Documento criado em 20 Dez 05
ASPJ Em
Português 1° Trimestre 2006
Coronel R/1 Stephen Schwalbe, USAF
A nação iraquiana—com a herança de que se orgulha, recursos abundantes e povo primorosamente educado—é plenamente capaz de caminhar para a democracia e viver em liberdade . . . O êxito também pode iniciar uma nova fase de paz no Oriente Médio . . .
Presidente George W. Bush1
Nesta declaração, o Presidente Bush referiu-se a uma nova teoria de dominó democrático como uma das razões de natureza filosófica pelas quais os Estados Unidos desencadearam a Operação Iraqi Freedom (OIF), em março de 2003. Como não há democracias liberais árabes de qualquer espécie no Oriente Médio de hoje, a administração Bush imaginou que uma implementação bem-sucedida da democracia no Iraque (a que o Presidente Bush se refere freqüentemente como liberdade") espalharia a democracia liberal pelo mundo árabe. Este objetivo de política externa está claramente enunciado na Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América (NSS), de 2002:
Buscamos criar um equilíbrio de poder que favoreça a liberdade humana: as condições para que todas as nações e todas as sociedades possam escolher por si próprias as recompensas e os desafios da liberdade econômica e política.
Trabalharemos ativamente para levar a todos os cantos do mundo a esperança da democracia, do desenvolvimento, do mercado e do comércio livres.
Os Estados Unidos devem adotar com firmeza a postura de não negociar a exigência da dignidade humana, do império da lei, dos limites ao Poder Absoluto do Estado, da liberdade de expressão, da liberdade de culto, da justiça igual para todos, do respeito às mulheres, da tolerância étnica e religiosa e do respeito à propriedade privada.
Incorporando as lições do nosso passado e utilizando-se das oportunidades que hoje temos, a estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos precisa partir desses valores centrais e olhar para o exterior, para as possibilidades de expansão da liberdade.2
Grande parte dessa citação resume os valores liberais dos Estados Unidos que se abrigam em nossos documentos fundadores: a Declaração de Independência e a Constituição. A premissa subjacente à NSS é a de que a democracia liberal não pode florescer onde não existe uma cultura liberal sobre a qual construir. Em relação ao Iraque, parece que a administração Bush tem intenção de implementar uma democracia liberal sem primeiro assegurar-se de que o liberalismo exista na cultura iraquiana.
A questão torna-se, então, saber se o povo iraquiano tem potencial para assimilar a democracia liberal. Em 2002, Moataz Fattah levou a efeito uma análise estatística do primeiro levantamento em grande escala da literatura muçulmana (22 países muçulmanos). Concluiu que "a maior parte das sociedades muçulmanas não prefere a autocracia à democracia" e "nada existe nos dados atuais que mostre que os iraquianos sejam excepcionalmente antidemocráticos".3 Além disso, o repórter Greg Miller, do
Los Angeles Times, observa que "o Iraque é considerado por alguns, por causa de sua riqueza e população educada, como detendo um potencial para a democracia maior do que o de muitos de seus vizinhos".4 Considerando-se que o Iraque tem um potencial econômico gigantesco, com a segunda maior reserva de petróleo do mundo, e que o povo iraquiano, no passado, esteve entre os mais educados do mundo árabe, este artigo vai explorar a ideologia do liberalismo como fundamental para o êxito no estabelecimento da democracia no Iraque. Quais os prospectos de a democracia ter êxito no Iraque em face das três décadas de liberalismo durante o mandato britânico? Creio que a resposta é que é possível, mas provavelmente não pela forma concebida pela administração Bush. Pretendo mostrar que o máximo que o Presidente Bush pode esperar em troca de bilhões de dólares e das vidas de milhares de militares investidos na OIF será uma "democracia não-liberal".Nesta seção, discutirei a caracterização do liberalismo e da democracia liberal antes de examinar as pré-condições requeridas para que uma sociedade assimile com êxito a democracia liberal. Barry Loberfeld define os princípios do liberalismo como "precedência do indivíduo, distinção entre sociedade civil e Estado, direito natural e direitos naturais, igualdade política e limitação dos poderes do governo e propriedade privada e livre-empresa".5 Ele observa que, de alguma forma, esses princípios existiram em sociedades desde há milhares de anos. Nancy Rosenblum define o liberalismo como teoria da limitação de poderes do governo, com o fim de garantir a liberdade pessoal. Para minimizar a arbitrariedade, o governo cujos poderes são limitados precisa ser constitucional, abrigar a separação de poderes, adotar o império da lei e incorporar "direitos civis exigíveis, para assegurar a liberdade das pessoas e dos grupos minoritários". (Os direitos civis mencionados incluem liberdade de religião, de expressão, de associação, propriedade privada, liberdade de ir e vir, o direito ao processo legal e o direito de voto.) Ela observa que, na origem, o liberalismo foi uma doutrina revolucionária destinada a legitimar a resistência aos governos arbitrários. Kenneth Minogue diz que os benefícios trazidos a uma sociedade que adota o liberalismo como ideologia incluem a prosperidade econômica, a estabilidade política e o potencial para o adiantamento.6
Fareed Zakaria define liberalismo
constitucional, em um contexto histórico, da seguinte maneira:É liberal porque deriva da corrente filosófica iniciada pelos gregos que enfatiza a liberdade individual. É constitucional porque se apóia na tradição do império da lei, iniciada pelos romanos. O liberalismo constitucional desenvolveu-se na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, em defesa do direito individual à vida e à propriedade e à liberdade de crença e de expressão.7
A conclusão de Zakaria é que, embora o liberalismo constitucional tenha conduzido à democracia, a democracia não parece acarretar o liberalismo constitucional. "No mundo islâmico, da Autoridade Palestina ao Paquistão, passando pelo Irã, a democratização conduziu a um papel crescente da política teocrática, erodindo vetustas tradições de secularismo e tolerância".8 Por isso, ele insiste em que o liberalismo constitucional seja pré-condição essencial da democracia. Afirma: "sem uma base de liberalismo constitucional, a introdução da democracia em sociedades divididas [como a do Iraque] na verdade tem fomentado o nacionalismo, o conflito étnico e até a guerra".9 Podem-se encontrar exemplos disso no Sudeste da Ásia, em países como a Indonésia e a Malásia.
