante.

Nesse episódio bélico intenso, mas de curta duração, verificamos que a Fase I possiblilitou implicitamente a conquista da superioridade aérea sem necessidades de empreender-se uma Fase II com esse objetivo e redundante nos efeitos. A primeira Fase incluía, implicitamente, a obtenção do controle do ar, que facultava os ataques estratégicos. Embora em 1991 não se houvesse combatido exclusivamente para conquistar a superioridade aérea como objetivo prioritário, esta não foi ignorada como condição necessária pela coalizão, que lançou uma campanha condensada multiforme, a qual lhe permitiu obter os tradicionais benefícios da superioridade aérea.

Um terceiro caso ocorreu na Guerra das Falklands/Malvinas (1982), onde tampouco houve plano ou algo semelhante para obter a ansiada liberdade para assegurar a condução das ações no espaço aéreo do TO. Cada parte atacou os objetivos militares inimigos que lhe interessavam com suas forças escassas, ambas explorando as limitações da outra para neutralizar seu poder aéreo. Por isto, nenhum dos contendores pôde garantir o controle do espaço aéreo, e ambas as forças aéreas compensaram corajosamente a falta desta vantagem. Algumas vezes, para superar essa deficiência, os planejadores da Força Aérea Argentina (FAA) criaram pequenas surpresas táticas (procedimentos diversionários batizados de Fênix, vôos a baixa altura sobre a superfície mar) que tiveram resultados positivos.4

Os britânicos procuraram tirar partido de suas vantagens tecnológicas. Apesar das baixas causadas por essa notória superioridade (AIM-9L, VTOLs, defesa antiaérea com mísseis, RWS e outras), as esquadrilhas argentinas, vez por outra, chegaram a seus objetivos. Nas Falklands/Malvinas, nenhuma das partes teriam podido empreender uma fase exclusiva de conquista da superioridade aérea, devido à localização e infra-estrutura do TO e à carência de meios em ambos os lados. Nenhuma das forças pôde executar procedimentos SEAD de envergadura, embora ambas conhecessem as regras de emprego do poder aéreo.5

Se os leitores me perdoarem o atrevimento, acho que no século atual assistiremos à desaparição paulatina de campanhas exclusivas para perseguir a conquista prioritária da superioridade aérea, e os pilotos vão ter de ir a combate com uma visão diferente da situação. Esta suposição se confirma ao observarmos que guerras no estilo da Segunda Guerra Mundial estão cada vez mais espaçadas. Hoje, a crônica agressividade humana se apresenta com modelos operacionais diferentes dos que eram conhecidos até pouco tempo, e isto levará os estrategistas a reconsiderarem seus estoques de fatores circunstanciais.

Por isto, estimo que esta alteração implicará a reeducação da mentalidade dos homens do ar, para adequar-se às novas realidades político-militares. Será inevitavelmente preciso renovar os conceitos doutrinários em assuntos que começam a preocupar líderes políticos e militares. A combinação dessas pautas, embora pouco desenvolvidas, revolverá intensamente o pensamento militar aéreo. Esse processo de atualização, complicado e inevitável, necessitará da proverbial lucidez dos estrategistas para não interferir nas áreas doutrinárias que convém conservar, porque não se tornaram obsoletas. Uma vez mais, mentes brilhantes terão oportunidade de manifestar-se, recompondo a torrente de dogmas que determinarão a intervenção aeroespacial nos próximos conflitos.

Os acontecimentos bélicos mais recentes oferecem muito material para estudo. A originalidade das lições que os pesquisadores extraem ainda produz certa desconfiança acerca das conclusões e, portanto, elas padecem de certa precariedade. É por isso que continua havendo um número muito grande de homens do ar que admitem que sempre hão de combater pela obtenção da superioridade aérea, sem avaliar as peculiaridades de cada situação. Estou certo de que os acadêmicos terão árdua tarefa procurando corrigir a arquitetura intelectual desses tradicionalistas e explicando os motivos das mudanças, mas é preciso que isto se inicie o quanto antes, para evitar que as forças aéreas caminhem a reboque dos acontecimentos. A aviação sempre se colocou à frente dos fatos, e não há por que modificar essa posição.

