Documento criado em 1° Setembro 05
ASPJ Em
Português 3° Trimestre 2005Boydmania
Dr. David R. Mets*
* Tudo neste artigo é de minha responsabilidade. Ele não representa, de nenhum modo, atitudes da Air University, da Força Aérea dos Estados Unidos ou do Departamento de Defesa. Em relação aos versos da epígrafe, Charles Tennynson, neto do poeta, disse que representam uma senhora que vive em uma imaginária enquanto perscruta o espelho, sabendo que se ela deixar seus aposentos e for para o mundo real, sofrerá a maldição que dará fim a sua vida: a pessoa que se auto-absorve não pode sobreviver ao enfrentamento do mundo real. Alfred Tennyson (New York: Macmillan, 1949), 132.
TENHAM CONDESCENDÊNCIA com este pobre autor de resenhas! Os idiotas acorrem para os caminhos que os apóstolos temem trilhar. Em resposta a um outro autor de resenhas que questionou sua visão do Cel John Boyd e dos acólitos deste último, Robert Coram escreve: "como autor de sete novelas e três livros não-ficcionais, conheço melhor do que a maioria das pessoas a verdade do axioma ‘um livro é como um espelho. Se um idiota olha nele, não se pode esperar que apareça a imagem de um apóstolo’ ".1 Eu aqui rejeito a companhia dos apóstolos e empreendo a resenha do livro de Coram Boyd: The Fighter Pilot Who Changed the Art of War.2
Os 10 livros que Coram apresenta como credenciais ao status de especialista em guerra e poder aéreo compreendem três novelas sobre contrabando de drogas, quatro romances policiais ambientados em Atlanta e obras não-ficcionais a respeito de Antígua, de uma irlandesa em Saigon e de pesca. É verdade que ele tem um belo estilo de escrita, forjado durante sua longa experiência como professor de redação na Emory University e exibido em um sensível ensaio a respeito de câncer de próstata em seu próprio web site.3 Ele descreve a origem de sua motivação:
Os escritos de [Ralph] McGill e a reação de Papai mostraram-me o poder das palavras que fizeram um sonho agitar meu coração. Eu ainda estava na escola primária quando resolvi que algum dia iria para Atlanta e escreveria no Atlanta Constitution. Isto era um sonho muito alto para um menino da roça. Entretanto, para mim, e, suponho, para centenas de outros jovens em cidadezinhas em toda a Geórgia, Atlanta era um lugar mítico em que tudo podia acontecer, um lugar em que os sonhos podiam realizar-se. Tanto quanto me possa lembrar, Atlanta e os jornais de Atlanta eram, para mim, uma e a mesma coisa.4
Sei que estou virtualmente sozinho olhando no espelho e recebendo uma imagem negativa. Em seu web site, Coram proclama que está praticamente soterrado por brilhantes resenhas do livro sobre Boyd. Ele está certo. Dificilmente ouve-se uma palavra desanimadora nas dúzias de resenhas que ali se fazem. Será possível que eu esteja sozinho em minha idiotia e que dúzias de jornalistas estejam certos? Ou poderia acontecer que a preeminência de Coram no mundo jornalístico resultasse em resenhas que constituam um ato de precaução por parte dos autores? Ou poderia ocorrer que os autores de resenhas do periódico valorizem o estilo de redação mais do que a substância—até mesmo porque talvez muito poucos deles tenham qualquer conhecimento especializado em guerra e poder aéreo?5 Ou poderia ser tudo, apenas, devido ao poder da máquina de marketing do editor? Ai de mim! Quando olho no espelho do livro de Coram, vejo muitas coisas impressionantes. Mas não vejo absolutamente nada em termos de experiência, educação ou pesquisa para escrever a obra que lhe conferisse saber especializado em guerra ou poder aéreo. Talvez seja apenas outro "espelho rachado" em que a imaginação corre à solta.
O subtítulo do livro, The Fighter Pilot Who Changed the Art of War [O Piloto de Caça que Mudou a Arte da Guerra], não é o último nem o maior dos exageros, das afirmações sem base em documentos ou de prosa floreada que se encontram entre as duas capas. Um dos exemplos mais grosseiros ocorre na página 74, em que Coram afirma (sem rodapé) que "na seção de operações de vôo [na Base Aérea Nellis, Nevada], enquanto o piloto [de caça] preenchia o plano de vôo, pilotos de bombardeiro ou de transporte olhavam e viam a insígnia [Fighter Weapons School] e o cachecol xadrez preto e dourado, e se sentiram menos viris". Passei mais tempo voando do que John Boyd—em poucas palavras, como "piloto de bombardeiro leve" e, mais tarde, como piloto de transporte—mas nunca percebi esse fenômeno. Na verdade, desde a última vez que este piloto de bombardeiro leve saiu da seção de operações de vôo em Nellis, tornou-se pai de mais três filhos. Basta o ingênuo acolhimento de Coram às brincadeiras bobas das tripulações para desqualificar seu livro como estudo sério. Vamos porém observar mais um exemplo: "Isto tudo quer dizer uma única coisa: os Fuzileiros Navais têm um completo desprezo pela Força Aérea".6 Esta afirmativa é insultuosa tanto para o Corpo de Fuzileiros Navais quanto para a Força Aérea. Após sua recente passagem para a Reserva, um coronel da Força Aérea—um de meus mais ilustres colegas na Air University—foi contratado para ensinar na Marine Corps University, em Quântico, Virgínia. E este é apenas um dos numerosos exemplos de respeito mútuo que existe entre as duas Forças.7
Coram e o outro biógrafo de Boyd, o Dr. Grant Hammond, objeto da irada defesa do primeiro citado acima, têm certo número de traços em comum.8 Ambos os livros são hagiografias, embora o de Hammond seja menos extremo e seu autor, que realmente conheceu Boyd, tenha mais experiência no mundo do poder aéreo, como professor do Air War College. Ambos parecem valer-se indulgentemente do mesmo recurso literário para aumentar a viabilidade comercial de suas histórias perante editores e compradores: apresentaram Davi (Boyd e seus acólitos) matando um Golias (o establishment da Força Aérea e numerosos generais carreiristas cujos nomes não são apresentados). Ninguém jamais ficou rico dizendo que o governo dos Estados Unidos fez um bom trabalho. Sabe-se que Hammond, por exemplo, apareceu primeiro no mercado do pós-guerra com peças como "Mitos da Guerra do Golfo" que se concentra em como Golias agiu mal.9 Portanto, usarei a mesma técnica para discutir os "mitos a respeito de John Boyd, seus acólitos e o movimento de ‘reforma’ militar" de um quarto de século atrás.10 (Não me entendam mal. Quem quer que tenha podido sobreviver muitos anos voando em F-86 e F-100, inclusive com ejeções, não pode ser completamente mau. O que vejo no espelho rachado tem menos a ver com o próprio Boyd e mais com seus biógrafos e acólitos.)