Patrick Basham está de acordo com as idéias de Zakaria, e as leva adiante observando que "os chamados elementos constitutivos da cultura política democrática moderna não são de natureza institucional. . . . Ao contrário, os elementos constitutivos da democracia são valores culturais que a apóiam". Ele menciona os quatro fatores culturais que dão apoio a um sistema político democrático estável: 1) confiança política; 2) tolerância social; 3) reconhecimento da importância das liberdades políticas básicas, como liberdade de expressão e participação popular na tomada de decisões; e 4) apoio popular à igualdade entre os sexos.10
Seymour Martin Lipset tem um agudo descortino em relação às condições em que uma sociedade assimila e sustenta a democracia. Uma das mais importantes observações que ele faz é: "virtualmente em toda parte em que a democracia foi institucionalizada, o processo foi gradual".11 Só nos Estados Unidos, levou quase 200 anos para que se desenvolvesse a democracia liberal como a definimos hoje.
Seymour Martin Lipset apóia a observação de Greg Miller de que, por si sós, a riqueza e a educação conduzem a sociedades democráticas. Menciona pesquisas estatísticas que demonstram que: "melhorias no padrão de vida estão associadas à expansão da democracia".12 Toma por exemplo a Europa, observando que "a renda nacional tem uma correlação estatisticamente significativa com a democracia, na Europa. Até 1960, exibiu-se claramente, no Continente, entre as nações ocidentais, a correlação entre riqueza e democracia e, desde então, o mesmo se revelou entre Ocidente e Oriente".13 É bem conhecida sua descoberta de que quanto mais rica uma nação, maiores as chances de que sustente uma democracia. Basham confirma esta hipótese, afirmando que: "um padrão de vida superior cria valores culturais que exigem maior grau de democracia. À medida que se transformam os valores culturais da pessoa, essas alterações afetam o comportamento político dessa pessoa, produzindo níveis mais elevados e mais estáveis de democracia".14 Segundo Lipset, um padrão de vida mais elevado tende a legitimar as instituições democráticas, e a legitimidade é o fundamento da democracia.15 Adam Przeworski e colegas levaram a efeito um estudo da democratização entre 1950 e 1990, e descobriram que nenhum país democrático com renda per-capita acima de US$8,733 (em dólares do ano 2000) passou por uma perda de democracia.16
Seymour Martin Lipset também observa que "os níveis de educação, embora correlatos à renda, associam-se à democracia de maneira independente. . . . A cada ano adicional de escolaridade, a pontuação de liberdade, pela sistemática da Freedom House, eleva-se em espetaculares 6,6 pontos percentuais".17 Portanto, à medida que as nações têm maior êxito econômico, seus sistemas educacionais tendem a aperfeiçoar-se. Melhorando tanto a riqueza do país quanto sua educação, maiores as possibilidades de que os cidadãos, primordialmente da classe média, aceitem os preceitos do liberalismo e, em seguida, o conceito de governo democrático. (É claro que no Oriente Médio esta educação teria de ser secular, já que as maddrassas, escolas religiosas usadas por alguns governos islâmicos para propósitos políticos, têm-se revelado locais em que se ensina a intolerância e a violência.)
Do ponto de vista histórico, Lipset sustenta que "há maior correlação entre a democracia e a condição anterior de colônia britânica do que com outras variáveis estruturais. . . . Portanto, a democratização poderia ocorrer de maneira mais gradual e com maior êxito nas áreas que foram britânicas do que em outras partes . . . ".18 (Deve-se notar aqui que o Iraque esteve sob mandato britânico de 1922-1959, época em que foi estabelecido um governo parlamentar conforme uma constituição, exercia-se o voto secreto com pluralidade de partidos e existia uma mídia agressiva e sem censura.)
Finalmente, no que se refere ao impacto da etnia de um país sobre a democracia, Lipset, junto com Larry Diamond e Juan Linz, acha que ela representa o tipo de clivagem mais difícil de ser administrado por uma democracia: "em virtude de absorver a etnia questões simbólicas e culturais . . . os conflitos por ela gerados são intrinsecamente menos suscetíveis de serem levados a um meio termo do que os conflitos que giram em torno de questões materiais e funcionais. . . . Em casos extremos, grupos de diferentes nacionalidades podem não se identificar de nenhum modo com o Estado".19 Como parte significativa da etnia, a religião tem sido fator fundamental para a natureza do governo dos países. Lipset conclui que "historicamente, a democracia não se adaptou bem a países dominados pelo catolicismo, pelo cristianismo ortodoxo, pelo islã e pelo confucionismo; em sentido oposto, o protestantismo e a democracia se têm associado de maneira positiva". O protestantismo põe mais ênfase no indivíduo do que o fazem outras religiões, enquanto as outras têm laços mais íntimos entre a religião e o Estado.20
Depois de termos feito uma breve revisão do liberalismo, será que ele é aplicável ao islã? Dependendo de suas hipóteses e perspectivas, a opinião dos estudiosos varia. Primeiro, discutirei os estudiosos que consideram o liberalismo compatível com o islã; depois, discutirei os que não acham que ambos sejam compatíveis.
A enorme maioria dos estudiosos que defendem ser o islã compatível com o liberalismo são árabes ou muçulmanos. Em entrevista à
Deutsche Welle, o Príncipe Aga Khan IV, imame hereditário dos muçulmanos xiitas ismaelitas, disse ao repórter: "não vejo conflito entre islã e democracia . . . porque a idéia de pluralismo está fortemente arraigada no islã".21 O senador egípcio Osama Harb conclui que: "para que tenha êxito uma reforma induzida do interior, ela precisa estar em harmonia com o contexto cultural e civilizacional. Para o mundo árabe e islâmico, isto significa que é preciso refutar a idéia equivocada de que haja contradição entre islã e democracia".22Ahmed Mansour, do National Endowment for Democracy, observa que o Alcorão aceita muitos valores do liberalismo: "O Alcorão relembra 5 direitos que todos têm: o direito à justiça, o direito à liberdade de crença e expressão; o direito à propriedade, o direito à segurança e o direito ao poder. É este direito ao poder que se relaciona com as concepções modernas de democracia".23 Termina por explicar que o Profeta Maomé estimulava seus seguidores a governarem-se, razão por que ele não indicou um sucessor. Após sua morte, os xiitas mudaram este aspecto do seu legado, diminuindo, deste modo, o potencial de liberalismo e democracia dentro do islã.
