Documento criado em  20 Jan 07
ASPJ  Em Português 1° Trimestre 2006


Cartas ao Editor


Estimulamos o envio de comentários por meio de cartas ao editor. Toda correspondência deve ser endereçada ao Editor, Air & Space Power Journal em português, 401 Chennault Circle, Maxwell AFB AL 36112-6004. Você também pode submeter seus comentários por e-mail para cadreaspj@aol.com. Reservamo-nos o direito de revisar o material em toda a sua extensão.

Prezado Editor da Edição em Português da ASPJ

À medida que progredimos na carreira, percebemos que a especialização, tão importante no início da vida profissional, compromete a visão macro que precisamos ter para melhor assessorar nossos comandantes. Uma vez que acontece a conscientização para esse fenômeno, surge imediatamente a importância da Air & Space Power Journal em Português, como um veículo de conteúdo de altíssima qualidade para divulgação de idéias relacionadas à aplicação do poder aéreo. Minha experiência pessoal em relação a essa revista tem sido de grande expectativa quanto às novidades da próxima edição enquanto garimpo os temas tratados nos números anteriores, pois há sempre um bom artigo para ser referenciado nos meus trabalhos.

No último trimestre tivemos a satisfação de ler, entre outros títulos não menos relevantes, os "Comentários do Major-General Lorenz acerca de Liderança". Esse artigo, em especial, abordou de maneira simples e direta um tema importantíssimo, mas muito pouco discutido e documentado no âmbito das Forças Armadas brasileiras. O autor foi muito feliz ao elaborar o que chamou de "princípios de liderança", fundamentados em sua experiência pessoal, convidando-nos a pensar sobre eles. Particularmente, vislumbrei a possibilidade de aplicá-los de forma imediata. Trabalho no Comando-Geral de Operações Aéreas (COMGAR), setor que vem passando por significativas mudanças, incorporando novos equipamentos e novas doutrinas de condução de operações aéreas e combinadas, que certamente exigem "equilíbrio das deficiências", "conhecimento", "transparência" e "poder de combate avassalador no ponto em que ele terá efeito máximo". Além disso, e principalmente, "precisamos pensar e agir para além do convencional" quando planejamos essas mudanças, exatamente como sugeriu o Major General Lorenz.

Apesar da preocupação (natural) do autor com as guerras americanas, é possível verificar de forma cristalina que as nossas dificuldades também podem ser atacadas utilizando os treze princípios propostos, mesmo tendo sido eles concebidos numa realidade diferente. Parabéns ao editor por selecionar, para a versão em Português da ASPJ, um artigo tão oportuno e enriquecedor.

Maj Av Davi Rogério da Silva Castro,
Força Aérea Brasileira

Boydmania

Gostaria de fazer alguns comentários em resposta ao artigo do Dr. David Mets sobre John Boyd e seu legado ("Boydmania," 3º Trim 05 da edição em português). Primeiro, em muitos aspectos, ele intencionalmente compôs o artigo de maneira irônica, o que tem gerado muita discussão; devemos agradecer-lhe efusivamente por isto. Afinal, estimular o debate de temas profissionais é uma das missões de sua revista. O artigo, sem dúvida, permite-se um ataque pouco gentil ao biógrafo de Boyd, Robert Coram, tomando por base seus trabalhos publicados. Subscrevo à idéia de Carl Becker de que somos todos historiadores e, portanto, propensos a interpretar a realidade baseados em nossas próprias experiências. Dessa forma, Coram parece-me bem-vindo como comentador—algumas vezes necessitamos de uma perspectiva inovadora para nos ajudar a entendermos a nós mesmos. Obviamente, Coram ficou um pouco deslumbrado, mas Boyd é um tema cativante.

Até a publicação do livro de Coram, o legado de John Boyd não tinha recebido, em geral, muita atenção. Agora ele é o tema de estrategistas do mundo de negócios e de estrangeiros que querem imitá-lo. Uma das coisas que mais admiro quanto ao caráter de Boyd é o fato de ter ele produzido parte de seu melhor trabalho sem se preocupar com remuneração. É bem conhecido que ele recusou-se a aceitar qualquer coisa que não um salário simbólico pelo trabalho que exerceu no domínio civil após sua passagem para a reserva. Boyd é a antítese dos consultores multimilionários e altos dirigentes executivos de nossos tempos que arquitetam negócios de honestidade duvidosa—um grande exemplo do dever antes de si mesmo, inexistente nos dias atuais. O sucesso desse livro e de vários modelos de negócios que a ele se seguiram tem, certamente, produzido na Força Aérea uma enorme boa-vontade e maior sensibilidade da opinião pública para os desafios que enfrentamos quando tecnologia e conservadorismo se confrontam dentro das Forças Armadas. A exemplo de Isaac Newton, Boyd não era uma pessoa com quem necessariamente se desejasse estabelecer relações sociais, mas era eminentemente interessante.