Os leitores hão de perceber que não me oponho a aproveitar os benefícios que, em qualquer circunstância bélica, a superioridade aérea proporciona. É claro que não. Não obstante, em meu modo de ver, quando o recomende o equilíbrio de forças, será conveniente atribuir a prioridade 1 à ofensiva do poder aéreo para paralisar, neutralizar ou destruir os alvos materiais que integram os objetivos estratégicos para a consecução das finalidades militares.

Entretanto, a necessidade de combater pela superioridade antes de mais nada ou explorar diretamente uma razoável liberdade no ar sobre os objetivos estratégicos é uma decisão que dependerá de avaliação correta das informações. Como ocorreu na Tempestade no Deserto, nada impede que conseguir a superioridade necessária em um lugar e momento seja parte integrante de uma campanha estratégica, mas o êxito ou fracasso pode ser determinado pela qualidade do trabalho da inteligência. A maneira prática de se obter essas condições (o quê e o como) dependerá de cada situação, das forças próprias e das oponentes, e isso determinará os tipos de operações a executar e a cronologia dessa execução.

O problema aéreo militar
nos países de segundo nível

Teoricamente, ao planejar-se uma campanha aérea, o primeiro passo será avaliar o que se deve fazer em função da missão designada, e que tipo, qualidade e grandeza de oposição o eventual adversário oferecerá. A comparação dos fatores em oposição aconselhará as linhas de ação que, devidamente avaliadas, darão lugar a uma decisão. Entretanto, para que essa decisão se transforme em operações eficazes ao começar a campanha, ela não será de simples administração. Antes de pensar no que faremos, será preciso levar a efeito um estudo das capacidades inimigas, e nem sempre se pode contar com uma inteligência completa e atualizada como seria desejável. Portanto, esse passo se dará presumindo a qualidade da defesa do oponente, deduzindo-se os procedimentos de ataque mais convenientes.

Os países menos adiantados contam, geralmente, com poucos meios aéreos, e estes não são muito modernos. A aviação de combate que, neste caso, podemos imaginar, consiste, no máximo, em poucas dezenas de aparelhos polivalentes de tecnologia atrasada. Os países provedores preferem manter os demais abaixo de suas próprias capacidades, evitar focos de armamentismo e manter um prudente equilíbrio regional. Esta consideração deixa entrever que os Estados vizinhos não tenham que enfrentar riscos que excedam suas possibilidades de tolerância. Esses países só poderão organizar uma defesa aérea limitada, com setores cegos, o que permite prever que as respostas a hipotéticos ataques aéreos não serão muito eficientes. Essa perspectiva será mais vantajosa para um incursor capaz de produzir surpresas táticas que cheguem a assegurar-lhe uma capacidade de reataque.

Todo projeto de ataque aéreo ao interior de um território hostil tem de estar correlacionado a uma informação atualizada e precisa. Em países menores, os meios aéreos e as armas disponíveis são escassos; a reposição tem de superar uma grande relação de dificuldades e frustrações; o suprimento de munições é oneroso e os pilotos treinados são artigos de luxo, porque sempre há restrições ao treinamento. Por isto, cada operação de ataque exigirá um delicado processo a fim de garantir a recuperação dos meios previstos para participar das tarefas subseqüentes.

A preparação de um razoável êxito se fundamentará em aeronaves subsônicas, de preferência, por serem mais baratas. Um avião confiável tem de estar equipado no mínimo com um sistema de navegação e tiro, GPS (Global Positioning System), RWS (Radar Warning System), defesa antimísseis e um radar multimodo. A plataforma deve transportar cerca de duas toneladas de bombas PGM (Precision Guided Munition) e um mínimo de dois AIM (Air Interceptor Missiles) para sua defesa.

A disponibilidade de armas stand-off alimentaria consideravelmente a periculosidade do invasor. O reabastecimento em vôo seria um suplemento desejável, embora não seja motivo de inibição se o raio de ação tático da plataforma se aproximar a um milhar de quilômetros. A aeronave tem de poder desenvolver perfis de vôo H-L-L-H para penetrar de surpresa na defesa aérea inimiga, embora esse tipo de navegação implique consumos muito elevados.

