Uma Refutação Histórica de um Erro Moderno
Primeiro-Tenente Brent D. Ziarnick, USAF
Em resposta ao Relatório, de 2001, da Comissão de Avaliação da Gestão e Organização Espacial voltada para a Segurança Nacional dos Estados Unidos (Comissão do Espaço), a Força Aérea dos EUA elaborou uma nova estratégia para orientar o desenvolvimento de seus profissionais do espaço. Essa estratégia modifica muitos aspectos que orientam o aperfeiçoamento profissional de operadores, cientistas, engenheiros e gerentes de programa, os quais conformam o “quadro de profissionais do espaço” da Força Aérea dos Estados Unidos. Diversos aspectos dessa estratégia, tais como níveis de certificação mensuráveis e o rastreamento de experiências relacionadas com o espaço irão, sem dúvida, provar-se muito valiosas. Um item, entretanto, pode ter sérias implicações militares.
O novo plano para certificação da proficiência de oficiais previsto na estratégia “deseja” que todos os oficiais possuam um “diploma em área que seja relevante para operações espaciais”. Dessa forma, a certificação de nível um (de um a dez anos de experiência em operações espaciais) exige um nível acadêmico de graduação numa área relacionada com o espaço, o nível dois (10-15 anos de experiência) requer um mestrado; o plano “recomenda vivamente” que os que buscam o nível três, o topo da certificação em operações espaciais (mais de 15 anos de experiência), possuam um mestrado em assuntos relacionados com o espaço.1 De acordo com o plano, “relacionados com o espaço” inclui engenharia, gerência de sistemas, administração de empresas, ciência da computação, física, química, matemática e operações espaciais. A lógica para o estabelecimento desse “requisito” é que ele provê uma maior transdiciplinariedade entre as diversas funções e atribuições—[aquisições] para [operações] e vice-versa.”2 É possível observar a ausência das ciências humanas e artes: história, filosofia, inglês, ciências políticas, entre outras. À primeira vista, o plano parece adequado—mesmo atrativo. Afinal de contas, como a aquisição de uma qualificação técnica poderia prejudicar os profissionais do espaço? Em termos práticos, tal requisito provavelmente não traria nenhum prejuízo. Entretanto, essa é a pergunta errada.
A preferência por diplomas técnicos implica que outros estudos tornem-se irrelevantes para o exercício do oficialato como profissionais do espaço. De fato, em uma reunião em que o autor participou sobre a estratégia de formação dos profissionais do espaço, o apresentador, um tenente-coronel, explicitamente declarou que ele não via como a História do Período Elizabetiano poderia ter qualquer aplicabilidade na formação de oficiais de operações espaciais. Dessa forma, seria mais apropriado perguntar se somente estudos técnicos possuem relevância para as atividades militares no espaço.
Deveriam os oficiais de operações espaciais estudar engenharia ou física em detrimento da história, filosofia, ou outros campos não-técnicos? Uma resposta afirmativa poderia ter consequências de grande alcance. Se a liderança da Força Aérea favorecer a obtenção de diplomas técnicos, isso poderia convencer muitos jovens oficiais ou cadetes orientados para a carreira a optarem pelas ciências exatas, a despeito de sua preferência por outras disciplinas acadêmicas—ou então poderia desencorajar outros de se juntarem às forças espaciais ainda que pudessem trazer importantes contribuições. Dentro de vinte anos, os tenentes e capitães de hoje tonar-se-ão os líderes das forças espaciais. Supostamente, se a estratégia de formação dos profissionais do espaço funcionar como previsto, eles terão obtido uma educação técnica substancial, mas qualificação não-técnica significativamente menor do que a da liderança atual. Ao expressar uma preferência pela formação em áreas relevantes ao espaço, e sugerindo que o tipo de grau acadêmico poderá afetar as promoções, a liderança dos profissionais do espaço, de fato, estabelece a educação técnica como a única adequada para a formação dos oficiais de operações espaciais. Mas será isso verdade?