Boyd nasceu em uma situação de
miséria, mas ainda assim conseguiu
vencer a adversidade.
Os biógrafos e acólitos fazem muito desta afirmativa. Contudo, creio que eles próprios são todos produtos de ambientes privilegiados do pós-guerra e julgam sem considerar o contexto da adolescência do jovem John Boyd (nascido em 1927). Coram (nascido cerca de 1938), Hammond (ainda mais jovem) e a maior parte dos acólitos são demasiadamente jovens para se lembrarem dos anos da Grande Depressão ou, mesmo, da época da guerra, período em que John Boyd cresceu. Além disso, como indica Walter Kross, a experiência de combate dos defensores do movimento de "reforma" (muitos deles acólitos de Boyd) é "virtualmente inexistente".11
Coram dá o título de "Início Mal-Assombrado" ao capítulo a respeito da juventude de Boyd. Certamente sua família deve ter tido dificuldades—até desgraças—e isso pode parecer miséria aos professores e jornalistas de hoje, no contexto de um século XXI afluente. Não era, porém, uma raridade no contexto da Depressão e da Segunda Guerra Mundial. Na verdade, milhões de adolescentes teriam considerado rica uma família que possuísse uma casa só para ela, bem como um automóvel, e pudesse dar-se ao luxo de permitir que o filho passasse os anos de curso secundário destacando-se em dois esportes, em vez de trabalhar mais para ajudar—e isto aconteceu na casa de Boyd. Talvez, entretanto, os biógrafos e acólitos tivessem de exagerar para fazer com que as chances a favor de Golias parecessem maiores do que eram.
Os biógrafos e numerosos acólitos afirmam que o establishment da Força Aérea foi preconceituoso em relação a Boyd, alardeando suas falhas e minimizando suas qualidades, dessa forma negando-lhe a promoção a oficial-general.
John Boyd recebeu sua patente em 1952, quando se bacharelou em Administração de Empresas pela Universidade de Iowa. No final, chegou a coronel. Jornalistas mais experientes, acólitos e professores podem ver nisso um fracasso ou sinal de desgraça; se o fizerem, estarão vendo o mundo a partir de uma torre de marfim. Basta utilizar a turma de 1952 de West Point—certamente um grupo cujos prospectos iniciais não eram inferiores aos da média do Exército nem da Força Aérea—como patamar para medir a conquista de Boyd. Dos 527 graduados, 369 (64%) não chegaram a coronel. Muitos deles tinham pós-graduação e cursos de pós-formação de nível intermediário e superior—o que Boyd não tinha. Quando receberam a patente de Segundo-Tenente, todos eles sabiam cálculo e termodinâmica; Boyd não entrou neste mundo até ser capitão antigo, aproximadamente uma década depois. Muitos deles tiveram mais experiência de combate e de comando de unidades operacionais do que Boyd.12 Todavia, John Boyd foi mais longe do que quase dois terços da Turma de 1952 da Academia Militar dos Estados Unidos. Com efeito, apenas 34 dos 527 (menos de 7%) chegaram a oficial-general. Em outras palavras, mesmo sem o benefício de começar com o grau em engenharia e uma educação na academia, Boyd foi tão bem sucedido ou melhor sucedido do que 93% dos egressos de West Point.13
Parece-me que tanto Coram quanto Hammond sofrem de uma falha séria em sua visão do mundo militar. Talvez, como sugere Coram, fosse mais exato indicar que se a mão tolerante de Golias não se estendesse a Boyd, ele não chegaria a coronel. Mas um momento, um momento! Abraham Lincoln, talvez o maior estrategista da história americana, também não foi para West Point e certamente não obteve uma graduação em engenharia. Se um cortador de madeira [do inglês railsplitter, apelido por meio do qual Lincoln era conhecido —The "Railsplitter" from Illinois] pode chegar a essas excelsas alturas, por que não pode um bacharel em administração de Iowa mudar a arte da guerra?
Boyd afirma (como seus acólitos) que passou por cima do establishment da Força Aérea, da idade da pedra, para ajudar a desenvolver e produzir um grande número de caças muito ágeis, leves e baratos que corrigiram os defeitos da Força durante a era do Vietnã. Assim, ele estabeleceu o longo dia do domínio aéreo dos Estados Unidos com o F-16 armado com canhão.
Este mito produz certo número de corolários:
• John Boyd teve participação fundamental no desenvolvimento e na produção do F-15, mas Golias modificou o projeto original ao acrescentar equipamentos que o tornou pesado demais.
• O Strategic Air Command (SAC) e seu comandante, o Gen Curtis LeMay, negaram canhões aos caças da era do Vietnã.
• O SAC e LeMay impuseram mísseis aos pilotos de caça.
• A Guerra Aérea no Vietnã prova que Golias havia esquecido as lições da Coréia, que ensinaram que os caças armados com mísseis, no sudeste da Ásia, careciam de agilidade e de visibilidade em direção ao setor traseiro, eram grandes demais e seus motores deixavam um rastro de fumaça significativamente visível, tudo isso resultando em um desempenho deficiente, colocando em risco a manutenção da superioridade aérea.14
• Estes problemas, juntamente com os temerosos Golias que serviam como coronéis nos anos 50, denegaram aos verdadeiros pilotos de caça o treinamento realista em dogfights de que eles necessitavam para vencer a Força Aérea Norte-Vietnamita.
• Os comunistas eram mais inteligentes que os nossos Golias porque inventaram os MiG, pequenos, leves e muito ágeis.
• O enorme F-111 foi a expressão definitiva da ignorância dos Golias, que estavam determinados a folhear tudo a ouro e transformar até o F-15 em um clone do Aardvark (F-111).
• A liderança do SAC nos anos 50 foi responsável pelo fracasso do F–105, planejado para lançamentos nucleares a alta velocidade, na guerra de guerrilha no Vietnã.
• A Marinha, cheia de sabedoria, apareceu com o Skyraider A-1E—muito superior ao F-105 na guerra aérea no Vietnã. Observando este desenvolvimento, Pierre Sprey, acólito de Boyd, desenvolveu o A-10, projetado para uma finalidade específica (que a Força Aérea tem tentado retirar do serviço ativo desde sempre)—não obstante o fato de que o Skyraider foi projetado para ataque com torpedos no mar em vez de para apoio aéreo aproximado (AAAp).