Este grupo de requisitos não corresponde a um capricho dos planejadores. O número de aeronaves de combate que há nas forças aéreas modestas é tão pequeno que cada operação deve garantir que os aviões cheguem a seu objetivo e possam neutralizá-lo. Nessas circunstâncias, seria pouco sensato empenhar a força aérea de um país A em uma campanha exclusiva para conseguir a superioridade aérea quando, à primeira vista, este passo parece excessivo porque B, o adversário, estaria em condições parecidas com A. Então, para que lutar por algo que já não se pode explorar?

Os aviões de A terão grande probabilidade de chegar aos alvos designados sem que, supostamente, B possa conter o ataque. Não havendo um combate prévio pela superioridade aérea, o EM de A pode usar sua criatividade para emitir ordens argutas que garantam a penetração e neutralizem o moderado risco representado pela defesa de B. Um pensamento parecido estará nas mentes do EM de B. Que tipo de defesa A poderá opor aos atacantes de seus centros sensíveis? Certamente não será de nível muito diferente do de B. Portanto, por que haveríamos de imaginar que B, por sua vez, colocará em jogo seus parcos recursos para definir uma batalha sem sentido?

Podemos imaginar um exemplo mais claro. O problema da superioridade aérea gerado por uma suposta confrontação entre duas grandes potências (C e D) não teria qualquer semelhança com o derivado do choque entre os dois Estados como A e B. No primeiro caso, a obtenção prioritária da superioridade aérea se colocaria de modo cru e urgente. Provavelmente, as forças que se enfrentariam seriam poderosas e o sobrevôo dos respectivos territórios não seria impune. No caso de A e B, a mútua liberdade de ação que os oponentes terão será produto da debilidade de ambas as partes. Por isto, os planejadores terão que dedicar seu melhor esforço a projetar penetrações engenhosas, deixando de lado a teoria e a doutrina que aprenderam nas grandes forças aéreas. Necessitarão, simplesmente, aplicar suas próprias adequadas à triste realidade de sua pobreza terceiromundista.

Espero que meu pensamento fique mais claro comprovando-se que não renuncio a um conceito histórico que é substantivo, mas necessita interpretação flexível. Por isso, sugiro que se faça uma análise despojada de rigidez ortodoxa como providência preliminar no estudo de cada conflito. Certamente este método ajudará a compreender o sentido do emprego das forças aéreas de países de segundo nível.

Quando a realidade é outra

A utilização de doutrinas elaboradas para conduzir meios militares de grande envergadura causará graves distorções em países como A e B, pelas enormes diferenças entre os potenciais, nas duas situações. Entretanto, há militares de Estados débeis que manifestam inexplicável fascinação pelas guerras das grandes potências. Ambicionam imitar o vencedor, quando não superá-lo, sem examinar as condições em que essas guerras se desenvolveram. Sentem-se desde logo sócios fictícios de um país E que conseguiu esmagar a resistência apresentada por outro país F apenas três ou quatro semanas depois de lançar uma blitzkrieg aérea que destruiu 85% dos objetivos estratégicos atacados, inclusive a aviação de F.

Embora não sejam protagonistas, compartilham entusiasticamente da vitória e deixam-se fascinar pela doutrina que patrocinou a vitória retumbante. Perdem de vista ingenuamente que os Estados poderosos operam segundo regras que correspondem a suas capacidades materiais, elemento em que os países desses analistas se colocam atrás, a grande distância. Portanto, a doutrina adequada a A e B não pode ser equivalente à de E. Isto não significa, porém, jogar no lixo tudo que os grandes fizeram ou pensaram. Todas as lições ensinadas na universidade da guerra merecem ser respeitadas, avaliadas e compatibilizadas com a escola secundária em que os profissionais do segundo nível se instruem. Apenas, os aviadores de A e B não devem aspirar a um mestrado universitário quando, do ponto de vista do equipamento, estão em uma escola para adolescentes.