Mohammad Farooq considera não apenas que a democracia é compatível com o islã, mas que os conceitos subjacentes ao liberalismo são essenciais a esta religião. Menciona três aspectos centrais do islã, como governo constitucional, sistema político participativo e responsabilidade diante de Deus. O governo islâmico é essencialmente um governo constitucional, sendo o Alcorão a fonte da constituição. O sistema político islâmico é participativo, no que diz respeito ao procedimento islâmico de
shura (consulta recíproca). Finalmente, todos os muçulmanos são responsáveis diante de Alá (mas não neste mundo). Contudo, embora Alá seja o soberano definitivo, "ele concedeu certo nível de liberdade e responsabilidade aos seres humanos. . . . Ele abençoou a humanidade com revelações e com sua orientação essencial". No islã, este sistema de governo democrático é conhecido como khilafat, uma idéia de que a soberania é de Alá, sendo seus seguidores os seus representantes. O que distingue a democracia islâmica da democracia ocidental é que esta última baseia-se na idéia da democracia popular, enquanto a primeira apóia-se no princípio do khilafat.24Ali Abootalebi escreve que o islã não é mais intrinsecamente antidemocrático do que o judaísmo ou o cristianismo. Ele acredita que o problema é a concepção equivocada dos ocidentais a respeito do islã, oriunda de uma longa história de mútua desconfiança, crítica e condenação.25 Com efeito, a maior parte dos países com os maiores números de muçulmanos como a Indonésia (240 milhões), a Índia (121 milhões) e a Turquia (70 milhões) têm mentalidade liberal e dão sinais de crescente liberalismo e democracia [observe-se, contudo, que nenhum desses países pertence ao mundo árabe].
Maulana Khan, Presidente do Centro Islâmico, na Caxemira, explica que: "no islã, o conceito de democracia pratica-se em dois níveis—o nível individual
Infaradi e o nível coletivo Islamayee. No nível individual, a pessoa é livre para adotar o modo de culto que lhe agrade . . . no nível coletivo, porém, é preciso dar preferência à voz do povo".26 É o islã Islamayee que adota a democracia como conceito social.Contudo, há alguns estudiosos que, não sendo árabes nem muçulmanos, também acreditam que o liberalismo seja compatível com o islã. Em 2004, Brent Talbot levou a efeito um estudo, na Academia da Força Aérea dos Estados Unidos, em relação à democracia no Iraque. Examinando o Alcorão e seu apoio aos conceitos liberais democráticos, ele declara:
O Alcorão abriga as idéias de
shura (consulta) e maslah (interesse público). Historicamente, a um líder tribal árabe tradicional não era permitido governar de maneira arbitrária; o costume é que ele consultasse o majlis (conselho tribal). Isto significa que, na teoria, o governante era responsável perante o conselho tribal e, na verdade, a escolha de um novo líder tribal estava sujeita à aprovação do conselho. Seu cargo não era necessariamente hereditário. Isto indica que um sistema de contenção do tipo democrático existia antigamente nas tribos beduínas árabes e era considerado em concordância com os preceitos corânicos. Assim, mesmo sem uma fórmula específica, o Alcorão dá respaldo a um método de governo democraticamente organizado, ou até chega a sugeri-lo.27Graham Fuller, funcionário de carreira do serviço diplomático do Departamento de Estado, observa que: "se os democrata-cristãos podem fazê-lo, em princípio não há razões pelas quais os islâmicos não possam. . . . Os valores democráticos estão latentes no pensamento islâmico. . .".28 Por outro lado, há numerosos estudiosos que não são árabes ou muçulmanos e que não crêem que o islã tenha qualquer coisa em comum com o liberalismo ou a democracia. A analista política Selwa Calderbank, de Londres, analisou a atitude da administração Bush, que supõe nada haver no islã que o torne incompatível com a democracia. Ela afirma que muitos estudiosos baseiam-se na hipótese falsa de que os islâmicos moderados do Oriente Médio adotem a mesma noção de democracia que vige no Ocidente. Ela observa que "muitos islâmicos rejeitam diversos aspectos da modernização como formas de imperialismo ocidental e ameaças aos valores tradicionais. . . . Se a democracia significa a sustentação de ‘direitos humanos’ definidos à maneira ocidental e adotar a economia de mercado livre, a maior parte dos islâmicos de nenhum modo constitui-se em democratas . . .".29
Samuel P. Huntington, conhecido por sua pesquisa a respeito de civilizações e culturas, diz que o Credo Americano consiste em liberdade, igualdade, democracia, direitos civis, ausência de discriminação e império da lei (todos, aspectos do liberalismo). Ele procura demonstrar que o Credo Americano fundamenta-se na cultura anglo-protestante.30 Ele declara o século XXI como início de uma era de religião e sustenta que, nessa era, são significativas as duas grandes religiões missionárias: islã e cristianismo. Afirma que essas duas religiões destinam-se a entrar em conflito. "Os militantes islâmicos, tanto religiosos quanto seculares, certamente vêem os Estados Unidos, seu povo, sua religião e sua civilização como inimigos do islã. . . .31 Em conseqüência, Huntington não acredita que o liberalismo seja compatível com o islã.
Joshua Parens concentra-se na tolerância, que não fica evidente no que ele descreve como "religiões reveladas", o judaísmo, o cristianismo e o islã, como aspecto fundamental do liberalismo. "Em suas formas tradicionais, as religiões reveladas são intolerantes. O liberalismo exige que todos os seus cidadãos evitem a intolerância".32 Das três religiões monoteístas, apenas o islã mantém a forma tradicional, e a imensa maioria dos muçulmanos é fundamentalista. Embora o islã determine tolerância para com os seguidores do Livro (isto é, judeus e cristãos), não permite tolerância para com aqueles que não seguem a orientação de Alá.
Daniel Pipes, historiador e diretor do Fórum do Oriente Médio, indica que de todas as religiões importantes o islã é a única em que, na interpretação das escrituras sagradas (neste caso o Alcorão), a interpretação da imensa maioria é literal.33 Assim sendo, os muçulmanos moderados com inclinações ocidentais são verdadeiramente minoria. Muitos, no Ocidente, indagam onde está a maioria de muçulmanos moderados no Oriente Médio. A resposta de Pipes é que eles não são maioria e que podem ter medo de manifestar-se por receio de represálias dos extremistas.
Martin Kramer tratou dessas questões mais diretamente, afirmando que o fundamento do islã não é compatível com a democracia liberal. Ele diz que:
a democracia é irrelevante para o islã e que o islã é superior à democracia. Vendo deste modo, a falha fatal da democracia é que ela se apóia na soberania do povo. No islã, Deus é soberano, e Sua vontade está expressa na
sharia, a lei do islã revelada por Deus. A democracia, que coloca a prerrogativa de legislar nas mãos do povo, é a própria essência do governo arbitrário.34Em geral, qualquer tentativa de definir um liberalismo islâmico exige a atribuição de idéias formuladas em uma moldura cultural cristã. Se não bastasse esse desafio, a educação no Oriente Médio usualmente não é secular. O Alcorão e seus preceitos acerca de como viver são ensinados às crianças muçulmanas no mundo árabe. Assim sendo, é mais difícil que os conceitos liberais ganhem raízes.