Nos anos 70, Boyd e seus acólitos profetizaram a ruína dos Estados Unidos em virtude dos erros dos Golias no comando da Força Aérea. Muitos do grupo de Boyd fortaleceram-se com as resenhas elogiosas do livro de Coram, e continuam a cultivar o martírio de John Boyd—mas com uma preciosa diminuição de atenção para a história do que aconteceu desde o Vietnã.15
Como aconteceu? Foi a grande capacidade que foi desenvolvida nas aeronaves F-15 e F-16 para condução do combate aéreo que nos livrou da derrota? Tenho dúvidas. Até a elaboração deste texto, os F-15 da Força Aérea, demônios dos acólitos, haviam destruído 39 alvos: todos com mísseis ar-ar. Os F-16 da Força Aérea destruíram sete: nenhum deles com o excelente canhão M-61. Na verdade, o Viper viu sua eficácia ser grandemente aprimorada pelo acréscimo do míssil avançado ar-ar de médio alcance (AMRAAM) que, pela primeira vez, dá à maioria dos F-16 uma capacidade de lançamento além do alcance visual (BVR). O F-16 empregou este míssil para atacar algumas das aeronaves abatidas; as restantes foram derrubadas com o Sidewinder modernizado, que nem de perto depende da agilidade que costumava ser necessária no Vietnã porque agora tem uma capacidade de lançamento em quase todos os aspectos de apresentação do alvo. Até aqui, o dogfight no estilo da Coréia parece ter desaparecido por completo do combate aéreo. A agilidade de ambas as aeronaves continua a ser altamente útil em permitir-lhes esquivar-se de mísseis superfície-ar, mas isto não é o que Boyd e seus acólitos tinham em mente. Mas esperem! Os "reformadores" desalentados pela excessiva sofisticação do F-15 tiveram êxito em conseguir o F-16, mais barato e mais simples, em vez do F-17 bimotor (que mais tarde evoluiu para se transformar no F-18 da Marinha).16 Que importa?
Até a elaboração deste texto, embora não tenhamos perdido qualquer F-15 ou F-16 em combate aéreo, alguns sucumbiram a acidentes. Até o fim do ano fiscal de 2001, 100 F-15 haviam sido destruídos em acidentes que custaram as vidas de 37 pilotos, comparados a 272 F-16 perdidos e 73 pilotos mortos. É verdade que o F-16 acumulou mais horas de vôo que o F-15, mas o número de aeronaves acidentadas e pilotos mortos é desproporcionalmente mais elevado no Viper.17 Nem a Marinha nem qualquer outro piloto sobrevivente de bombardeiro leve, nenhum deles jamais imaginou que esse segundo motor fosse supérfluo; sem dúvida, certo número de F-15 retornou a suas bases de origem por causa desta fonte extra de energia. Quando o Viper perde o motor, geralmente perde-se todo o avião (e às vezes o piloto) com ele.
Um dos corolários tem a ver com o argumento canhões versus mísseis. O General LeMay e o SAC são censurados por negarem canhões aos caças da Força Aérea na era do Vietnã e imporem mísseis aos pilotos relutantes. Como isso aconteceu? Em primeiro lugar, como se observou, os F-15 e F-16 em serviço abateram 46 aeronaves—todas elas com mísseis. A Força Aérea derrubou exatamente duas aeronaves com canhões desde que o F-16 entrou em serviço—ambas as vezes foram helicópteros derrubados por GAU-8 30mm de A-10, um canhão projetado especificamente para destruir carros de combate!18
Uma falha adicional neste mito sustenta que os Golias (especificamente, o General LeMay e o SAC) negaram canhões ao F-4C e F-4D. Isso é uma bobagem. LeMay leva a culpa, se culpa há, que realmente cabe ao Secretário de Defesa Robert S. McNamara. A Marinha projetou o F-4 (para defesa da esquadra contra bombardeiros desprovidos de manobrabilidade) e não incluiu um canhão em seus modelos. A Força Aérea tentou instalar um canhão interno, mas o Secretário McNamara negou esta modificação até que o combate no sudeste da Ásia demonstrasse sua necessidade. Nesse momento, surgiu o F-4E e seu canhão interno Gatling M-61 de 20mm.19
O Gen John J. Burns, homem cujas credenciais impecáveis como piloto de caça precediam em muito as de qualquer um dos membros da "Máfia dos Caçadores" da época, aprovava entusiasticamente os mísseis—especialmente os da variedade BVR. Esta tendência foi amplamente responsável por seu ceticismo em relação ao caça leve. Como foi estabelecido à época, em virtude de não ser dotado de radar adequado ao emprego dos mísseis AIM-7 semi-ativos, o F-16 só poderia lançá-los se estivesse posicionado imediatamente atrás do alvo—ao passo que o inimigo que dispusesse do míssil guiado por radar poderia lançá-lo na posição face-a-face com o F-16. Desde a Primeira Guerra Mundial, o avião que lançar sua arma primeiro tem probabilidade muito maior de se tornar o vencedor do combate.20
Como se observou, só quando o AMRAAM tornou-se operacional, no começo dos anos 90, é que o Viper adquiriu uma arma BVR—ela própria uma resposta high-tech. A atitude do General Burns nem é nova nem está limitada a oficiais de hierarquia mais elevada.21 Desde o começo, podia-se encontrar na Fighter Weapons Newsletter do final dos anos 50, entre os mais jovens pilotos de caça, grande entusiasmo pelos novos mísseis. Por exemplo, o Cap Robert Thor, escrevendo em 1958, quando Boyd ainda servia em Nellis, argumentou que, em futuro próximo, o piloto de caça que retornasse alegando haver derrubado uma aeronave inimiga com canhão estaria confessando o fracasso em usar adequadamente seus mísseis.22
De maneira semelhante, o SAC e o General LeMay são criticados por forçarem o Tactical Air Command (TAC) a entrar na era nuclear contra sua vontade ao adotarem o F-105 supersônico com seus compartimentos de armas configurados para bombas nucleares táticas. Entretanto, LeMay só se tornou chefe do Estado-Maior depois do primeiro vôo do F-105, em 1958. A verdade é que um dos maiores aviadores táticos de nossa história, o Gen Otto P. Weyland, é o principal responsável por introduzir o F-105 e as armas nucleares nas forças aerotáticas.23 Não foi preciso convencê-lo.
O F-111, outra vítima favorita dos acólitos, era o oposto do caça leve—por demais complexo e de baixa confiabilidade para ser mantido em elevado estado de prontidão.24 Quem pode discordar disto? Afinal, um dos princípios da guerra é a simplicidade. Nenhum dos princípios, porém, é sacrossanto, e certamente pode-se formular um plano ou produzir uma peça de equipamento tão simples que não sirva para cumprir a missão. O F-111 tornou-se um dos projetos de McNamara destinados integrar padronização de equipamentos ao processo de aquisição das Forças Armadas. Por esta razão, o avião acabou sendo configurado com assentos dispostos lado a lado, em vez de com assentos em tandem, de preferência da Força Aérea. Esta última configuração teria tornado o avião longo demais para caber no elevador de aeronaves de um navio-aeródromo. A Marinha, porém, desistiu do programa, preferindo, em vez disso, o enorme F-14 de asa variável (como o F-111). Como resultado, a Força Aérea foi penalizada pela limitação da visibilidade lateral causada pela configuração dos assentos lado-a-lado por um par de décadas adiante. Contudo, apesar de toda sua complexidade e, em conseqüência, baixo índice de disponibilidade, o F-111 certamente preencheu um importante papel que o F-16 não podia preencher: ataque de longo alcance a baixa altura, em quaisquer condições atmosféricas, e com carga útil de peso relativamente elevado. Com efeito, quando já não pudemos mais modernizar o F-16 tivemos de redesenhar o F-15 para criar o modelo E, com tanques conformais e novos aviônicos, para substituir o F-111 porque seu papel continuava a ser necessário.