Ironicamente, a história nos diz que o debate sobre os méritos da educação técnica versus educação não-técnica não é novo. No final do século XIX, outra Força Singular experienciou grandes mudanças, confrontando o mesmo problema que agora se coloca ante à força espacial. Em 1879, respondendo ao debate sobre o ensino de oficiais na Marinha dos EUA, Alfred Thayer Mahan (então um capitão-de-corveta, mas destinado a tornar-se um contra-almirante e, após sua morte, o maior teórico do poder naval) escreveu um ensaio intitulado “Educação Naval”, o qual é tão relevante para nosso atual dilema como o foi para a Marinha há mais de um século:
Confesso um sentimento mesclando impaciência e irritação quando ouço as nobres incumbências e requisitos da carreira de um oficial de Marinha ignoradas, e uma tentativa de substituí-las por propósitos e competências completamente diferentes de um servidor da ciência. A escala relativamente pequena em que tais atribuições são atualmente desempenhadas, a desejada impossibilidade de uma grande guerra, as tristes condições de eficiência a que se deixou chegar o material da Marinha, tudo isso tem ajudado a cegar nossos olhos para a magnificência da carreira dos guerreiros do mar. . . . Não é surpresa que os oficiais da Armada se deixem levar por uma surpreendente humildade que reduz sua própria profissão.3
O lamento do Almirante Mahan a respeito do estado de degradação da Marinha e do depressivo estado do moral naval no final do Século XIX também se dirige ao moderno oficial das operações espaciais. Da mesma forma que a Marinha de Mahan ignorou o oficial naval, a nova estratégia da Força Aérea ignora as nobres atribuições e requisitos dos oficiais de operações espaciais em favor das habilidades e competências de um engenheiro. Não seriam esses oficiais mais do que engenheiros fardados? Não deveríamos liderar as outras Forças Singulares no serviço ao país—e, talvez, em combate? Será que realmente temos mais em comum com Edison do que com Nelson, tal como a estratégia sugere? A educação técnica introjeta nos estudantes virtudes de cientistas ou de engenheiros. Será isso que queremos de todos os oficiais de operações espaciais?
De fato, um grande número desses oficiais não consegue perceber a magnificência da carreira do guerreiro do espaço, pelas mesmas razões então observadas por Mahan em sua Marinha. “Uma desejada impossibildade de uma grande guerra” no espaço permeia o pensamento da Força Aérea e do Comando Espacial, tal como exemplificado na crença comum (freqüentemente negada, mas afirmada por inação) de que as operações espaciais desempenham, simplesmente, um papel de apoio nas operações militares. Conseqüentemente, conceitos completamente divorciados da experiência militar, os quais fizeram técnicas não-violentas (tais como guerra de informação e guerra eletrônica) abarcarem a totalidade da guerra espacial, são aceitos como evangelho, em detrimento da comunhão dos oficiais das operações espaciais com os guerreiros de terra, mar e ar, seus companheiros. Dessa forma, o escopo de responsabilidades dos oficiais de operações espaciais tornou-se consideravelmente menor do que o dos demais oficiais. Não é surpresa, portanto, que alguns sejam “levados por uma surpreendente humildade que, falsamente, reduz sua própria profissão”, enquanto procuram emular o perfil da profissão mais próxima com que eles conseguem se relacionar—o engenheiro espacial. Mahan observa que
é necessário, então, olhar para longe no futuro e considerar, realmente, o que se deveria desejar que um oficial de Marinha realmente fosse. Teríamos, de fato, atingido um estado na Marinha, por ter constantemente adicionado, aqui e ali, o requisito por um diploma, no qual pensamos que cada oficial de Marinha, ou para utilizar o termo técnico, oficial da Armada, deveria ser sabedor de um compêndio de matemática, incluindo seus mais altos níveis de estudo, sua aplicação a numerosos e recôndidos problemas de física, considerável conhecimento das ciências exatas e ciências mecânicas, além de uma grande familiarização com as artes da manufatura; tudo isso em adição do domínio de sua profissão propriamente dita. Se falhar em obter essa qualificação, muitos dizem, ele deverá descer da alta posição antes ocupada por seus predecessores nos séculos anteriores, tornando-se simples obreiros para outras mentes que receberam uma cultura mais rigorosa, mais profunda, embora mais específica.4
Aqui ele descreve a crença, comumente mantida tanto antes como hoje em dia, de que um oficial deveria ser um matemático, cientista e engenheiro, assim como um líder militar, para obter êxito em suas atividades. Essa crença encontra-se perigosamente perto de tornar-se norma para a força espacial.
Teriam os autores da nova estratégia devotado suficiente reflexão a respeito de qual deveria ser o perfil ideal do oficial de operações espaciais, antes de decidirem transformá-los em tecnocratas (gerentes de programa, cientistas, ou engenheiros)? Restringir opções educacionais para esses oficiais parece particularmente perigoso, já que não temos um claro entendimento das qualificações que iremos necessitar no futuro. Atualmente, as operações espaciais de natureza militar estão limitadas ao apoio de operações de combate terrestre e aéreo. Ninguém sabe se isso irá se manter pelos próximos 20 anos. Atualmente, o típico oficial de operações espaciais opera um sistema de mísseis ou sistema espacial em um computador desde uma sala de controle climatizada, em uma base localizada no território dos EUA. Amanhã, entretanto, ele poderá efetivamente empregar sistemas de armas em combate real, talvez vindo a encontrar-se em situações de perigo, a exemplo de seus companheiros de terra, mar e ar. A esta altura, não podemos ter certeza a este respeito.