Em conclusão, é claramente discutível a questão de saber se o liberalismo tem qualquer compatibilidade com o islã. Contudo, há umas poucas nações muçulmanas que exibem características do liberalismo e da democracia, como a Turquia e a Indonésia. A diferença está na evolução do liberalismo dentro de uma sociedade. A assimilação dos valores liberais pode ser atribuída, em certa medida, à orientação religiosa do povo. Como indica Huntington, parece que o liberalismo floresceu com o protestantismo, enquanto feneceu no islã. Contudo, é verdade que o islã é fonte de valores e de direito, não de poder político. Um governo islâmico pode parecer um exemplo de democracia no qual a sharia representa a vontade do povo, sendo os políticos governantes eleitos e passíveis de serem responsabilizados no ato de implementá-la.
A meta da administração Bush é implementar à força a democracia liberal no Iraque, para espalhar a democracia (e a liberdade que ela dá ao povo) por toda a região. O Oriente Médio árabe é a única região do mundo que não tem pelo menos um ou dois governos democráticos. Zev Chafets, do
New York Daily News, conclui que "há 22 Estados-membros na Liga Árabe, e nenhum deles é democrático, nem remotamente".35 Considerando-se que raramente as democracias entram em guerra uma com a outra,36 o Presidente Bush declarou que é interesse de segurança nacional dos Estados Unidos e seus aliados que a democracia seja, tanto quanto possível, difundida pelo mundo. Os comentários do Presidente implicam que não haja regiões, culturas ou até civilizações nas quais o liberalismo não possa ser assimilado e a democracia, difundida. O Presidente Bush gosta de citar os exemplos do Japão e da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial como indícios de que é possível alcançar esse objetivo. Disse ele: "Houve época em que muitos afirmavam que as culturas do Japão e da Alemanha eram incapazes de sustentar valores democráticos. Bem, eles estavam errados. Alguns dizem o mesmo do Iraque de hoje. Eles estão equivocados".37 Com a Operação Iraqi Freedom, os Estados Unidos afastaram Saddam Hussein do poder político e, agora, estão tentando implementar a democracia no Iraque.Contudo, como percebeu Zakaria, uma nação necessita algum liberalismo para que a democracia se implante com êxito. Examinando os mais de 6.000 anos da história do Iraque em busca de indícios de liberalismo sobre o qual a democracia se pudesse estabelecer, encontra-se parca evidência dele. Na verdade, o Iraque jamais foi verdadeiramente um Estado-nação soberano até o século XX. Adeed Dawisha indica que muitas civilizações antigas habitaram a Mesopotâmia (nome antigo do Iraque), inclusive sumérios, babilônios, assírios e caldeus. A atual civilização é a islâmica, que conquistou o Iraque em 636 AD. Em 1921, com a aprovação do Reino Unido e Liga das Nações, o Emir Faisal ibn Hussein, muçulmano do clã Hashemita, foi proclamado rei do Iraque. O Iraque manteve-se como monarquia por 37 anos, até que um golpe militar liderado pelo partido Baath derrubou o governo e assassinou o rei Faisal, em 1958.38
Há ainda muitas pessoas que acreditam que o Iraque pode ser um Estado, mas não é verdadeiramente uma nação legítima, capaz de características nacionais, como o liberalismo e a democracia. Martin Peretz declara que "a desagradável verdade é que o Iraque jamais foi nem é uma nação ou um Estado-nação".39 John Esposito também observa a influência das potências coloniais na região, afirmando que:
a maior parte dos Estados muçulmanos modernos, como muitos Estados em desenvolvimento, têm o desenho de suas fronteiras determinado artificialmente pelas potências coloniais, que atendiam a seus próprios interesses estratégicos quando desenharam essas fronteiras, ao partirem. . . . A maioria dos países muçulmanos ou árabes continuam a ter sérios problemas de autoritarismo e legitimidade e, portanto, valem-se pesadamente de suas forças de segurança. Nesta espécie de contexto, não é uma questão de religião ou cultura o que impede a democratização, é a história do autoritarismo. . . .40
Embora as atuais fronteiras, rompendo limites tribais, étnicos e civilizacionais, não pareçam fazer sentido retrospectivamente para muitas pessoas, faziam o maior sentido para as potências coloniais, que queriam garantir que nenhuma de suas antigas colônias se desenvolvesse o suficiente para representar uma ameaça no futuro. Durante o prolongado domínio do Império Romano (mais de 400 anos), a região que hoje é o Iraque representava, na verdade, 3 províncias distintas: Mossul (onde vivem os curdos), Bagdá (onde vivem judeus, cristãos e muçulmanos sunitas) e Basra (onde vivem os muçulmanos xiitas).