Outro interesse faccioso do livro de Coram sustenta que os Golias da Força Aérea não sabem do que estão falando quando se trata de AAAp. Como prova, os acólitos indicam a hostilidade da Força Aérea para com o A-10, projetado para uma tarefa específica. Recentemente, Coram envolveu nesta questão os Golias, na imprensa, aparentemente com informação incompleta.25 Como é de seu costume, ele não tenta, no livro, examinar o outro lado da história. Ele poderia tê-lo achado facilmente no antigo livro Strike from the Sky, do historiador da Força Aérea, que narra a história pelo lado de Golias.26
Coram atribui ao A-10 a condição de primeiro avião da Força Aérea projetado especificamente para AAAp—afirmativa que é verdadeira se excluirmos a história do Air Corps e das US Army Air Forces, ambos os quais puseram em serviço numerosos projetos de aeronaves para ataque ao solo, do A-8 ao A-26 (este último tendo servido no Vietnã até o final dos anos 60). O acólito Sprey, sem dúvida um homem extraordinário, foi o fator catalisador por trás do projeto A-10. Segundo Coram, Sprey teve de fazer algumas concessões, já que o avião acabou sendo maior do que o que ele queria e foi equipado com dois motores em vez de um.27 Graças a Deus pelos Golias no que a isto se refere. Para se ter uma capacidade de longo tempo de permanência sobre a área de interesse, bem como a capacidade de emprego de grande quantidade de armamento, é preciso contar com uma aeronave de grande porte. Além disso, embora sua manobrabilidade desapontasse Sprey, o A-10 fez uma exibição impressionante mesmo a baixa altura e velocidade.
Boyd e os acólitos utilizam o modelo da Guerra da Coréia como exemplo sagrado da missão de combate aéreo e todavia a ignoram no caso do AAAp. É certo que na Coréia o P-51 prestou bons serviços no desempenho dessa tarefa. Contudo, o P-47 monomotor (da mesma forma que o P-51) revelou-se o avião superior para AAAp na Segunda Guerra Mundial, sem, porém, contar com um sistema de arrefecimento líquido que tornou o P-51 vulnerável até ao fogo de armas portáteis. Embora os primeiros jatos tenham sido severamente criticados por não prestarem apoio terrestre nos primeiros dias da guerra, o acréscimo de tanques alijáveis e "cabides" para bombas diminuiu a vantagem dos P-51 em termos de capacidade de carga útil. A aura romântica destes últimos revelou-se tão forte que chegamos a testemunhar tentativas de ressuscitar um Mustang modernizado durante a Guerra do Vietnã. Nisto tudo, bem como nos argumentos de Coram a respeito de AAAp, perde-se o fato de que o P-51, mais lento, teve o dobro da taxa de perdas do F-80—em parte por causa do sistema de arrefecimento vulnerável e em parte porque o inimigo podia ouvir o P-51 chegando, enquanto o Shooting Star chegava ao combate quase ao mesmo tempo que o som que produzia. Além disso, o F-80 passava substancialmente menos tempo ao alcance do fogo antiaéreo inimigo. Conseqüentemente, o jato teve o dobro das taxas do Mustang no que se refere a disponibilidade e surtidas, bem como metade das perdas, como já se disse. Sem dúvida, os Corsairs da Marinha/Fuzileiros Navais e os Mustangs executaram um trabalho crucial bem no começo da guerra, quando não havia pistas para jatos. Com o correr do tempo, contudo, realizar o dobro de surtidas, mesmo com menos armamento, e sofrer metade das perdas tinha de ter suas conseqüências. As forças de terra têm-se queixado perenemente da falta de um AAAp de pronta resposta por parte da Força Aérea. Os jatos não precisavam esperar o aquecimento dos motores necessário nos Mustangs, e podiam ir do aeródromo à zona de combate muito mais rapidamente; isto, também, foi um fator.28
Assim, a causa dos Golias, mesmo se fosse como descrita por Coram, talvez tivesse algum mérito. O armamento do A-10 exige que ele voe rasante e se aproxime do inimigo. Esta aeronave faz isto mais lentamente do que, digamos, o F-16; por conseguinte, as guarnições de artilharia antiaérea e os operadores de mísseis têm mais tempo para mirar e disparar suas armas antes que o A-10 se aproxime o suficiente para lançar seus temíveis mísseis GAU-8 ou até mesmo o Maverick. O motor extra revela-se útil nesta situação, tal qual a blindagem, mas o "Hog"* também permanece exposto por mais tempo ao fogo inimigo e perde eficácia, se comparado ao C-130, quando voa em elevadas altitudes acima do alcance da maior parte do fogo antiaéreo.29 Ao término, Coram acusa os Golias de aceitarem finalmente os "odiados" A-10 apenas para garantir que o Exército não arrebatasse a tarefa de AAAp. Talvez fosse bom que o fizesse, considerando-se os resultados dos helicópteros de ataque na segunda guerra conta o Iraque.30
* "Hog": forma abreviada de warthog (javali) - apelido dado à aeronave A-10 em virtude de sua configuração pouco atraente e por atuar a altitudes baixas, praticamente rente ao solo. - Nota da ASPJ em português
John Boyd mudou a arte da guerra;
ele é o maior teórico militar desde
Sun Tzu.
Segundo Coram, "os acadêmicos que sabem a respeito de Boyd concordam que ele foi um dos primeiros estrategistas do século XX, bem como o único a colocar o tempo como centro de seu pensamento. Até aí eles vão. Entretanto, Boyd foi o maior estrategista militar desde Sun Tzu".31 Esta é uma afirmativa bem forte. Ela ignora alguns ilustres teóricos: Carl von Clausewitz, Henri Jomini, Alfred Thayer Mahan, Julian Corbett, Giulio Douhet, Billy Mitchell, e até John Warden—todos com livros publicados. Existe a possibilidade de ser válida a afirmativa de Coram?