Como se não bastassem os problemas que há para resolver, novas situações estratégicas se estão configurando, e elas sugerem uma revisão imediata da doutrina atual. O tipo de guerra (convencional) que conhecemos entre a primeira década e o final do século XX, desde quando o poder aéreo começou a interferir nos combates (Primeira Guerra Mundial) até as operações em Kosovo, está praticamente desaparecendo, sendo substituído por uma pluralidade de pequenas explosões que se assemelham a desentendimentos domésticos persistentes e perigosos, em vez das confrontações bélicas de antigamente. Não obstante, esses focos têm insuspeitável violência, que deriva de problemas sociopolíticos e econômicos quase tão inquietantes quanto os que provocavam as guerras antigas, visto que levam à intervenção militar das potências, por meio de organismos internacionais e coalizões.

Nesses TO não é só o dogma de lutarem invariavelmente pela superioridade aérea que é abalado. A própria teoria e doutrina militar convencional se desestabiliza, porque o confronto habitualmente se estabelece entre um Estado e um oponente etéreo (Chechênia, Colômbia, Afeganistão, Iraque), carecendo esses oponentes difusos dos recursos aéreos em relação aos quais seria preciso, teoricamente, discutir a superioridade. Em muito poucos casos esses oponentes possuem meios aéreos, sendo estes representados por um punhado de antigos aviões de combate ou aeronaves de matrícula civil. Neste último caso, os usuários certamente procurarão refugiar-se nas normas restritivas da OACI, embora desempenhem função diferente das protegidas.

Além disso, nem sempre haverá territórios claramente identificados como inimigos, para os quais dirigir caças-bombardeiros, a fim de destruirem alvos estratégicos. Geralmente, as zonas hostis superpõem-se às que, juridicamente, deveriam estar sob controle do governo legal. Freqüentemente os focos de violência localizam-se em áreas urbanas. Nestas, é terrivelmente complicada a detecção do adversário e a aviação de ataque não pode intervir sem o risco de fratricídio e efeitos políticos indesejáveis.6

Em tão estranhas circunstâncias, terão os EM que continuar pensando em como ganhar liberdade de ação no ar? Se nos limitarmos à história próxima, isto é cada vez menos provável. Bandos fora da lei podem organizar uma defesa antiaérea incipiente com armas automáticas de pequeno calibre e MANPADS (Man-Portable Air Defense System), letais contra vôos a baixa altitude. Essa defesa pode derrubar aeronaves, porque a maior parte de vôos com aeronaves de asa fixa ou asa rotativa são desse tipo, sobre espaços abertos, onde o adversário costuma encontrar refúgio contra as incursões aéreas. A vulnerabilidade dos helicópteros aumenta substancialmente, apesar de suas defesas sofisticadas, quando têm de operar em zonas urbanizadas.

Nas regiões ocupadas por guerrilheiros, fica descartada a disputa da superioridade aérea, não porque esta idéia seja questionável, mas por falta de necessidade. O Estado é agredido por elementos armados de superfície que obedecem às regras da guerra de guerrilha. Nesses casos, a força aérea tem o domínio do ar sem que previamente entre em combate. Esta premissa não exclui o risco representado pelas armas antiaéreas que o inimigo tenha, mas não chega, também, a justificar operações de SEAD, pela qualidade e volatilidade dos alvos, móveis e muito pequenos. Essa defesa precária não oferece uma oposição significativa e não impede a exploração direta da superioridade aérea. Em troca, os EM têm de planejar operações de cooperação com as forças terrestres, cuja responsabilidade operacional é prioritária. Nessa situação, a batalha será travada na superfície, com forças especiais e o apoio que outras Forças possam prestar.

Quererá isto dizer que, não tendo um opositor no ar, a força aérea deixará de ter papel destacado no combate? A abolição da luta pela superioridade aérea não desmerece os valiosos serviços que a aviação pode prestar nesses TO. Ela tem muito a oferecer em matéria de exploração e reconhecimento ofensivo, transporte tático, comando e controle aerotransportado, operações psicológicas, apoio aéreo aproximado, CSAR e medevac (Medical Evacuation).