Para que a democracia tenha qualquer possibilidade de sucesso, isto significa implantar-se algum mecanismo que permita um equilíbrio de poder entre os 3 principais grupos étnicos do Iraque. Os árabes xiitas constituem cerca de 60 por cento da população iraquiana; os árabes sunitas representam cerca de 20 por cento e os curdos sunitas, cerca de 15 por cento. Basham adverte que "as novas instituições políticas do Iraque precisam ser planejadas de maneira a impedir que a Shia fundamentalista, por muitos anos suprimida, primeiro vá à forra, vingando-se da minoria de árabes sunitas, e, segundo, ignore as legítimas necessidades dos curdos, turcomanos, cristãos assírios, secularistas urbanos e outros".41
Foi durante os 37 anos de domínio e presença militar britânicos que o liberalismo pode ter sido semeado com êxito na sociedade muçulmana do Iraque. Embora o país fosse difícil de governar durante esse período, por sua natureza tribal e variadas facções religiosas e étnicas, tinha um sistema político composto por uma constituição, uma Câmara de Deputados eleita, 5 partidos políticos e uma imprensa independente (em 1957, havia 14 jornais publicados em Bagdá, 5 em Mossul e 4 em Basra). Dawisha observa que "freqüentemente, os debates no Parlamento eram vigorosos e geralmente permitia-se que os legisladores questionassem e votassem contra o governo, sem receio de represálias. . . . Era freqüente que o Parlamento conseguisse influenciar a política."42 Mesmo sob o governo do Partido Baath houve certo número de jornais e revistas que, nos anos de 1960, reivindicavam democracia e liberdade de expressão.43 Entretanto, discutindo quanto dessas instituições democráticas impostas foram realmente assimiladas pelos iraquianos, Phebe Marr diz que "a constituição não conseguiu criar raízes, contudo, em parte porque uma real responsabilidade pelo governo jamais foi dada aos iraquianos e, em parte, porque eles chegaram a vê-la como instrumento de manipulação e controle por parte de estrangeiros. Em conseqüência, as elites iraquianas concentraram suas energias . . . em afastar a indesejada influência britânica."44
Embora população educada e riqueza nacional sejam fatores fundamentais para a assimilação das idéias do liberalismo, dois outros fatores são essenciais ao êxito na implementação da democracia. O primeiro é uma classe média estável. Segundo Dawisha, "como concordam quase todos os teóricos da política, uma classe média plenamente desenvolvida é essencial para uma democracia efetiva e sustentável. Felizmente, mesmo após 12 anos de sanções econômicas debilitadoras, continuou a existir no Iraque uma classe média substancial e altamente educada." O segundo fator é a natureza do governo. Dawisha defende a implementação de um governo federal, de modo que as diversas facções étnicas e sectárias possam servir de freios e contrapesos no poder de umas sobre as outras. "A verdade é que todo esse antagonismo poderia servir a um propósito construtivo: fazer com que as facções barrassem, fervorosamente, o poder das outras poderia, na verdade, promover a democracia à custa de um rígido paroquialismo comunal."45
Se o povo iraquiano assimilou ou não liberalismo suficiente para permitir a implementação de uma democracia exteriorizada não está, certamente, perfeitamente claro. O melhor que alguém pode dizer é que é possível. Kevin Whitelaw relata que muitos chefes tribais iraquianos estão falando de "libertação", em vez de "ocupação" pelos Estados Unidos, e que estão entusiasmados quanto a seu futuro democrático, enquanto provier das tradições iraquianas, não das americanas. O que os Estados Unidos estão ensinando a esses líderes tribais é que a democracia exige
acordos para chegar-se a um meio termo [compromise].46Contudo, provavelmente não haverá muitos membros das tribos, clãs ou grupos étnicos que, em futuro previsível, sejam capazes de votar a favor de qualquer um que não seja um deles. Basham explica que a maior parte dos iraquianos considera o nepotismo político um dever moral, em vez de um problema para a vida civil. Laços de família extremamente fortes também podem revelar-se um obstáculo significativo à democracia liberal."47 Segundo Jeffrey Record e Andrew Terrill, "democracia significa coisas diversas para diferentes comunidades no Iraque. . . . Não está claro se a liderança xiita compreende ou aceita as idéias de direitos das minorias, império da lei e outros princípios democráticos que não têm relação com o governo da maioria".48
A confiança entre as facções nacionais é outro fator fundamental para estabelecer-se uma democracia funcional. Segundo Daniel Benjamin e Steven Simon, em seu
best-seller intitulado The Age of Sacred Terror, "cada partido tem que convencer o outro de que serão obedecidas as regras do jogo democrático. Os membros do regime precisam convencer a oposição de que podem manter sob controle os linhas-duras do exército e dos serviços de segurança, e a oposição precisa mostrar que pode conter seus radicais. . . . A construção dessa confiança é um processo incerto e extremamente lento".49 No Oriente Médio e, em particular, no Iraque, este processo verdadeiramente jamais começou. Regimes militares como o de Saddam Hussein, no Iraque, conquistaram, da Inglaterra, a independência e usualmente sustentaram que a continuação de seu monopólio de poder era necessária para preservar a segurança interna e externa. Também, a confiança entre os governantes e o povo não se estabeleceu, porque os regimes autoritários desses países ricos em petróleo não dependiam dos cidadãos para obterem recursos. "Nas democracias, não há impostos sem representação; nesses Estados, não havia impostos e, portanto, não havia representação." Finalmente, é difícil a confiança entre as diversas facções do islã porque cada uma crê que tem ao seu favor a autoridade de Alá, que é inegociável.50Há muitos outros fatores que estão atualmente em jogo contra a implementação bem-sucedida da democracia no Iraque ou na região, mesmo que haja certa dose de liberalismo na população muçulmana moderada. Greg Miller escreveu um artigo no
Los Angeles Times acerca de um relatório confidencial do Departamento de Estado a respeito disso. O relatório do Departamento de Estado é extremamente cético quanto aos resultados dos esforços da administração Bush. Menciona que elevados níveis de corrupção e crime, grave degradação da infra-estrutura, superpopulação e outras forças provocaram uma generalizada paralisia político-partidária no povo da região. O relatório não trata da crescente hostilidade da maioria dos iraquianos em relação às forças militares estrangeiras (inclusive americanas e britânicas) que, para eles, estão ocupando o seu país. O relatório, cujo título é "Iraq, the Middle East, and Change: No Dominoes," [O Iraque, o Oriente Médio e a Mudança: Não há Efeito Dominó] conclui que a teoria do dominó para a democracia não é digna de credibilidade no Oriente Médio.51Antes que algum modo de democracia possa ser implementado, é preciso que haja, primeiro, estabilidade e segurança no Iraque. Record e Terrill observam que "o êxito político no Iraque exigirá a criação de: 1) um governo considerado legítimo pela grande maioria dos habitantes do país e 2) forças de segurança capazes de proteger a nova ordem política".52 O Iraque não precisa apenas de força militar para proteger as fronteiras; precisa de uma força policial competente e infra-estrutura para torná-la efetiva, o que inclui juízes que não sejam corruptos, tribunais e prisões. Daniel Byman resume este problema declarando: "são assustadores os desafios a serem enfrentados pelo novo governo iraquiano. Precisa reconstruir uma economia arrasada, estabelecer o império da lei após décadas de tirania e atender à miríade de problemas comunais do Iraque, tudo isso enquanto combate uma insurreição e garante as fronteiras iraquianas, com uma vizinhança perigosa".53