É desconcertante ver-se derivar os requisitos para a especialização em operações espaciais (Código de Especialização da Força Aérea [AFSC] 13S), que abarca a maior parte do quadro de especialistas em operações espaciais (assim como uma parcela correspondentemente grande dos futuros líderes da força espacial), dos mesmos requisitos de admissão à especialização em aquisição (AFSC 61, 62, e 63), um importante, mas limitado subconjunto não-combatente do quadro de especialistas. Por definição, os oficiais especialistas em aquisição dedicam-se à obtenção de novos sistemas de armas e equipamentos. Eles requerem qualificações em gestão e engenharia—as qualificações relevantes para as operações espaciais conforme determinadas pelo Conselho de Profissionais do Espaço. A aquisição de sistemas não equivale à condução de operações espaciais. Não há absolutamente qualquer indício de se a “[restrita] . . . cultura” dos engenheiros ou gestores irá mostrar-se suficiente para a liderança das operações espaciais de natureza militar, nem temos qualquer justificativa clara para a percepção de que a cultura típica da área de aquisição seja melhor para o oficial especialista em operações espaciais do que qualquer outra.
Infelizmente, a estratégia para a formação dos profissionais do espaço parece deixar implícito que os atuais oficiais de operações, sem qualquer formação em aquisição, irão, em última análise, deixar seus postos elevados, “tornando-se simples obreiros” para outros que receberam qualificações em aquisição, cujos conhecimentos reputamos mais importantes do que qualquer outro nas operações espaciais. Certamente, os especialistas em aquisição serão absolutamente essenciais para a futura força espacial, e muitos se tornarão excelentes comandantes. Entretanto, as habilidades de um oficial da área de aquisição, tanto os especialistas em gestão como os técnicos, não abrangem a miríade de competências necessárias para a eficácia militar. As operações espaciais—aí incluídas as de natureza militar—representam mais do que simplesmente equações ou dólares. Mahan observa que a liderança militar freqüentemente falha em perceber esse fato:
Reconhecidos e maravilhados pela natureza das estupendas modificações efetuadas e das coisas maravilhosas obtidas pelos labores da ciência, os encarregados da direção de nossa educação naval, ou que exercem influência sobre essa direção, parecem levar a sério a noção de que qualquer oficial de Marinha, tendo que empregar essas máquinas de ataque ou defesa que o pesquisador ou mecânico colocou em suas mãos, deveria ser capaz de exercitar uma longa série de profundas reflexões, sendo conhecedor de todos os processos práticos pelos quais cada uma dessas poderosas máquinas foram concebidas ou produzidas.5
A estratégia de formação dos profissionais do espaço, sem dúvida, tem “levado a sério” que todo oficial especialista em operações espaciais “deveria ser capaz de exercitar uma longa série de profundas reflexões” pelas quais nossos sistemas são concebidos. É algo completamente diferente se os autores da estratégia entendem ou não o trabalho envolvido na obtenção de um mestrado técnico. Por exemplo, o mestrado de engenharia em operações espaciais (uma área de estudos aprovada pela estratégia) na Universidade do Colorado, em Colorado Springs, requer o estudo de astrodinâmica, análise de sistemas mecânicos, dinâmica de espaçonaves, análise de veículos lançadores, engenharia de sistemas, otimização de trajetórias, entre outras.6 Cada matéria requer extensivo emprego de matemática avançada, como equações diferenciais, matrizes e álgebra linear, assim como princípios avançados de mecânica, termodinâmica e outras disciplinas científicas. Quantos coronéis e generais de hoje (mesmo aqueles em funções relacionadas com o espaço) não tremeram ao iniciarem o cálculo ou entraram em pânico ao enfrentarem seu primeiro diagrama de corpos em espaço livre? Deveriam todos os oficiais de operações espaciais tornar-se mestres em conceitos técnicos raramente encontrados em operações militares—mesmo no espaço? Procurar obter um mestrado técnico, especialmente diante da restrição de tempo e recursos dos oficiais da ativa, quase que com certeza iria exigir uma graduação em áreas técnicas. Certamente, nem todo oficial possui seja a habilidade seja a inclinação para obter um diploma de graduação em áreas técnicas. Deveria esse fato tornar esses oficiais sem pendores técnicos personae non gratae nas forças militares do espaço?