Assisti pela primeira vez a um discurso de John Boyd na Air University logo após ter ele passado para a Reserva. Admirei bastante sua fala, porque ele não se valeu do humor claudicante tão comum nas apresentações da época. Em vez disso, sua apresentação foi clara e seu entusiasmo, óbvio. Pareceu-me, contudo, que ele se valeu fortemente do livro de Russell Weigley, The American Way of War. Fiquei pensando por que um coronel da Reserva estava acabando de entender a importância de tempo, surpresa, movimento e da insensatez de avançar colina acima em Fredericksburg ou contra o centro da linha fortificada ianque, em Gettysburg.32 Todos os segundos-tenentes egressos de West Point em 1952 sabiam completamente estas coisas. O Gen Norman Schwarzkopf, que, quatro anos mais tarde, seria o 42o em uma turma de 480, certamente não necessitava de instrução quanto à natureza da blitzkrieg ou quanto à insensatez de seguir o exemplo de Ambrose Burnside de investir impetuosamente contra o centro das forças adversárias.33
Então me ocorreu, contudo, que Clausewitz, Jomini, Mahan, Corbett, Douhet e Mitchell também haviam escrito seus livros no final da carreira—embora Boyd não chegasse a colocar suas teorias em forma de livro. Em vez disso, elas assumiam a fórmula de exposições apresentadas a partir de um grande número de slides. À medida que ele passava mais tempo na Reserva, era claro que ele estava lendo cada vez mais uma ampla variedade de fontes. As exposições tornaram-se cada vez mais longas e, como observa Coram, "suas exposições eram virtualmente impenetráveis sem uma explicação".34 Certamente, Clausewitz é difícil de ser penetrado; Mahan é uma leitura mais fácil, mas exige algum esforço. Douhet e Mitchell são ainda mais fáceis, embora ambos se tivessem expostos a duras críticas. Suponho, porém, que não é preciso ser um purista para argumentar que um teórico também pode ser um professor e que, a menos que ele apresente suas idéias em forma utilizável, como em um livro, os mais brilhantes conceitos se perderão.
Além disso, para ser um "estrategista" é preciso que a pessoa esteja exercendo uma função de formulação de estratégia, o que nunca foi o caso de Boyd. Todo o seu trabalho em Nellis se deu no nível tático e, mesmo depois, ele se encontrou no lado técnico do trabalho da Força Aérea. Coram dá muito valor à idéia de que Boyd afetou a estratégia da guerra do Golfo depois que o Secretário de Defesa Dick Cheney o convocou para que apresentasse idéias. Não há dúvidas de que esse contato ocorreu, mas a vitória tem mil pais, e o vice-presidente jamais sugeriu que as idéias de Boyd tivessem qualquer importância superior a muitas outras. Alega-se que Boyd impediu que os Golias (neste caso do Exército) "atacassem o centro das forças inimigas".35 Mas o próprio Coram diz que Cheney negou ter sido o fator fundamental na mudança do plano e que os tomadores de decisão favoreceram um ataque frontal. Contudo, uma ampla e impetuosa investida pelo flanco esquerdo inimigo—o famoso Left Hook [gancho de esquerda]— dependia do desdobramento de um segundo corpo-de-exército. Coram (bem como seus acólitos) respeita muito o Corpo de Fuzileiros Navais, tal qual o fazem todos os americanos que pensam. Ele dá grande crédito à ameaça anfíbia que, diz ele, fixou o flanco esquerdo iraquiano de modo que ele não se pudesse movimentar para fazer frente à manobra do Left Hook.36 Ele também admira o rápido avanço dos fuzileiros navais estabelecidos naquele setor diretamente pelo meio até a Cidade de Kuwait—com grande eficácia e mínimas perdas.37
Infelizmente, segundo alguns, o avanço foi rápido demais porque os fuzileiros navais adiantaram-se tanto ao cronograma que já não agiam como uma força de fixação no flanco direito da coalizão. Assim, eles fizeram com que o inimigo começasse a recuar prematuramente, antes que o Left Hook pudesse completar seu giro para envolver a Guarda Republicana e outras forças inimigas. Coram critica o Exército por esta situação, embora, em seu livro The Generals’ War (fonte utilizada por Coram para descrever o papel de Cheney), Michael Gordon e Bernard Trainor digam explicitamente que os fuzileiros navais atuaram como um pistão que empurrou a Guarda Republicana para fora do bolsão antes que a armadilha pudesse ter sido armada.38 O argumento é que, mesmo que o plano original de Schwarzkopf nada mais tivesse exigido senão o ataque frontal, ainda assim haveria a probabilidade de o exército iraquiano desmoronar como um castelo de cartas. Kenneth Brower e Steven L. Canby observaram que "os iraquianos eram tão ineptos que o poder aéreo poderia ter vencido a guerra sozinho, tal qual poderiam tê-lo feito o Exército e os Fuzileiros Navais. Quase qualquer plano teria tido um êxito unilateral".39 O terreno sobre o qual erigir John Boyd como um grande estrategista parece um tanto movediço.
Também se deu muito valor a seu ciclo OODA (observar, orientar, decidir e agir), às vezes mais por parte dos acólitos do que o próprio Boyd. Na verdade, uma das ruas da Base Aérea Maxwell, Alabama, leva o nome oficial de "OODA Loop". Pode este conceito de Boyd justificar a afirmativa de que ele é agora o maior de todos os teóricos desde Sun Tzu? Parece que ele nada me diz de novo. Todo segundo-tenente egresso da Academia Militar em 1952 foi doutrinado nos princípios da guerra, sua utilidade e suas limitações. A finalidade dos princípios de ofensiva, surpresa e manobra está em solapar a estabilidade mental do inimigo—e tanto Douhet quanto Mitchell foram explícitos em declarar que a vitória repousava na mente do inimigo. Mas por outro lado, "Command of the Sea" nada tinha de novo quando Mahan pôs as idéias no papel, em 1890. Essas idéias revelaram-se de influência gigantesca, ao ponto de darem a Douhet a idéia do título de sua grande obra Command of the Air. Se consideramos Mahan e Douhet teóricos importantes, por que não o fazemos com Boyd?
O que é uma teoria da guerra? Uma definição comum seria: "um corpo de idéias acerca da organização da força militar e de seu emprego na guerra e na paz". O que é uma grande teoria? É uma teoria suficientemente geral para ser usada por um tempo razoável e aplicada a uma ampla variedade de casos. A capacidade de aplicar-se a todos os casos também seria interessante. Além disso, uma boa teoria é suficientemente específica para ser de auxílio útil na tomada de decisões. Uma teoria excessivamente geral não é muito útil (por exemplo, a maternidade é boa) e uma teoria excessivamente específica tem apenas utilidade limitada (por exemplo, Jane é uma boa mãe). Clausewitz afirma que quando as tropas vão para o campo de batalha precisam deixar para trás a teoria. Precisa-se apresentar a teoria de maneira a poder ser consumida—geralmente em texto escrito—porque ela ajuda a organizar o pensamento e educação para tornarem a guerra mais compreensível.