Tampouco podemos esquecer o desenvolvimento das plataformas guiadas não-tripuladas para reconhecimento e ataque a alvos de superfície a grandes distâncias. O Congresso dos Estados Unidos previu a participação destes aparelhos na futura estratégia de defesa nacional e destacou, no Orçamento de Defesa do ano fiscal de 2001: "devemos estabelecer como meta que as forças armadas possam pôr em serviço tecnologia de controle remoto e sem tripulação humana, de modo que, em 2010, a terça parte do acervo de aeronaves que efetuem ataques em profundidade não tenham tripulação". Indo aos fatos, atribuíram naquele ano US$ 667 milhões aos UAV—UCAV.7

Os países de segundo nível, com poucos recursos para defesa, estão longe de incluí-los em seus arsenais, exceto os sistemas mais modestos. Quando esses projetos ofensivos estiverem operacionais no hemisfério Norte, produzirão uma revolução na doutrina aeroespacial. Dois exemplos fazem prever este futuro próximo. A aeronave não-tripulada Global Hawk RQ-4A, da Northrop Grumman, voou sem escalas entre os Estados Unidos e Austrália, em 23 horas, mas pode manter-se no ar por 40 horas, a 22.000 metros de altitude à velocidade de 640 km/h. Diversos UCAV estão sendo avaliados pela DARPA, Boeing e Lockheed Martin, nos Estados Unidos, e pela Dassault, na França.7 Esses projetos fazem supor que logo haverá plataformas furtivas que chegarão aos seus objetivos sem esperar o desenlace de uma campanha para obter a superioridade aérea.

Embora os países menos ricos tenham de continuar por muitos anos pensando em operações aéreas "históricas", pela velhice dos meios de que dispõem, isto não quer dizer que abandonem definitivamente a esperança de contar com algumas novidades técnicas. A exigüidade financeira pode ser incentivo a uma pesquisa nacional com o ritmo dos orçamentos. Por exemplo, o CITEFA (Argentina) desenvolve lentamente um RPV (Remotely Piloted Vehicle) de asa rotativa que pode ser um começo interessante.8

Nos TO "não-convencionais" percebe-se uma condição operacional que sugere o emprego de forças pouco numerosas em espaços reduzidos, em que não há sistemas de objetivos, mas sim alvos pequenos relativamente valiosos. Não nos devemos, porém, equivocar. A mudança que contemplamos não significa estarmos diante do ocaso da manutenção e exploração da superioridade aérea. Ainda que o novo cenário militar seja diferente dos costumeiros, há que se manter presente a possibilidade da guerra convencional, opção pouco provável, mas isso não significa que seja impossível.

Conselhos aos
aviadores jovens

Asseverar que "nem sempre é imprescindível lutar para conseguir a superioridade aérea" talvez desperte iradas acusações de trair a doutrina que possibilitou a glória do poder aéreo. Em debates menos veementes, porém, as convicções ortodoxas mais rígidas se esfriarão com provas baseadas em experiências comprobatórias indiscutíveis. Para isso ajudarão os exemplos e os exercícios a que se incorporem fatores não-convencionais.

Certamente os estrategistas de pensamento aberto e progressistas colherão a admiração e o respeito dos pesquisadores e estudiosos. É imperioso não se atrasar a atualização das doutrinas, mas não seria a primeira vez que uma necessidade de mudança produz perturbações na família aeronáutica. Os membros da comunidade aeronáutica devem recordar-se de que a aviação se caracteriza por uma predisposição permanente de produzir novidades freqüentes e surpreendentes. Basta lembrar que se passaram apenas 66 anos entre o início do vôo em um aparelho "mais-pesado-que-o-ar" e a chegada à Lua.

Qual foi a principal virtude dos profetas que tiveram a visão premonitória e certeira do poder aéreo? Prever o que a aviação poderia fazer para conseguir a decisão de uma guerra futura. Para isto, basearam-se em raciocínios e intuições, antes que em formulações científicas, e não há por que mudar este modo de agir, embora as circunstâncias sejam, é claro, diferentes das dos "bons velhos tempos". Mais uma vez estamos tratando de prever o que as forças aéreas modernas poderiam fazer se tivessem informação confiável e um grau de minúcia muitíssimo superior ao que era disponível nos primeiros momentos da aeronáutica. O importante é advertir que estamos diante de mudanças substanciais no desenvolvimento dos conflitos. É preciso, então, exibir abertura de espírito e amplitude de compreensão, porque as possibilidades que se aproximam obrigarão a corrigir a teoria do poder aéreo, embora sem destruir sua essência.