É interessante observar que, com tal graduação, seria possível iniciar e progredir bastante em uma carreira de projetista de espaçonaves. Um engenheiro experiente freqüentemente obtém um mestrado como uma qualificação final. Nesse sentido, o Comando Espacial deseja que cada oficial torne-se não somente um “compêndio de matemática”, mas também alguém qualificado para projetar e construir sistemas espaciais a partir do zero. Mas a missão de um oficial das operações espaciais é fazer uso do espaço, não construir espaçonaves. Então, que tipo de educação Mahan pensa que oficiais bem-sucedidos necessitam?
O conhecimento necessário para um oficial da armada é simplesmente e somente aquele que o qualifica para desempenhar suas diversas atribuições inteligente e eficazmente. Qualquer informação que vá para além desse ponto é, afinal de contas, simplesmente cultura, a qual, embora desejável em si mesma, não deve ser confundida com os requisitos essenciais. Embora isso seja verdadeiro, deve ser considerado que existe uma cultura particular referente à profissão naval. Por exemplo, a manufatura de material bélico, as complexas questões relativas a explosivos, possuem íntima relação com a parte militar de sua profissão. É suficiente mencionar que, embora seja necessário tanto um conhecimento amplo e exato dos vários processos pelos quais canhões testados e a munição aprovada são disponibilizados para seu uso, assim como o conhecimento do rápido embora gradual progresso desenvolvido em cada uma dessas atividades, não é razoável que elas sejam suas atividades principais.7
O entendimento da verdade universal da primeira frase da citação acima é tão importante para a compreensão dos propósitos de Mahan para a educação militar quanto essencial para o desenvolvimento de um currículo adequado para educação de oficiais especializados em operações espaciais. Muitas vezes, oficiais esquecem suas atribuições, que incluem a defesa da pátria, efetivamente operando sistemas, sejam eles fuzis, navios de guerra, ou satélites. Ao longo da história, os oficiais têm desempenhado suas atribuições admiravelmente, mesmo sem o completo entendimento da ciência por detrás dos equipamentos. Um piloto não necessita saber computação de dinâmica dos fluidos para entender que se puxar o manche a aeronave ganhará altitude. Um soldado não necessita de habilidades em química avançada para compreender que se apertar o gatilho de um fuzil, este irá disparar um projetil. De forma similar, um oficial das operações espaciais não necessita dominar as complexidades matemáticas da teoria da pertubação para compreender seus efeitos nas operações de satélites. Os princípios científicos por detrás de cada ação operacional não são essenciais para o desempenho operacional.
As operações espaciais, contudo, compartilham muito da cultura da engenharia espacial—tanto que as operações espaciais da Força Aérea, até recentemente, eram domínio expresso dos engenheiros subordinados ao agora desativado Comando de Sistemas. Mahan nos alterta que, apesar das similaridades entre operações militares e a cultura da engenharia, acreditar que um operador de sucesso deva ter as mesmas habilidades de um engenheiro de sucesso ainda confunde cultura com conhecimentos essenciais. Ele afirma categoricamente que não é necessário conhecer todos os fundamentos científicos que sustentam a moderna astronáutica para operar um sistema construído a partir desses princípios. Então, quanto seria, realmente, necessário?
Com referência à parcela dos conhecimentos essenciais, quão grande seria o volume de capacitação científica necessária? . . . Talvez alguma familiaridade com a mecânica e os modos de sua aplicação; mas isso dificilmente poderia ser dignificado com o termo ciência, já que o conhecimento necessário para operar e manter turbinas navais a vapor pode ser adquirido por homens com pouca escolaridade, sendo uma questão básica de experiência diária.8
Por exemplo, as operações do 2o Esquadrão de Operações Espaciais ratifica a opinião de Mahan, todos os dias. Embora o sistema de posicionamento global (GPS), formado por uma constelação de quase 30 satélites, seja, inegavelmente, um dos mais complexos sistemas jamais produzido, pouquíssimos militares da área de operações qualificados para operar o sistema obtiveram diplomas técnicos. Operadores de satélites, responsáveis pela manutenção do bom funcionamento dos subsistemas da plataforma espacial e por corrigir potenciais anomalias que afetem os satélites, ocupam, por mérito próprio, a mais alta posição técnica na equipe de operações. Mas não exigimos que eles sejam possuidores de diplomas técnicos, e a maioria deles não possui diplomas de graduação em engenharia ou em outras áreas técnicas. O que é mais marcante, os operadores de sistemas de satélites—a única função no 2o Esquadrão de Operações Espaciais autorizada a gerar e transmitir comandos para satélites—são jovens soldados que, com freqüência, concluíram o treinamento básico poucos meses antes e que só têm o segundo grau. A despeito disso, a constelação do GPS continua sendo um dos sistemas militares mais confiáveis jamais lançado, e os operadores de plataforma e de sistemas de satélites consistentemente demonstram suas competências no seio da equipe.
