Documento criado em  20 Dez 05
ASPJ  Em Português 1° Trimestre 2006


EDITORIAL


Levamos ao conhecimento de nossos leitores que foi recentemente implantada a versão em francês da Air & Space Power Journal, que terá como público-alvo as forças aéreas dos países francófonos.

Segue, como o fazemos todo trimestre, uma sinopse de cada um dos artigos que compõem o presente número.

Em "A Necessidade de Ciência e Tecnologia para o Combatente", o Dr. J. Douglas Beason, Coronel R/1 da USAF, e o Dr. Mark Lewis afirmam que o poder aéreo e espacial depende de alta tecnologia para que possa alcançar o êxito almejado e que, no decorrer dos anos, o investimento em Ciência e Tecnologia (C&T) tem produzido enormes dividendos. Acrescentam, contudo, tornar-se imperioso que a Força Aérea evite descansar sobre os louros por ela conquistados e continue investindo em C&T, tanto na área civil quanto na militar, já que a vantagem por ela desfrutada até o presente em termos de efetividade militar poderia estagnar-se ou, pior que isso, desaparecer por completo. Como exemplo disso, os autores sustentam que os avanços técnicos dos adversários poderão um dia negar a vantagem de que a Força Aérea desfruta na área de tecnologia stealth. Se isto vier a ocorrer, acreditam ser fundamental que esta Força esteja preparada com novas tecnologias como o vôo hipersônico e armas de energia dirigida.

Em "Para Onde Vão os Lasers de Alta Potência?", o Major General R/1 Donald L. Lamberson, USAF, o Coronel R/1 Edward Duff, USAF, o Dr. Don Washburn e o Tenente-Coronel Courtney Holmberg, USAF, referem-se a um evento específico—o emprego, por Arquimedes, de espelhos ustórios para queimar os qüinqüerremes romanos que se aproximavam de Siracusa, durante a Segunda Guerra Púnica—para mostrar que, independentemente de ser esse evento real ou apenas uma fábula, a atratividade e importância de uma capacidade semelhante persiste até os dias de hoje. Afirmam os autores que a pesquisa em lasers de alta potência para aplicações militares teve sua gênese no início da década de 60. Sustentam, ainda, que sistemas a laser instalados em plataformas aéreas poderiam destruir alvos inimigos, mas indagam: "será que nos aproximamos mais de disponibilizar essa capacidade revolucionária nova ao combatente?" Em seguida, discorrem sobre as dificuldades inerentes à introdução de novas tecnologias ao combatente, da importância de robustas demonstrações de tecnologia para sistemas de armas laser de alta potência e realçam duas áreas potencialmente fundamentais para a capacidade americana de combate com laser a longo prazo.

Em "Mergulhando na Lixeira Digital: a Internet e as informações de fontes ostensivas", o Tenente-Coronel David A. Umphress, (PhD), USAF, trata da questão da recolha legal de dados na Internet, dos esforços que a Força Aérea está despendendo para impedir a coleta de OSINT (inteligência de fontes ostensivas), de práticas atuais que tornam a Força Aérea suscetível a essa coleta e de possíveis contramedidas. A tecnologia da Internet, longe de ser um modismo passageiro, está profundamente arraigada em nossa cultura. O autor afirma existirem, na Força Aérea, políticas e práticas destinadas a reduzir ao mínimo o risco de exibir conteúdo sensível nos seus sites públicos da Web. Segundo ele, contudo, "continuam a existir duas vulnerabilidades: a coleta de OSINT em Websites que não estão sob controle da Força Aérea e a coleta, para fins de inteligência, de metadados disponibilizados colateralmente aos conteúdos". O Ten Cel Umphress acrescenta que a Internet propicia à Força Aérea um veículo de comunicação com o público e no âmbito da própria Força. Entretanto, qualquer informação que esta Força Singular vier a transmitir ao público também poderá, potencialmente, revelar uma vulnerabilidade militar. Conclui o artigo fazendo recomendações, tanto de curto quanto de longo prazo, com vistas a minimizar a suscetibilidade da Força Aérea a essas vulnerabilidades.

O Tenente-Coronel Paul D. Berg, por meio de seu artigo "Experiência, Paradigmas e Capacidade de Ação dos Generais na Rolling Thunder: implicações para a atualidade", analisa o desempenho dos oficiais-generais da Força Aérea dos EUA que participaram da campanha Rolling Thunder durante o conflito no Sudeste Asiático. Alguns especialistas sustentam que os generais que travaram a Guerra do Vietnã aplicaram equivocadamente a doutrina de bombardeio da época da 2ª Guerra Mundial contra um país não-industrializado. Mas as próprias palavras de alguns desses generais, três dos quais—General John P. McConnell, General William W. Momyer e Major General Gilbert L. Meyers—são utilizados pelo autor para fins de exemplo, servem para reafirmar que eles estavam agudamente cientes do fato de que o Vietnã e a Alemanha eram dois países com metas políticas e tecnologias diferentes. Se bem que esses líderes integrassem uma comunidade de praticantes que possuíam um modelo de doutrina do poder aéreo baseado na experiência, eles não eram escravos dessa doutrina. O Ten Cel Berg salienta ser preciso que os líderes de hoje decidam como melhor aplicar experiências vivenciadas a situações novas. Finaliza o artigo afirmando que "os generais da USAF, da Rolling Thunder até hoje, aplicaram suas próprias experiências e a doutrina existente, mas não se deixaram cegar por paradigmas baseados na Segunda Guerra Mundial ou em qualquer outra guerra ou conflito em que tenhamos tido êxito". Sua leitura certamente será apreciada por historiadores e outros leitores que se dedicam ao estudo do conflito no Sudeste Asiático.