Esta é a síntese da posição que defendo, sublinhando a conveniência de se fazer um exame completo do cenário antes de decidir se é necessário lutar pela superioridade aérea. Não empenhar esforços inúteis, que não darão frutos e ao mesmo tempo consomem recursos aéreos escassos e onerosos, é uma atitude bastante profissional. Este é um risco tanto para países ricos quanto para países pobres, com a diferença de que os primeiros podem substituir as perdas com ajuda das indústrias e finanças nacionais. Nos últimos, os erros têm mais séria conseqüência, já que, dilapidando os meios aéreos em ações desnecessárias pela superioridade, fazem carga negativa sobre outras operações que também exigem o emprego do poder aéreo.

Este modo de pensar não se opõe à anulação da aviação inimiga, suas bases e fontes de suprimento, mas guarda uma pequena diferença em relação ao conceito de luta pela superioridade aérea. Esta última realiza-se por meio de uma fase aérea inicial específica para obter esta vantagem, porque a aviação adversária pode cercear a nossa liberdade de ação no sobrevôo dos objetivos a vencer. Por outro lado, ela deve ser descartada quando for inspirada apenas pela idéia de destruir os meios aéreos inimigos com finalidade apenas dogmática. No primeiro caso, será preciso planejar operações SEAD e a destruição das unidades aéreas oponentes, em terra e no ar. No segundo caso, o ataque à aviação inimiga será levado a cabo como procedimento paralelo, para reforçar a liberdade de operação que o invasor já tem.

Por isto os planejadores têm de trabalhar de cabeça fria, sem se deixarem intimidar pelas críticas dos conservadores. O exame metódico da situação aconselhará as melhores linhas de ação, que merecerão a melhor aceitabilidade. Para garantir-se isto, será preciso contar com uma inteligência ágil e bem informada. Um banco de dados desatualizado e incompleto produzirá ações defeituosas, e esses descuidos tornam-se muito onerosos no âmbito aeroespacial.

Por isto, a decisão de lutar ou não pela superioridade aérea envolve uma responsabilidade superior, não podendo ser delegada nem adotada cegamente como se tivesse uma prioridade inabalável. O Departamento de Operações do EM tem de exigir muito de seu colega de Inteligência antes de propor linhas de ação. É muito importante que o A-3 e sua equipe tenham uma opinião clara a respeito da necessidade de se planejar ou não a luta pelo controle do ar como providência preliminar. A conquista dessa situação como finalidade definitiva não tem sentido prático se não tiver continuidade por meio de sua exploração.

A superioridade aérea é uma condição favorável a ser criada ou explorada diretamente, para conseguir resultados estratégicos posteriores. Reitero que não me levanto contra esta idéia, mas estou convencido de que nem sempre é preciso desgastar meios aéreos escassos realizando operações que podem deixar de ser conduzidas. Se desde o primeiro momento A pode atacar o coração de seu inimigo B com uma liberdade de ação julgada suficiente, por que razão se meterá em um combate supérfluo? Se o adversário B evidencia uma debilidade semelhante à de A, terá uma presença enfraquecida sobre os objetivos e não poderá apresentar uma oposição eficaz. Presumivelmente, A poderá cumprir sua missão de maneira satisfatória sem empreender operações redundantes.

Se este pensamento simples se incorporar à doutrina e à rotina dos EM, será dado um passo em favor do emprego eficaz dos meios aéreos, porque objetivamente haverá melhor relação custo-benefício. Nas forças aéreas pequenas, um único avião de combate é, provavelmente, equivalente a toda uma unidade nas grandes potências, e esta avaliação justifica que seu emprego seja orientado para os objetivos que tragam maior retorno. O valor militar de uma plataforma aérea não é representado apenas pelo valor monetário de sua aquisição. A possibilidade de substituí-la durante um conflito é muitíssimo complexa, uma vez que os países de segundo nível envolvidos em uma guerra são condenados ao embargo pelos fabricantes mundiais.