Embora os operadores do sistema GPS devam entender os princípios básicos de mecânica orbital, dinâmica espacial, projeto de satélites e ciência da computação, eles não necessitam de diplomas em áreas técnicas para desempenharem eficazmente suas tarefas. Habilidades desenvolvidas em cursos de treinamento técnico, como o Espaço 100 (anteriormente denominado Treinamento Obrigatório em Operações Espaciais para Oficiais e Praças) e o Treinamento de Qualificação para a Unidade, parecem produzir bons operadores que não têm dificuldade em manter o sistema GPS operacional. No entanto, a despeito do conhecimento obtido nesses cursos, ele “dificilmente pode [ser dignificado] como científico”. Qualquer outra unidade de operações do Comando Espacial pode atestar o fato de “que o conhecimento necessário para operar e manter [sistemas espaciais] pode ser adquirido por pessoas dotadas de limitada educação [técnica] em suas atividades diárias”. Assim sendo, o que Mahan acredita que os oficiais deveriam estudar?
Se eu fosse solicitado a expressar com minhas próprias palavras como os estudos da língua inglesa ou os requisitos para a aprendizagem de línguas estrangeiras podem auxiliar uma pessoa a comandar seu navio e com ele combater, eu responderia que a motivação para esses desafios tende a expandir a capacidade de reflexão e engrandecer o espírito . . . os enaltecedores efeitos da busca de tais propósitos sobre o sentimento e o intelecto do homem do mar auxilia, penso eu, o desenvolvimento do orgulho próprio, da devoção por elevados ideais, os quais não deixam de produzir efeitos benéficos sobre a sua profissão, sendo esse fato ilustrado, de forma inequívoca, por muitos feitos de heroísmo e grandeza registrados no passado histórico. A natureza necessariamente materialista das ciências mecânicas tende, por outro lado, a produzir limitados e acanhados ideais9.
Em última análise, “largueza de pensamento e espírito elevado” não são qualidades essenciais para um engenheiro, gestor, ou operador. Um engenheiro necessita intuições matemáticas e científicas, um gestor necessita conhecimentos de economia e compreensão a respeito de dinâmica de grupo, enquanto um operador necessita somente um sólido entendimento de normas técnicas. Entretanto, largueza de pensamento e espírito elevado são marcas essenciais de um líder militar—a verdadeira definição de um oficial.
Sendo um oficial com conhecimentos técnicos, quando leio textos de astrodinâmica, sinto-me tal como um engenheiro—um tecnocrata. Mas quando leio Tucídides, Xenofontes e Mahan, compreendo o significado de ser um profissional estudioso da arte da guerra. Reconhece-se que as funções de oficiais subalternos são bastante técnicas e que conhecimentos técnicos podem contribuir para fazer deles melhores operadores, se bem que, atualmente, não tenhamos nenhuma evidência disso. Entretanto, oficiais não permanecem meros tecnocratas por muito tempo. Quando a liderança militar e o entendimento da guerra começam a aumentar em importância, os “[limitados] . . . ideais” das ciências mecânicas acabam por se mostrar mais um empecilho do que um auxílio ao oficial.
Nos escalões superiores de liderança militar, incluindo-se aí os líderes na área de operações espaciais, decisões de comando tornam-se muito mais do que simples equações. De fato, muitos dos problemas atuais mais prementes no Comando Espacial não são técnicos. Assuntos tais como o desenvolvimento de uma efetiva doutrina militar espacial, a aplicação da arte da guerra no ambiente espacial e a superação de objeções éticas relativas ao uso do espaço para fins militares (incluindo a abjeta crença de que matar pessoas em terra para neutralizar sistemas espaciais é mais “moralmente aceitável” do que destruir espaçonaves inanimadas em órbita) não requer habilidades típicas de um engenheiro, mas sim de filósofos, historiadores e teóricos militares.