Pode-se usar o ciclo OODA em muitos casos? Sim, especialmente no nível tático. Em todos os casos, nunca. O nosso ciclo OODA durou menos do que o do inimigo no caso do Mayaguez, e muitos aviadores e fuzileiros navais morreram por causa disto. O Gen David Jones pediu aos políticos para adiar o assalto à ilha Koh Tang até sexta-feira, mas seus superiores insistiram que ele fosse feito no alvorecer, na quinta-feira.40 Infelizmente, não sabíamos que os cambojanos tinha decidido libertar a tripulação do Mayaguez e que ela já estava a caminho da liberdade. Assim, aviadores e fuzileiros navais iniciaram seu catastrófico desembarque em vão. Certamente os fuzileiros navais que sobreviveram de nenhum modo desprezaram os aviadores que os resgataram ou que morreram na tentativa. O Congresso dos Estados Unidos penetrou no ciclo OODA britânico em 1912, quando declarou a guerra dois dias depois que as Ordens no Conselho haviam sido canceladas, o que resultou no incêndio da Casa Branca.41 É claro que há um momento de ação rápida e há um momento de tomada de decisão ponderada. O ciclo OODA não apresenta qualquer coisa nova, e muitos dos Golias da Operação Rolling Thunder ao Gen Michael Short lamentaram a incapacidade em implementá-lo. Todavia, o Gen Wesley Clark também fez uma defesa plausível de que às vezes o gradualismo é necessário para manter unida a coalizão. A tarefa do estrategista é discernir entre as duas situações. As pessoas têm tendência natural a aparecer com uma boa idéia, tal como a de combater MiG sobre o rio Yalu e, em seguida, a aplicá-la a casos de todo tipo. Boyd, e especialmente seus acólitos, tentaram extrapolar a idéia do nível tático para todas as circunstâncias. Provavelmente jamais existirá um modelo universal, e costuma-se dizer que todas as guerras são singulares e precisam ser consideradas segundo suas próprias características—é o que diz um de nossos superados teóricos, Carl von Clausewitz.42
Boyd não apresentou seu corpo de idéias em uma forma que pudesse ser consumida e seus acólitos, inclusive Coram, consideram virtude essa recusa propositada em fazê-lo.43 Conseqüentemente, suas idéias permanecem vagas demais para representarem qualquer outra coisa que não um alvo móvel, de pouco uso para estruturar o debate ou tentar educar a mente das pessoas quanto à natureza da guerra, antes de chegarem ao campo de batalha. Coram insiste que Boyd é o maior piloto de caça da história da Força Aérea e o maior dos teóricos desde Sun Tzu.44 Olhei no espelho e não pude ver prova a favor de nenhuma dessas afirmativas. Tampouco vejo um apóstolo no espelho de Coram. Certamente vejo, contudo, na página 130 de seu livro, a afirmativa de que "os sulistas e os pilotos de caça sabem que a estória é mais importante do que os fatos" (grifei). A parte relativa aos pilotos de caça está errada; quanto ao resto da frase, digo amém!45
1 ."John Boyd, Technology and the Careerists" [letter to the editor], Naval War College Review 51 (WINTER 2003): 141.
2. Robert Coram, Boyd: The Fighter Pilot Who Changed the Art of War (Boston: Little, Brown, 2002).
3. Veja-se web site de Coram, http://www.robertcoram.com/prostate.html. Não há dúvida de que a morte do Cel John Boyd de câncer da próstata tocou Coram, considerando-se sua própria experiência com a doença.
4. Robert Coram, "Two Days in May," Atlanta 41 (May 2001): 1c, http://www.au.af.mil/au/aul/lane.htm (go to the EBSCOHost link).
5. Não quero sugerir que haja inevitável incompatibilidade entre jornalismo e boa história militar. Exemplo disso é Rick Atkinson, cujo livro Crusade: The Untold Story of the Persian Gulf War (Boston, MA: Houghton Mifflin, 1993) é uma das melhores narrativas da primeira guerra do Golfo e cujo primeiro volume da história da Segunda Guerra Mundial colheu resenhas maravilhadas. Todavia, ele é um dos mais importantes jornalistas do Washington Post. É claro que ele entende o uso crítico das fontes de entrevista e a necessidade de pesquisa válida em arquivos.
6. Coram, Boyd, 273.
7. Passando para a Reserva da Força Aérea depois de 30 anos de serviço, fui quatro vezes convidado para falar em Quântico e, entre meus orientandos de tese, contam-se dois fuzileiros navais de elevado caráter. É claro que alguns fuzileiros navais podem ter desprezo, mas Coram é exageradamente inclinado a generalizações abrangentes.
8. Grant T. Hammond, The Mind of War: John Boyd and American Security (Washington, DC: Smithsonian Institution Press, 2001).
9. Dr. Grant T. Hammond, "Myths of the Air War over Serbia: Some ‘Lessons’ Not to Learn," Aerospace Power Journal 14, no. 4 (WINTER 2000): 1, http://www.airpower. maxwell.af.mil/airchronicles/apj/apj00/win00/ham mond.pdf; and idem, "Myths of the Gulf War: Some ‘Lessons’ Not to Learn," Airpower Journal 12, no. 3 (Fall 1998): 1, http://www.airpower.maxwell.af.mil/airchronicles/apj/ apj98/fal98/hammond.pdf. Hammond não trata da vida particular de Boyd. Embora Coram lamente a irresponsabilidade que Boyd exibiu em sua vida particular, ele parece ver com leviandade a irresponsabilidade em sua vida como oficial.
10. Há muito tempo, o Ten Cel (mais tarde Gen) Walter Kross também usou o formato de mitos para discutir o movimento de reforma militar da época. Veja-se "Military Reform: Past and Present," Air University Review 32, no. 5 (July–August 1981): 101–8, http://www.airpower.maxwell.af.mil/airchronicles/aureview/1981/jul-aug/kross.htm. Embora eu trate aqui de quatro mitos, não quero sugerir que haja apenas quatro, no livro ou da parte dos acólitos.
11. Kross, "Military Reform: Past and Present."
12. Como indica Coram, o único comando de Boyd foi o do grupo de apoio ao combate em Nakom Phenom, na Tailândia, em 1972, ao final da guerra—fora do campo de operações, embora às vezes servisse de degrau para a progressão na carreira.
13. Association of Graduates, US Military Academy, Register of Graduates and Former Cadets (West Point, NY: West Point Alumni Foundation, 2000), sec. 4, 323–32.