Epílogo

Não sei se estes argumentos alcançarão o objetivo que procuro, quer dizer, abrir um debate sobre este enfoque doutrinário. Dou-me por satisfeito se conseguir que os leitores discutam as idéias aqui expostas, mesmo que suas conclusões não coincidam com o meu raciocínio. Estou longe de pedir concordância total. Meu intento é espanar o pó de noções que os conformistas já arquivaram no desvão da história aeronáutica. Os conflitos humanos são demasiadamente variados para justificar indolência ante regras de engajamento e doutrinas que foram apropriadas para guerras passadas.

Por causa da lacuna substancial em relação às potências de primeiro nível, as pequenas forças aéreas não têm de depender exclusivamente da doutrina que, do exterior, as primeiras consigam ou queiram transmitir, ou que lhe sugiram. Durante muito tempo estas forças sentiram-se em dívida com os acontecimentos ocorridos em países afastados e cederam à tentação de acolher as experiências alheias, acreditando que a imitação as eximiria de preparar doutrinas próprias. Admito que esse hábito deixou algum saldo positivo, mas também deixou erros que não foram oportunamente corrigidos e pelos quais foi pago um preço. Não obstante, é sempre tempo de se mudar a propensão para crer que o importado é perfeito, enquanto o que é nosso carece de qualidade.

As forças aéreas menores têm de adequar-se às suas próprias circunstâncias e problemas, aproveitando ao máximo o que seja útil e deixando de parte o excessivo. É preciso descobrir o próprio universo e aprender a operar dentro dele, otimizando o que está disponível e é utilizável. É preciso não se deixar hipnotizar pelas imagens prodigiosas tão generosamente mostradas pela publicidade que procede dos países adiantados; em troca, propomos que se dirija o olhar para os problemas regionais, aqueles que efetivamente é preciso resolver.

Notas:

1. Dr. Earl H. Tilford, Jr., in Set Up, What the Air Force Did In Vietnam and Why, Air University Press, Maxwell AFB, Alabama, June 1991.

2. Tom Clancy & Gen USAF Charles "Chuck" Horner, Every Man A Tiger, Putnam Sons, New York, 1999.

3. Op.cit. 2.

4. Com (R) Rubén Oscar Moro, Historia del Conflicto del Atlántico Sur (La Guerra Inaudita II), Escuela Superior de Guerra Aérea, Buenos Aires, Argentina, agosto 1997.

5. Op.cit. 4.

6. Com. FAA (R) J.C. D´Odorico, La Guerra No Convencional, teoría de esta guerra. (documento não publicado), Buenos Aires, Argentina, 2003.

7.  Jane´s Defence Weekly e Armada, diversas edições.

8. CITEFA, instituto sediado na província de Buenos Aires, Argentina. É um centro qualificado de pesquisas cívico-militar que avalia e desenvolve projetos de interesse das forças armadas argentinas. Veja-se J. C. D´Odorico, Revista Aérea, New York, 2001.


Colaborador

Comodoro (Reformado) José C. D'Odorico, Força Aérea Argentina

O Comodoro (Reformado) José C. D’Odorico, Força Aérea Argentina passou para a reserva em 1975. Piloto de transporte aéreo, possui mais de 5.000 horas de vôo. Especializou-se no estudo da guerra revolucionária marxista-leninista e da guerra subversiva. É autor de vários livros sobre o Marxismo-Leninismo e de muitos artigos, alguns dos quais publicados pela Air University Review e Aerospace Power Journal. Atualmente exerce a função de Assessor Honorário, Revista Escuela Superior de Guerra Aérea, FAA e correspondente do Armed Forces Journal International, Washington, DC, e da Revista Aérea, New York, na Argentina.

As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade do Ar ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.


 [ Home Page |asEmita sua opinião via Email apjportuguese@maxwell.af.mil ]