A estratégia de formação dos profissionais do espaço privilegia, erradamente, o tecnocrata sobre o oficial. É muito mais fácil prover oficiais com habilidades técnicas em escolas técnicas para tornarem-se tecnocratas de sucesso do que instilar “orgulho próprio” e “devoção a elevados ideais” essenciais para grandes líderes militares durante os poucos meses de duração dos programas de formação militar profissional. Permitir que oficiais possam escolher sua educação superior, conforme eles entendam ser melhor, irá assegurar um saudável equilíbrio entre todas as competências necessárias para o corpo de oficiais das operações espaciais. Negar a importância de uma cultura humanística para um oficial adultera a verdadeira razão para a existência de um corpo de oficiais. O que podemos fazer para assegurar um saudável equilíbrio das competências dos oficiais da Força Aérea mantendo, ao mesmo tempo, a necessária proficiência técnica?
Estou convencido de que em nossa teoria sobre educação, falhamos em reconhecer, neste país, que o progresso das ciências mecânicas e as enormes mudanças que elas introduziram nos navios de guerra e em seus armamentos, assim como em outros meios de combate, tornaram necessária a criação de um quadro de especialistas.10
A área das operações espaciais, sem dúvida, necessita de oficiais qualificados em ciências, engenharia e gerência de projetos. Ao invés de tentar em vão fazer um oficial de operações espaciais ser, ao mesmo tempo, um operador, engenheiro e gestor, a Força Aérea deveria enfatizar a formação de indivíduos que fossem, individualmente, os melhores operadores, engenheiros e gestores possíveis.
Engenheiros e cientistas da Força Aérea, freqüentemente, lamentam-se de que raramente utilizam seus conhecimentos específicos. Existe uma noção no quadro de engenheiros e cientistas (AFSC 61 e 62) de que técnicos especialistas da Força Aérea, de fato, não trabalham com ciência ou praticam engenharia. De forma geral, oficiais especialistas técnicos supervisionam trabalho técnico desempenhado por funcionários civis e empresas contratadas. Se nossa Força Aérea deseja assegurar que o corpo de profissionais do espaço tenha os melhores especialistas possível, talvez ela devesse enfatizar a formação dos atuais oficiais especializados em operações especiais qualificados sob os requisitos dos AFSC 61 e 62, ao invés de requerer um título de mestre em ciências exatas para todos os oficiais das operações espaciais.
É essencial oferecer a técnicos especialistas em operações espaciais a posssibilidade de tornarem-se verdadeiros engenheiros e cientistas. A Força Aérea deveria oferecer a oficiais especialmente dotados em habilidades de pesquisa e desenvolvimento a possibilidade de eles tornarem-se engenheiros e cientistas uniformizados—e não simplesmente supervisores. Somente pela prática efetiva de pesquisa e desenvolvimento, peritos técnicos do espaço poderão manter e aperfeiçoar suas habilidades técnicas. Forçar engenheiros a executar atividades de operadores e vice-versa não produzirá nada a não ser minar a qualificação de ambos os peritos.
Somente pela manutenção das especialidades técnicas nas forças espaciais podem os peritos técnicos dedicarem-se à ciência e à engenharia. O sistema de promoção deveria oferecer oportunidades iguais de progressão na carreira para os oficiais que resolverem ter dedicação exclusiva à engenharia e à ciência, assim como para os especialistas que optarem por comissões operacionais. Se o quadro de oficiais das operações espaciais permitir que especialistas técnicos com pendores de pesquisa concentrem suas carreiras em pesquisa, sem penalizar suas promoções, a força espacial irá se beneficiar de um competente corpo de oficiais técnicos. Por isso, a Força Aérea deveria conceder aos oficiais de AFSC 61 e 62 a liberdade de eles seguirem seus interesses ao serviço da organização militar, permitindo-lhes trabalharem juntos com pesquisadores civis, em vez de continuarem como meros espectadores. Preenchendo todo o quadro de oficiais de operações espaciais com especialistas técnicos irá somente diminuir a profundidade do conhecimento que os oficiais cientistas e engenheiros podem alcançar, já que eles teriam que, incessantemente, deixar seus laboratórios para servirem como operadores ou gestores, ou então para atenderem a um sem-número de detalhes não-técnicos que irão monopolizar suas carreiras. Em vez de ampliar e expandir as funções e oportunidades para os atuais cientistas e engenheiros, o Comando Espacial optou por pedir a todos os oficiais das operações espaciais que se encaixem nesse modelo.