14. Muitos outros mitos estão embutidos nessa única frase. Os camponeses que voaram o MiG-15 aprenderam muito entre 1953 e a época do MiG-21, em 1965, porque haviam partido de uma base muito inferior à dos americanos. Além disso, se toda a Marinha e toda a Força Aérea dos Estados Unidos tivessem sido reequipadas com o MiG-21, o quadro teria se tornado muito mais terrível porque o MiG não podia transportar um carregamento de bombas ; nem teria podido voar de Korat a Hanói, nem teria contado com o apoio de reabastecedores. Se o vôo tivesse ocorrido em Acapulco, em vez de Hanói, teria sido demasiadamente fácil. Em poucas palavras, os acólitos usam uma falsa analogia ao compararem os MiG com os F-4 e F-105. É um claro exemplo de se comparar maçãs com laranjas. De qualquer modo, grande parte da superioridade aérea desfrutada na Coréia resultou de terem os B-29 evitado a construção de aeródromos para MiG perto do campo de batalha. Além disso, Joseph Stalin implementou uma política deliberada de evitar o confronto nuclear com os Estados Unidos, limitando suas unidades de MiG à defesa aérea da fronteira do rio Yalu e nada mais. Assim, até os B-50 e B-36 que LeMay não queria remanejar para a Coréia tiveram um papel na manutenção, ali, da superioridade aérea. A questão é que todo modelo usado pelo movimento de reforma para construir seus argumentos era falso. De qualquer modo, a manutenção de uma taxa de abate de dois para um no Vietnã , no ambiente de cobertura de radares inimigos e longe das próprias bases, é um testemunho de força, não de fraqueza.
15.William S. Lind, "The Three Levels of War: Don’t Take John Boyd’s Name in Vain," Counterpunch, 3 May 2003, http://www.counterpunch.org/lind05032003.html; Franklin C. Spinney, "Genghis John," US Naval Institute Proceedings, July 1997, http://www.d-n-i.net/fcs/comments/c199.htm#Reference; and "Harry Hillaker—Father of the F-16," interview by Eric Hehs, codeonemagazine.com, http://www.codeonemagazine.com/archives/1991/articles/jul_91/july2a_91.html.
16. Ten Gen John J. Burns, provavelmente um dos Golias vistos como Nêmesis dos "reformadores", argumenta que o impulso primordial a favor do caça leve não foi a eficácia em combate, mas o desejo de aumentar o interesse em termos de vendas militares para o exterior: "como resultado de muito diálogo, no qual me envolvi em parte, o acordo foi de que a Força Aérea desenvolveria o caça leve, ainda não escolhido à época, e incluir em 650 deles em nosso acervo, porque precisávamos de uma produção básica de 1.000 para tornar o preço competitivo com o do Mirage, principalmente para o consórcio de compras europeu. Eles iam comprar cerca de 350; assim, tínhamos que comprar 650" (grifei). Interview by Hugh N. Ahmann, 5–8 June 1984, transcript, 306, Air Force Historical Research Agency, Maxwell AFB, AL.
17. USAF, "F-16 Flight Mishap History" and "F-15 History," http://safety.kirtland.af.mil/AFSC/RDBMS/Flight/stats.
18. Dr. Daniel L. Haulman, "Table of USAF Aerial Victories by Guns and Missiles," draft (Maxwell AFB, AL: Air Force Historical Research Agency, n.d.). Mesmo no Vietnã, os mísseis derrubaram 89 aeronaves e os canhões aéreos, apenas 43. Na primeira Guerra do Golfo, os canhões abateram três helicópteros e os mísseis derrubaram 33 aviões. Os mísseis foram responsáveis por todas as aeronaves abatidas em Kosovo.
19. Burns, interview, 192–93.
20. Ibid., 223–25. Há um pequeno dilema aqui. A questão
do ciclo OODA é penetrar no ciclo de decisão do inimigo de modo a possibilitar o
primeiro disparo. Um dos benefícios aparentes do F-16 é que seu pequeno porte
amplia a probabilidade de o piloto localizar primeiro a aeronave inimiga, que é
maior. Contudo, o projeto inicial exigia limitá-lo a empregar canhões e mísseis
de curto alcance, ambos os quais tinham de ser disparados com a aeronave
posicionada diretamente atrás do alvo inimigo. Assim, aviões inimigos
suficientemente grandes para transportar mísseis guiados por radar com o
equipamento de identificação necessário efetuariam o primeiro lançamento
abrangendo o cone dianteiro da aeronave. Embora aperfeiçoamentos no
Sidewinder permitissem alguns lançamentos em direção ao cone frontal da
aeronave, seu alcance continuava curto e o piloto do avião maior tinha melhor
chance de localizar um à sua frente a tempo de lançar flares. Quanto à
importância de ver primeiro, veja-se Mike Spick, The Ace Factor: Air Combat
and the Role of Situational Awareness (Annapolis: Naval Institute Press,
1988), 6–8. Na verdade, a única questão que o livro discute é como tornar-se
suficientemente cons-
ciente da situação operacional para poder ser o primeiro a atacar o inimigo—algo
que John Boyd e muitos antes dele entenderam.
21. Para que o leitor não pense que estou a serviço de alguma empresa e por isso defendo os Golias e a Força Aérea, devo indicar que servi como piloto de reabastecedor na 341st Strategic Bomb Wing e também como piloto de C-130 na 388th Tactical Fighter Wing—experiências que dificilmente tornariam alguém um mostruário para generais de caça ou de bombardeiros.
22. Cap Robert Thor, "GAR-8," Fighter Weapons Newsletter, June 1958, 29–30. Coram declara que "Boyd e Christie [em uma exposição no Pentágono, durante a Guerra do Vietnã] ampliaram a exposição normal de E-M [energia-manobrabilidade] para mostrar quão terrivelmente ina-dequados eram os mísseis ar-ar dos Estados Unidos. . . . O Sidewinder errava o alvo e caía no solo tão freqüentemente que os pilotos o chamavam ‘sandwinder’." Coram, Boyd, 178. (Pode ter sido inadequado, mas foi o primeiro míssil guiado a derrubar aeronaves. Os soviéticos tiveram por ele consideração suficiente para copiá-lo.) Anteriormente, Boyd havia declarado que, em suma, como o ataque contra a parte inferior da aeronave inimiga dá máxima vantagem—IR, G, surpresa e desempenho—devemos empregar esse ataque sempre que possível. Como verão mais tarde, isto é verdade tanto para caça contra bombardeiro, quanto para caça contra caça. Comparado com o ataque de canhão, o AIM9-B [o primeiro Sidewinder] é muito superior, já que o alcance do míssil nos permite entrar em um cone de fogo eficaz." Boyd, "Aerial Attack Study," rev. ed., 1964, 27, Air University Library, Maxwell AFB, AL.