Em "Um Evangelho Falso da Estratégia do Poder Aéreo? visão recente de O Domínio do Ar, de Giulio Douhet", Michael D. Pixley retoma criticamente o pensamento do teórico da aeronáutica Giulio Douhet, para mostrar que seu escopo e ambição eram originalmente mais restritos do que pretenderam seus seguidores e intérpretes. Em sua análise, contrapõe, por um lado, o racionalismo matemático de Douhet à visão mais pragmática de Clausewitz e, por outro lado, às posições racionalistas menos extremadas do Barão de Jomini. Pixley mostra que o determinismo tecnológico em que Douhet acreditava, rejeitado por Jomini, é de natureza não-histórica e invalida qualquer pretensão à imutabilidade da estratégia Nesse sentido, confronta a estrutura lógica das visões de Douhet e Jomini para sustentar o caráter inconsistente da primeira. Ao final, Pixley analisa a influência de Douhet no pensamento militar americano, concluindo que "na teoria do poder aéreo americano, ela substituiu silenciosamente as filosofias mais consistentes de Clausewitz e Jomini". Trata-se de um artigo denso e rigoroso que certamente deleitará os leitores que apreciem as discussões rigorosas sobre questões sutis.

Em "Democracia no Iraque", o Coronel R/1 Stephen Schwalbe, USAF, lança mão da filosofia política para analisar a possibilidade de instalar-se uma democracia estável no Iraque, capaz de influenciar o quadro ideológico preponderante no Oriente Médio. A partir de uma resenha sumária, mas muito bem estruturada, a respeito da possível compatibilidade do Islã com a democracia, citando autores muçulmanos e não-muçulmanos que admitem ou recusam essa compatibilidade, a tônica do artigo é a análise das relações entre liberalismo e democracia. A discussão desenvolvida pelo Cel Schwalbe evidencia que o conceito de democracia pode ser substancialmente diferente quando informado por contextos culturais tão diversos quanto os dos Estados Unidos e dos países árabes do Oriente Médio. Utilizando-se do conceito de "democracia não-liberal", de Fareed Zakaria, o Cel Schwalbe faz uma análise realística das circunstâncias iraquianas para reconhecer que, nelas, um governo forte com regras políticas formalmente democráticas seria provavelmente mais estável do que uma democracia liberal clássica. O artigo tem rigor teórico, é bastante abrangente, analisando múltiplas facetas da implantação e da sobrevivência de um regime democrático, mas não é apenas um texto com pretensões acadêmicas. Ao contrário, volta-se para um problema concreto e prático, representando um subsídio que poderia ser bastante útil aos que determinam a política exterior dos Estados Unidos. Pela complexidade do tema, desenvolvido com competência, é difícil fazer justiça, em um comentário resumido, à riqueza e propriedade das análises do Cel Schwalbe.

O Maj Av Marco Antonio Cuin e o Ten Av Alexandre Pereira Reynaldo, ambos da Força Aérea Brasileira (FAB), iniciam seu artigo "Aviadoras na Força Aérea Brasileira" propiciando ao leitor uma sucinta narrativa da história da FAB, desde 1941, ano de sua criação, até 1971, quando da mudança, em caráter definitivo, da Academia da Força Aérea (AFA) para a cidade de Pirassununga, no interior do Estado de São Paulo. Após isso, focalizam um evento—ocorrido em 2003— que se revestiu de grande importância histórica para a FAB e o Brasil: a abertura de 20 vagas para o segmento feminino no quadro de aviação. Mostram, a seguir, como esse novo componente tem-se adaptado às rigorosas exigências de natureza acadêmica e militar impostas pelo currículo da AFA. Segundo os autores, o desempenho das cadetes aviadoras coloca-se pari passu com o de seus homólogos masculinos, demonstrando os atributos necessários ao êxito como aviadoras militares.

Em "O Futuro: petróleo, Estados Unidos e a Força Aérea", o Coronel Richard Fullerton, da USAF, debruça-se sobre o tema atual e relevante de qual será o futuro da Força Aérea dos EUA no que se refere à energia. Citando seis frases que muitos usam amiúde para descrever o que pensam sobre a situação do petróleo, o Cel Fullerton as discute, uma a uma, tomando por base a pesquisa que realizou para a elaboração do artigo. Uma das conclusões a que chega o autor é que "ao longo do futuro previsível, o petróleo continuará a ser uma fonte de energia primordial". Acrescenta que futuramente, à medida que aumentarem os preços e a volatilidade do suprimento, dar-se-á ênfase ainda maior à pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias e fontes alternativas. Segundo o autor, algumas dessas tecnologias só passarão a ser utilizadas em larga escala quando se tornarem economicamente viáveis. Como resultado, afirma que "a transição para novas fontes de energia se fará de maneira evolutiva, em vez de revolucionária".

Como se percebe, o conjunto de artigos deste número da Air & Space Power em Português atende ao objetivo da revista de informar seu público leitor acerca de temas estrategicamente relevantes da atualidade mediante análises substanciosas e dotadas de rigor. Acreditamos que nossos leitores serão por elas estimulados à reflexão, o que é, em última análise, a razão de ser de nosso periódico.

ABL


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