Ahmed Hashim passou diversos meses no Iraque, voltando em abril de 2004. Ele encontrou um "Iraque assolado pela guerra de resistência por parte de pessoas leais ao antigo regime, rebeliões organizadas por iraquianos descontentes, terrorismo de extremistas islâmicos nacionais e estrangeiros e uma onde de crimes de quadrilhas organizadas". Enquanto esteve lá, o número de ataques dos insurgentes aumentou continuamente, e continua aumentando até hoje. Ele observa que esse movimento não é coordenado por um líder ou visão ideológica únicos. Em vez disso, todas as facções se unem na luta contra a ocupação do Iraque pelos Estados Unidos. Uma vez afastado o inimigo comum, o combate entre as facções começará e, provavelmente, seguir-se-á a guerra civil. Finalmente, Hashim diz que "a insurreição pode evoluir . . . para desenhos complexos de guerra e violência. Se essa evolução continuar, os prospectos de êxito americano para produzir segurança, estabilidade política e reconstrução do Iraque serão nulos".54
A questão primordial para os Estados Unidos termina por ser de paciência e perseverança. Record e Terrill concluem que "muitos especialistas acreditam que a criação, no Iraque, de uma democracia genuína está além do poder e da paciência dos Estados Unidos".55 Amy Chua observa que "jamais na história, qualquer nação ocidental implementou ao mesmo tempo o capitalismo e o sufrágio universal, da noite para o dia—exatamente a fórmula de democracia de mercado livre que atualmente está sendo imposta aos países em desenvolvimento em todo o mundo".56 Ela acha que forçar um mercado de
laissez-faire e uma rápida democratização, como o que os Estados Unidos estão fazendo no Iraque, tem probabilidade extremamente grande de agravar a instabilidade étnica e resultar na violência. "A difusão planetária da democracia de mercado livre tem sido, desse modo, a principal causa de agravamento da instabilidade étnica e da violência por todo o mundo não-ocidental".57Muitos estudiosos do Oriente Médio também não acreditam que o liberalismo e a democracia possam ser implementados com êxito a partir de fontes externas, como os Estados Unidos. Graham Fuller conclui que "no final, o governo liberal moderno tem mais probabilidade de criar raízes por meio de tendências islâmicas liberais que evoluam organicamente nos movimentos populares do que a partir de módulos de ‘democracia instantânea’ importados do Ocidente".58 Record e Terrill observam que:
mesmo na melhor das hipóteses, é problemático modelar uma democracia genuína no Iraque pós-Saddam Hussein. Desde que foi criado, o Iraque nada mais conheceu que não fosse governo autoritário e, sob Saddam Hussein, viveu uma feroz tirania neo-estalinista. Embora os regimes iraquianos, como outras ditaduras, adotassem uma fachada democrática com eleições, parlamentos, tribunais independentes, eles o fizeram de forma fraudulenta e exclusivamente para propósitos de propaganda.59
George Soros, o financista multibilionário que promove a difusão da democracia pelo mundo, declarou em uma entrevista que "não é factível introduzir a democracia por meios militares. O esforço de promover a democracia [no Iraque] foi solapado porque perdemos credibilidade".60 (É crença comum que após terem os Estados Unidos assumido o controle do Iraque durante a OIF, perdemos credibilidade com a população, ao não provermos a segurança interna, a não ser em volta de instalações petrolíferas e de fornecimento de gasolina.) Finalmente, o estudioso iraquiano Isam al-Khafaji conclui que "vinte anos de brutal e ininterrupta ditadura deixaram a cultura política do povo iraquiano mais empobrecida do que em qualquer outra época. Em conseqüência, no futuro previsível, é improvável que ele seja capaz de desenvolver as estruturas estatais radicalmente diferentes que são necessárias para substituir o sistema atual".61
Relata-se que a situação de segurança do Iraque piora a cada dia. Dana Priest e Thomas Ricks, do
Washington Post, relataram recentemente que funcionários que combatem a insurreição e a estudam acreditam que "a rebelião é mais profunda e mais difundida do que se reconhece".62 Afirma-se que o Conselho Nacional de Inteligência dos Estados Unidos concluiu que na melhor das hipóteses o Iraque poderia alcançar uma "tênue estabilidade".63 Contudo, a maior parte dos analistas acredita ser extremamente provável que ele se dissolva em uma guerra civil, especialmente se os Estados Unidos retirarem suas forças militares no futuro próximo. Em sua conclusão, Record e Terrill recomendam que "em nenhuma hipótese devem os Estados Unidos abandonar o Iraque como o fizeram com o Vietnã do Sul, em 1975. Com efeito, esse abandono quase pareceria uma garantia de guerra civil. . . ."64Há muita gente nos Estados Unidos que está disposta a defender qualquer coisa que não signifique guerra civil no Iraque. Por exemplo, Richard Cohen afirma o sentimento de muita gente: "A verdade é que, atualmente, defendemos um homem forte favorável aos Estados Unidos como Pervez Musharraf, do Paquistão, ou Hosni Mubarak, do Egito. Ambos os países são essencialmente ditaduras militares".65 Record e Terrill também recomendam que defendamos "alguma forma de governo quase-autoritário benigno, do tipo do da Turquia de Kemal Ataturk, do Egito, de Anwar Sadat e da Jordânia do Rei Hussein, talvez como uma transição prolongada para um governo mais representativo".66
Cohen, Record, Terrill e outros referem-se ao que Fareed Zakaria chamou, em 1997, na
Foreign Affairs, uma "democracia não-liberal". Zakaria observa que, em todo o mundo, regimes eleitos democraticamente estão rotineiramente ignorando limites a seu próprio poder e privando seus cidadãos de liberdades básicas. Embora o liberalismo (império da lei e direitos humanos básicos) e a democracia (eleições livres e honestas) tenham caminhado de mãos dadas no Ocidente durante o século XX, parecem estar-se separando no resto do mundo. Ele sustenta quesem o liberalismo constitucional, a democracia está produzindo regimes centralizados, erosão da liberdade, competição étnica, conflito e guerra. . . . Do Peru à Autoridade Palestina, de Serra Leoa à Eslováquia, do Paquistão às Filipinas, vemos o surgimento de um fenômeno perturbador na vida internacional: a democracia não-liberal.67
Zakaria também afirma que "metade dos países ‘em democratização’ no mundo atual constitui-se de democracias não-liberais". Nessas democracias não-liberais, os líderes argumentam que precisam de autoridade para pôr ordem em sociedades caóticas. Contudo, a centralização desenfreada de poder em um governo tem sido inimiga da democracia liberal. As democracias não-liberais obtêm uma parcela de legitimidade pelo fato de serem razoavelmente democráticas.68
Zakaria adverte enfaticamente contra permitir que um grupo étnico domine outros grupos étnicos com os quais esteja em competição. "Uma vez que um grupo étnico toma o poder, ele tende a excluir outros grupos étnicos. O acordo em busca do meio termo parece impossível. . . . A competição política reproduz essa divisão e pode rapidamente degenerar em violência".69 No Iraque, há dois grupos étnicos distintos—árabes e curdos—bem como duas diferentes facções do islã—sunitas e xiitas. A preocupação é, certamente, que se o maior desses grupos, os xiitas, assumirem o poder, relutarão em abandoná-lo, a não ser pela força.