A despeito dos comentários do Dr. Mets sobre os conceitos do caça leve e do caça de superioridade aérea, acho que eles são, de um modo geral, a melhor validação das idéias de Boyd. Eles propiciaram aos Estados Unidos uma superioridade aérea tão irrefutável que poucos países mostraram disposição para engajar nossa aviação militar nos últimos 15 anos. Quando ele escreve "Foram os. . . . F-15 e F-16 que nos livraram da derrota? Tenho dúvidas" (p. 11), o Dr. Mets deixa implícito que os ágeis e leves caças são, em grande medida, desnecessários, já que eles teriam alcançado somente algumas vitórias aéreas para a Força Aérea. Ele também duvida de que eles necessitassem canhões, já que todas as suas vitórias foram conquistadas por meio do emprego de mísseis (muito embora, contra objetivos de superfície, os A-10 e F-15E tenham destruído os alvos selecionados por meio de canhão e bombas guiadas a laser, respectivamente, e a história das operações aéreas contemporâneas ainda necessite ser escrita). Estou convicto de que Israel tem submetido plenamente as idéias de Boyd à prova e extraído o máximo desempenho dos F-15 e F-16. Em Israel, as limitações do espaço aéreo e a proximidade da ameaça validam tudo que Boyd previu: uma aeronave de combate deve sempre superar o desempenho operacional de seu adversário em combate aproximado, dependendo apenas de algo tão simples como as regras de engajamento estabelecidas. O que há de magnífico nessas duas aeronaves é que o emprego de armamento de tecnologia mais elevada as torna ainda mais eficientes, sendo elas excelentes também no que diz respeito ao monitoramento e rastreio de alvos de interesse adquiridos por meio de contato visual. A tecnologia de emprego a uma distância além do alcance visual não será benéfica se um piloto equivocadamente vier a engajar alvos amigos.

As teorias de gerenciamento de energia de aeronaves durante manobras de combate aéreo, de Boyd, tornam-se mais aplicáveis a cada dia; estamos à beira de uma revolução gerada por veículos aéreos não-tripulados de relativo baixo custo, alta velocidade e alta manobrabilidade. Boyd teria desfrutado poder ter testemunhado a manobrabilidade potencialmente superior dos veículos aéreos não-tripulados. Além disso, os canhões do F-16 têm-se mostrado úteis mesmo como uma arma de reserva para emprego em operações antidrogas e antiterrorismo contra aeronaves suicidas ou outras aeronaves que cruzam fronteiras ilegalmente.

Finalmente, o Dr. Mets faz uma afirmação um tanto cáustica sobre o ciclo de decisão OODA—observar, orientar decidir e agir—no pensamento estratégico, sustentando que nosso ciclo desenvolveu-se mais rápido do que o do inimigo no incidente do Mayaguez, em 1975, com resultados desastrosos (a realidade é que, naquela oportunidade, nosso inimigo parece ter-se antecipado ao nosso ciclo OODA e percebido que nossas exigências eram extremamente graves). O Dr. Mets também referencia como falha conceitual do OODA o incêndio de Washington, na Guerra de 1812, após uma declaração equivocada de guerra. Esses exemplos, entretanto, são analogias defeituosas. Ações precipitadas e reveses táticos são de fato fracassos em observar e orientar com precisão e não falhas do próprio ciclo OODA. As comunicações, por exemplo, constituem parte necessária de qualquer ação e os fracassos nessa área podem desvirtuar toda a orientação de combate de uma força. A grande vitória americana na Batalha de Nova Orleans, na Guerra de 1812, foi resultado de desnecessária maior rapidez no ciclo OODA britânico (a guerra já havia terminado) devido à lentidão das comunicações. O gênio tático de Andrew Jackson evidenciou que nossa orientação havia melhorado nos dois anos depois de os britânicos terem incendiado Washington. Uma força armada não pode ser demasiadamente dúbia ou precipitada sem conseqüências, mas pode sempre empregar o ciclo OODA para colocar-se em posição vantajosa para chegar à vitória. O ciclo, evidentemente, é uma ferramenta de apoio à decisão e, como tal, pode ser aplicado de modo equivocado. O importante é obter rapidamente um quadro preciso e claro antes do engajamento. Ao encerrar, meus cumprimentos pelo excelente artigo e pelos comentários que a ele se seguiram!

MSgt Gary W. Boyd, USAFR
McGuire AFB, New Jersey


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