O endosso à opção pelos graus técnicos dado pela estratégia de formação dos profissionais do espaço resulta de um trecho do relatório da Comissão Espacial:
Outras áreas de atividades, como a do programa de submarinos nucleares da Marinha, colocam forte ênfase na educação técnica ao longo de toda a carreira. Esse enfoque produz oficiais com um profundo entendimento das funções e tecnologias básicas que sustentam seus sistemas e que lhes permite utilizar os sistemas de forma mais eficiente em combate. A força espacial deveria seguir esse modelo. Além disso, os critérios de seleção para a carreira deveriam enfatizar a necessidade de pessoal com pendores técnicos, sejam eles novos tenentes ou pessoal com outras formações. Deveria ser desenvolvido um currículo que explorasse profundamente as ciências relacionadas com o espaço, engenharia, aplicações práticas, teoria e doutrina, e seu estudo deveria ser requerido para todos os militares e civis do governo, tal como é efetuado no Programa de Propulsão Nuclear Naval.11
Essa passagem evidencia os fundamentos que sustentam as intenções técnicas da estratégia da Força Aérea; observe-se, entretanto, que eles ganham outra conotação quando considerados em conjunto com as demais conclusões do relatório. Ao longo de todo o documento, a Comissão Espacial insiste em que “o espaço é um meio muito parecido com o ar, a terra e o mar” e que o Departamento de Defesa ainda não está no rumo certo para desenvolver o quadro de especialistas em operações espaciais de que a nação precisa.”12 A Comissão nunca expressou claramente qual seria a configuração que deveria ter um quadro de oficiais de operações espaciais plenamente desenvolvido, mas pode-se concluir razoavelmente que o que foi visualizado não seria constituído por um conjunto limitado de especialistas técnicos, mas sim que iria abranger peritos em todos os aspectos—técnicos e não-técnicos—os quais poderiam explorar o ambiente espacial para propósitos de segurança nacional: “os profissionais militares do espaço deverão ter que dominar tecnologias altamente complexas, desenvolver novas doutrinas e conceitos de operações para lançamento espacial, operações espaciais ofensivas e defensivas, projeção de poder a partir do espaço, no espaço e através do espaço, assim como outros usos do espaço para fins militares.”13
É também evidente que a Comissão pretende que o corpo de oficiais das operações espaciais abranja todos os aspectos do uso do espaço para fins militares, em um Departamento Espacial independente: “Ajustes organizacionais de curto e médio prazo não devem restringir a eventual evolução em direção a um Departamento Espacial, se isso se mostrar desejável.”14 De fato, a comissão efetuou uma recomendação importante, mais tarde adotada, que lançaria as bases para a criação de tal departamento.15 Dessa forma, é razoável assumir que a Comissão desejava que o quadro de profissionais do espaço servisse como base para uma organização espacial independente, com atribuições relativas a todos os aspectos da exploração do espaço para fins militares, de forma muito parecida como o Exército, a Marinha e a Força Aérea detêm atribuições na exploração dos ambientes terrestre, naval e aéreo.
Dessa forma, não se deve concluir, a partir da menção que a Comissão Espacial faz a respeito do Programa de Propulsão Nuclear da Marinha, que o quadro de oficiais das operações espaciais, como um todo, deva seguir esse modelo. Enquanto os integrantes desse quadro irão explorar o ambiente espacial, o Programa de Propulsão Nuclear não é responsável pela exploração do ambiente marítimo—uma tarefa atribuida à Marinha. O programa de propulsão treina somente um pequeno subgrupo de especialistas técnicos para a Marinha, muitos dos quais acabam confinados à casa de máquinas do navio, e não à ponte de comando. Assim, insistir em que o quadro de oficiais das operações espaciais deva seguir o modelo do programa de propulsão nuclear irá, fatalmente, restringir o desenvolvimento de uma sólida equipe de dedicados profissionais do espaço. Por certo, nenhuma das forças militares atualmente instituídas declara que somente uma pessoa com um diploma técnico ou em administração de empresas está apta a receber a patente de oficial. Os líderes sabem que se restringirem a amplitude de conhecimentos acadêmicos do corpo de oficiais a somente conhecimentos técnicos, irão subtrair dessas organizações muitas qualificações essenciais. De forma similar, restringir o quadro de oficiais das operações espaciais irá constituir-se em um erro deplorável. O que Mahan aconselha?