Minha recomendação é que os Estados Unidos não sigam a orientação de Zakaria, mas, em vez disso, apóiem uma democracia não-liberal no Iraque, se for essa sua maneira de evoluir, com o objetivo de longo prazo de que o Iraque caminhe para tornar-se uma democracia liberal. Portanto, os Estados Unidos devem apoiar quem quer que o povo iraquiano eleja presidente, mesmo que o presidente eleito comece por implementar políticas não-liberais e não-democráticas. É isto que os Estados Unidos estão fazendo atualmente com o Presidente Vladimir Putin, da Rússia. (Putin está consolidando seu poder restringindo direitos básicos do povo russo, para combater eficazmente o crime organizado, as oligarquias, o terrorismo e outros problemas de segurança interna.) O que se acredita é que uma vez que o ambiente de segurança interna da Rússia alcance um grau mínimo de estabilidade, serão reintroduzidas medidas de caráter liberal.
Este modo de tratar as coisas permite que a democracia liberal no Iraque evolua ao longo do tempo, como recomendam muitos estudiosos, de Graham Fuller a Amy Chua. Certamente, a riqueza do Iraque em petróleo e gás natural, bem como sua classe média e população primorosamente educada, poderia servir de alicerce para que o liberalismo se desenvolva no Iraque. Talvez seja atualmente mais importante uma conseqüência da hipótese de Zakaria. Talvez uma democracia não liberal seja uma pré-condição para a democracia liberal, como sugeriram Record e Terrill. Considerando-se que o Iraque experimentou ou possui muitos dos fatores que são pré-requisitos para que floreça a democracia, inclusive uma história de liberalismo democrático durante o governo colonial britânico, uma população primorosamente educada, riqueza nacional significativa e uma classe média estável, eu recomendaria este tratamento do problema na atual fase do Iraque.
Há precedentes na história para essa transição de uma democracia não liberal para uma democracia liberal. Em todos os pontos do planeta houve transições bem-sucedidas de governos de ditaduras democráticas para democracias liberais. Por exemplo, no sudeste da Ásia, tanto a Indonésia quanto as Filipinas fizeram essa transição. Na África, a África do Sul a fez. E na América Latina, a mesma transição foi feita pelo México e pelo Brasil. Se tiver tempo, talvez o Iraque possa fazer também essa transição no Oriente Médio.
Entretanto, enquanto o Iraque transita de uma ditadura totalitária para uma democracia não-liberal (e, afinal, para uma democracia liberal), é importante ter presentes os riscos políticos envolvidos. Sempre que uma nação passa por uma transformação política, assume o risco de colapso do Estado e instabilidade política. P. H. Liotta e James Miskel declaram que "há uma forte aparência de que no ponto de transição para uma forma democrática de governo é que é maior o risco de colapso do Estado e instabilidade".70 Eles defendem para o Iraque uma política e uma estratégia de longo prazo de "democracia de adaptação", a exemplo da Jordânia, em que elementos tanto do islã quanto da democracia liberal sejam implementados ao mesmo tempo, em graus variáveis. Concluem que "à medida que a democracia de adaptação comece a enraizar-se em diversos lugares, talvez descubramos que no ‘mundo muçulmano’. . . . um tamanho único não sirva para todos".71
O ótimo é inimigo do bom
. No presente momento, considerando-se que continua a insurreição e a turbulência geral no Iraque, a maior parte dos luminares da política não acha possível estabelecer um governo nacional legítimo. Portanto, imagino que os que determinam a política dos Estados Unidos devam ter objetivos um pouco mais modestos relativamente à meta de um Iraque democrático e devam aceitar, inicialmente, um governo que não chegue a ser perfeitamente democrático. O Iraque precisa do líder forte que caracteriza um governo não-liberal, para superar as numerosas insurreições nacionais, enquanto promove a estabilidade e a segurança do país. Isto é o que os Estados Unidos estão fazendo em relação a muitos de seus aliados mais chegados, inclusive a Rússia. Portanto, este modo de tratar as coisas não será novo nem desarrazoado.Embora já existam numerosas democracias não-liberais nos mundos árabe e muçulmano, do Marrocos ao Egito e do Líbano ao Catar, há, também, umas poucas democracias liberais bem-sucedidas, como a Turquia e Indonésia. Portanto, os Estados Unidos poderiam abraçar a idéia de que um governo democrático não-liberal no Iraque ainda é melhor do que a ditadura brutal que Saddam Hussein impunha. Além disso, um governo desse tipo no Iraque, ao longo do tempo e com as motivações adequadas de ordem política e econômica, poderia evoluir para uma democracia liberal ou "de adaptação".
Uma democracia não-liberal não é o que a administração Bush concebeu ao defender a mudança de regime no Iraque, assim como certamente não tem a probabilidade de promover a difusão da democracia liberal pelo resto do Oriente Médio. Contudo, é o melhor que atualmente se pode esperar, e muito melhor que a alternativa: uma prolongada guerra civil.
Notas:
1. President George W. Bush, "Remarks at the American Enterprise Institute Annual Dinner", 26 de fevereiro de 2003.
2. President George W. Bush,
The National Security Strategy of the United States of America (2002), Sections 1, 2.3. Moataz Fattah, "Muslims’ Cultures and Democratizability", Final Paper presented at the CSID Fifth Annual Conference in Washington D.C. (May 28-29, 2004), 3.
4. Greg Miller, "Democracy Domino Theory ‘Not Credible’ ",
Los Angeles Times (March 14, 2003), 1.5. Barry Loberfeld, "Liberalism: The Slippery Slope to the Left". Disponível em: www.
FrontpageMagazine.com (September 9, 2004).6. Kenneth Minogue,
The Liberal Mind (Indianapolis: Liberty Fund, 1963), 2-12.7. Fareed Zakaria, "The Rise of Illiberal Democracy". Disponível em: www.foreignaffairs.org (November/December 1997).
8. Zakaria.
9.
Ibid.10. Patrick Basham, "Can Iraq Be Democratic?"
Policy Analysis, No. 505 (January 5, 2004), 4.11. Seymour M. Lipset, "Conditions for Democracy", S.N. Eisenstadt, ed.,
Studies in Human Society: Democracy and Modernity, Vol 4 (New York: E.J. Brill, 1998), 6.12. Lipset, 3.
13.
Ibid.14. Basham, 7.
15. Lipset, 14.
16. Basham, 7.
17. Lipset, 2.
18.