23. Weyland era o aviador no comando do XIX Tactical Air Command do Gen George S. Patton, durante a investida pela França, e comandante das Far East Air Forces [Forças Aéreas do Extremo Orienta] durante a Guerra da Coréia, antes de voltar para os Estados Unidos e comandar o TAC, em meados dos anos 50. Gen Otto P. Weyland, entrevistado pelo Dr. James Hasdorff, 19 November 1974, transcript, 253, 260, Air Force Historical Research Agency, Maxwell AFB, AL.
24. Veja-se Coram, Boyd, 346–47, onde ele afirma que "Spinney provou que virtualmente tudo que a Força Aérea prometera ao povo americano acerca do F-15 e do F-111D era falso".
25. Robert Coram, "The Hog That Saves the Grunts," New York Times [Op-Ed], 27 May 2003, http://www.robert coram.com/op_ed.html. Aqui, Coram diz (sem citar a fonte) que a Força Aérea planeja retirar todos os A-10 do serviço ativo e também afirma, sem qualificativos, que "isto é um erro grave".
26. In Strike from the Sky: The History of Battlefield Air Attack, 1911–1945 (Washington, DC: Smithsonian Institution Press, 1989), Richard P. Hallion argumenta que todas as aeronaves de AAAp bem-sucedidas transferiram-se do papel ar-ar para o papel ar-solo (incidentalmente, não fico satisfeito com sua explicação dos exemplos dos Shturmovik e dos B-25 de Kenney no sudoeste do Pacífico). Entretanto, Hallion tem boa defesa porque o ditado "velocidade é vida" para aeronaves que voam a baixa altura sobre o campo de batalha foi demonstrado numerosas vezes—como o foi o ditado de que "a coisa mais inútil na Força Aérea é a altitude que está acima de você".
27. Coram, Boyd, 234–36.
28. Burns, interview, 79; George E. Stratemeyer, The Three Wars of Lt. Gen. George E. Stratemeyer: His Korean War Diary, ed. William T. Y’Blood (Washington, DC: Air Force History and Museums Program, 1999), 34–35; Thomas C. Hone, "Korea," in Case Studies in the Achievement of Air Superiority, ed. Benjamin F. Cooling (Washington, DC: Office of Air Force History, 1994), 454–55; e Allan Millett, "Korea, 1950–1953," in Case Studies in the Development of Close Air Support, ed. Benjamin F. Cooling (Washington, DC: Office of Air Force History, 1990), 362–63.
29. Talvez agora esta deficiência se esteja alterando, por causa do grande êxito da econômica Arma de Ataque Direto Combinado [JDAM] e do movimento para reduzir o tamanho das bombas, o que é permitido pela sua precisão desde grande altitude. Parte do pensamento atual sustenta que a capacidade de atingir alvos de maneira confiável desde grande altitude, mesmo através de nuvens, com iluminadores no solo (como no Afeganistão) diminuiu a necessidade de que helicópteros e A-10 voem a baixa altura e nas proximidades do alvo.
30. Stephen Trimble, "AH-64 Apache’s Deep Strike Role under Army Review, Keane Says," Aerospace Daily, 6 August 2003, 1, http://ebird.dtic.mil/Aug2003/s2003 0806206809.html (accessed 9 August 2003).
31. Coram, Boyd, 445. Ele nem identifica os "acadêmicos" nem dá a referência da afirmativa final; portanto esta última depende de sua própria autoridade.
32. Russell F. Weigley, The American Way of War: A History of United States Military Strategy and Policy (New York: Macmillan, 1973).
33. Association of Graduates, US Military Academy, Register of Graduates, sec. 4, 363. Coram menciona blitzkrieg como representando uma espécie de precedente do pensamento de Boyd—certamente o tempo era parte crucial da blitz.
34. Coram, Boyd, 329.
35. Raramente Coram cita a autoria de seu mateiral, mas credita ao livro de Michael R. Gordon e Gen Bernard E. Trainor, The Generals’ War: The Inside Story of the Conflict in the Gulf (Boston, MA: Little, Brown, 1995) a informação quanto ao papel de Cheney.
36. Pode-se encontrar qualquer número de fontes que afirmem que a ameaça anfíbia fixou o flanco esquerdo do inimigo, mas o Alte Stansfield Turner, em seu artigo "Is the U.S. Navy Being Marginalized?" Naval War College Review 56 (Summer 2003), nota que "o último assalto anfíbio com resistência inimiga foi realizado em 1950 em Inchon. Planejamos um em Wonsan, em 1951 e outro no Kuwait, em 1991: ambos foram cancelados porque as expectativas de êxito superavam a realidade da ameaça apresentada pelas minas. Hoje, fica difícil imaginar onde os Estados Unidos poderiam querer realizar um grande ataque anfíbio com resistência inimiga, nos próximos cerca de 20 anos" (98). Talvez os iraquianos não percebessem isto, ou tralvez eles simplesmente não tivessem capacidade ou desejo de se estender para o oeste. Talvez o Corpo de Fuzileiros Navais tenha reconhecido isto e por isso abandonasse a tradicional descrição da missão em termos de "navio-praia" em favor da nomenclatura "navio-objetivo".
37. Coram, Boyd, 424–26.
38. Ibid., 425; e Gordon e Trainor, Generals’ War, 362.
39. Kenneth S. Brower e Steven L. Canby, "Weapons for Land Warfare," in The Future of Smart Weapons: Proceedings from a AAAS Annual Meeting Symposium, 8 February 1992 (Washington, DC: American Association for the Advancement of Science, 1992), 1.
40. John F. Guilmartin Jr., A Very Short War: The Mayaguez and the Battle of Koh Tang (College Station, TX: Texas A&M University Press, 1995), 37–38.
41. Thomas A. Bailey, A Diplomatic History of the American People, 6th ed. (New York: Appleton-Century-Crofts, 1958), 144.
42. Aqui a obrigatória referência a Carl von Clausewitz : Carl von Clausewitz, On War, ed. and trans. Michael Howard and Peter Paret (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1976), 88.
43. Barry Watts a David R. Mets, e-mail, 31 July 2003.
44. Coram, Boyd, 255, 445.
45. Se você realmente precisar ler uma obra a respeito de Boyd, prefira o livro de Hammond.
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O Dr. David R. Mets (Bacharelado, Academia Naval dos EUA; Mestrado, Columbia University; Doutorado, University of Denver) é professor da School of Advanced Air and Space Studies, Base Aérea Maxwell, Alabama, e foi editor da Air University Review. Durante sua carreira de 30 anos, pertenceu à Marinha dos EUA e foi piloto e navegador da Força Aérea. Realizou mais de 900 missões de C-130B no Vietnã e, em sua última comissão em unidade de vôo, comandou um esquadrão de AC-130 no exterior. Lecionou tanto na Academia Militar dos EUA quanto na Academia da Força Aérea dos EUA. O Dr. Mets é o autor de Master of Airpower: General Carl A. Spaatz (Presidio, 1988) e de mais quatro livros. |
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