Ibid., 7.19. Larry Diamond, Juan Linz e Seymour M. Lipset editors,
Politics in Developing Countries (Boulder: Lynne Rienner Publishers, 1995), 42.20. Lipset, 7.
21. Gunter Knabe, "There’s No Conflict Between Islam and Democracy", Deutsche Welle. Disponíel em: www.dw-world.de/dwelle/cda/detail/ Acesso em: 12 Set 2004.
22. Osama Harb, "Reform from Within". Disponível em: www.siyassa.org. Acesso em: Abr 2004.
23. Ahmed Subhy Mansour, "The Roots of Democracy in Islam". Disponível em: www.ned.org. Acesso em: 16 Dez 2002.
24. Disponível em: www.islamonline.net.
25. Ali R. Abootalebi, "Civil Society, Democracy, and the Middle East",
Middle East Review of International Affairs, Vol. 2, No. 3 (September 1998), 5.26. Maulana Khan, "The Concept of Democracy in Islam". Disponível em: www.jammu-kashmir.com. Acesso em: 19 Dez 2002.
27. Brent Talbot e Jodi Vittori, "Gambling with History: The Making of a Democratic Iraq". Disponível em: www.airpower.maxwell.af.mil/airchronicles/cc/vittori. html. Acesso em: 6 Jun 2004.
28. Graham Fuller, "The Future of Political Islam",
Foreign Affairs, Vol. 81, No. 2 (March/April 2002), 50.29. Selwa Calderbank, "Inventing Islam’s Liberalism". Disponível em: www.dailystar.com.lb. Acesso em: 21 ago 2004.
30. Samuel Huntington, Who Are We? (New York: Simon & Schuster, 2004), 340.
31. Huntington, 358.
32. Joshua Parens, "Whose Liberalism? Which Islam?",
PS: Political Science & Politics, Vol. 27, No. 3 (September 1994), 514.33. Daniel Pipes, "Where Are the Moderate Muslims?" Disponível em: www.americandaily.com. Acesso em: 26 Set 2003.
34. Martin Kramer, "Democracy in the Middle East",
Democracy in the Middle East: Defining the Challenge, eds. Y. Mirsky and M. Ahrens (Washington, D.C.: WINEP, 1993), 34.35. Zev Chafets, "W’s Wrong: Freedom Can’t Grow in Iraqi Soil",
New York Daily News (October 3, 2004), 1.36. Fareed Zakaria observou isto em seu artigo na
Foreign Affairs, declarando que essa afirmativa sugere que as democracias sejam mais pacíficas, mas apenas em relação a outras democracias.37. President Bush, "Remarks at the American Enterprise Institute’s Annual Dinner" (February 26, 2003).
38. Adeed Dawisha, "Iraq",
The Encyclopedia of Democracy Volume II, Seymour Lipset (ed), (Washington DC: CQ, Inc., 1995), 633.39. Phebe Marr,
The Modern History of Iraq (Boulder, Westview Press, 2004), 12; Martin Peretz, "History Lesson: What We Should Have Known", The New Republic, Vol. 230, Issue 24 (June 28, 2004), 25.40. Entrevista de John Esposito a Nermeen Shaikh, da
Asia Source. Disponível em: www.asiasource.org. Acesso em: 13 Mai 2002.41. Basham, 10.
42. Adeed e Karen Dawisha, "How to Build a Democratic Iraq". Disponível em: www.foreignaffairs.org. (May/June 2003).
43. Fatima Moshen, "Cultural Totalitarianism",
Iraq Since the Gulf War, ed by Fran Hazelton (London: Zed Books, Ltd, 1994), 8.44. Marr, 28.
45. Dawisha.
46. Kevin Whitelaw, "Democracy 101",
US News & World Report, Vol. 136, Issue 4 (February 2, 2004), 36.47. Basham, 5.
48. Jeffrey Record e Andrew Terrill, "Iraq and Vietnam: Differences, Similarities, and Insights",
Strategic Studies Institute (Carlisle Barracks: US Army War College, 2004), 20.49. Daniel Benjamin e Steven Simon,
The Age of Sacred Terror (New York: Random House Publishers, 2003), 482.50. Benjamin e Simon, 482-83.
51. Greg Miller, "Democracy Domino Theory ‘Not Credible’ ",
Los Angeles Times (March 14, 2003), 1.52. Jeffrey Record e Andrew Terrill, 20.
53. Daniel Byman, "Insecuring Iraq",
The National Interest (Summer 2004), 17.54. Ahmed S. Hasim, "Iraq’s Chaos". Disponível em: www.bostonreview.net/BR29.5/hashim.html. (October/November 2004).
55. Record e Terrill, 55.
56. Amy Chua,
World on Fire (New York: Doubleday Press, 2003), 14.57. Chua, 187, 225.
58. Fuller, 50.
59. Record e Terrill, 41.
60. George Soros, entrevista a Trudy Rubin.
Philadelphia Inquirer (October 13, 2004), 1.61. Isam al-Khafaji, "State Terror and the Degradation of Politics", Fran Hazelton, ed.,
Iraq Since the Gulf War, 31.62. Dana Priest e Thomas Ricks, "Growing Pessimism On Iraq",
Washington Post (September 29, 2004), 1.63. Priest e Ricks, 1.
64. Record e Terrill, 55.
65. Richard Cohen, "Coming Clean About This War",
Washington Post (September 21, 2004), 21.66. Record e Terrill, 55.
67. Zakaria.
68.
Ibid.69. Zakaria.
70. P. H. Liotta e James F. Miskel, "Dangerous Democracy? American Internationalism and the Greater Near East" (Summer 2004), 445.
71.
Ibid., 446, 448.|
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O Coronel R/1 Stephen R. Schwalbe, USAF, tornou-se o Diretor do Programa de Estudos regionais do Air War College em agosto de 2002. É, também, professor de Segurança Global e Memorandos de Decisões de Segurança Nacional (NSDM) no Departamento de Estudos de Segurança Internacional. Integrou duas vezes o Sistema de Adidos de defesa como adido da USAF na Coréia (1995-1997) e na Jordânia (2000-2002). Antes disso, exerceu a função de diretor de inspeção na Inspetoria Geral do DOD. O Cel Schwalbe concluiu, com distinção, os cursos da Escola de Guerra Naval, em 1988, e da Naval Postgraduate School, em 1984. Foi o aluno mais destacado do Mestrado em Administração Política na Golden Gate University em 1981. Concluiu, em 1977, o curso de graduação da Academia da Força Aérea dos EUA, em Colorado Springs, Colorado. Faz atualmente o doutorado em Política Pública na Auburn University, Alabama. |
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