Teria eu, então, subvalorizado a ciência? Teria eu ignorado as grandes transformações que ela tem promovido nos equipamentos e sistemas de guerra naval, ou então negado a necessidade de pessoas completamente imbuídas do espírito científico e conhecedoras de suas verdades? De modo algum. Simplesmente afirmo que, enquanto os processos pelos quais os resultados da pesquisa científica são obtidos sejam trabalhosos e difíceis, os resultados, em si mesmos, para propósitos navais, são instrumentos de fácil compreensão e emprego inteligente; o emprego prático desses resultados, sob as diversas e freqüentemente árduas condições no mar e em combate, demandam outras qualidades e experiência bastante diferentes daquelas de investigadores e técnicos. Conseqüentemente, a devoção à ciência e a produção de instrumentos de guerra, desde o navio em si mesmo até seus componentes, deveria ser atinente a uma parcela de uma relativamente pequena classe de especialistas.16
A conclusão de Mahan é tão relevante para os militares da força espacial de hoje como o era para os militares da força naval de seu tempo. Ele não subestimou a ciência ou a necessidade de oficiais qualificados em ciências e engenharia—nem devemos nós. Uma organização militar deve possuir múltiplas e variadas qualificações em seu corpo de oficiais. Tradicionalmente, os oficiais da Armada e os operadores do Exército e da Força Aérea têm provido os “generalistas” de seus corpos de oficiais. Os cursos de treinamento militar os preparam para se tornarem marinheiros, pilotos ou infantes, os quais combatem munidos das qualificações que aprendem. Após comissões operacionais, eles, então, tornam-se estrategistas, teóricos, planejadores, instrutores e líderes. Suas qualificações acadêmicas freqüentemente determinam as funções que irão ocupar após suas comissões operacionais. Um oficial de infantaria com um diploma em língua inglesa está especialmente qualificado para tornar-se um instrutor de inglês na academia de sua Força. Um tripulante de submarino com formação em história militar está academicamente equipado para tornar-se um estrategista. Nem todas as funções militares se adequam igualmente aos diplomas técnicos.
A força espacial não é diferente de outras forças em outras Forças Singulares. Um diploma em História pode ter muito mais relevância para o planejamento e reorganização da força espacial do que um em astronáutica. A educação em ciências políticas pode mostrar-se muito mais necessária do que administração de empresas para teóricos do poder espacial. Para a consecução das inúmeras tarefas de natureza militar no espaço, necessitamos de oficiais especializados em operações espaciais dotados de uma diversidade de formações. Oficiais com educação técnica e humanística devem compor um conjunto heterogêneo de peritos dedicados ao poder espacial americano. Tornar todos os oficiais especializados em operações espaciais em especialistas em aquisição irá privar o corpo de oficiais da força espacial das qualificações essenciais para sustentar qualquer organização militar. Ao final do século XIX, Mahan nos alertou contra deixar as qualificações dos engenheiros ofuscarem as dos oficiais combatentes. Em vez disso, ele nos aconselha a fortalecer e aumentar o quadro de especialistas, deixando os oficiais de carreira livres para estudarem outros temas necessários para o exercício do oficialato. No início do Século XXI, o Comando Espacial tem-se aproximado perigosamente do modelo que Mahan lutou por evitar. Poderíamos ganhar muito observando o conselho de um dos maiores gênios militares americanos.
1. Slides de brifim, Peterson AFB, CO, assunto: Palestra
Itinerante sobre o Desenvolvimento Profissional para o Espaço, 15 de julho de
2004, https://halfway.peterson
.af.mil/spacepro.
2. “Processo de Certificação,” Desenvolvimento Profissional para o Espaço, https://halfway.peterson.af.mil/spacepro/measurable.htm.
3. Capitão-de-Corveta A. T. Mahan, “Educação Naval,” United States Naval Institute Proceedings 5 (1879): 349.
4. Ibid., 347.
5. Ibid., 346.
6. “Master of Engineering, Space Operations,” Faculdade de Engenharia e Ciência Aplicada, Universidade do Colorado–Colorado Springs, http://mae.uccs.edu/rrap pold/moe_space_operations.htm.
7. Mahan, “Naval Education,” 348.
8. Ibid., 350.
9. Ibid., 352.
10. Ibid., 346.
11. Relatório da Comissão de Avaliação da Segurança Nacional dos Estados Unidos nos aspectos de Gestão Espacial e Organização (Washington, DC: A Comissão, 2001), 45, http://www.defenselink.mil/pubs/space20010111.html.
12. Ibid., 13, 42.
13. Ibid.
14. Ibid., 80.
15. “Os interesses americanos no espaço podem vir, em última análise, a exigir a criação de um Corpo do Espaço, ou um Departamento do Espaço, para organizar, adestrar e equipar forças para operações espaciais sustentadas. Por essa razão, a atribuição de responsabilidades sob o mandato do Título 10 para a Força Aérea pelo Congresso e sua designação como Agência Executiva para o Espaço subordinado ao Departamento de Defesa é uma recomendação que estabelece os fundamentos para tal ação no futuro.” Ibid., 93.
16. Mahan, “Educação Naval,” 352.
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O Primeiro-Tenente Brent D. Ziarnick (Academia da Força Aérea dos EUA) é analista de sistemas de espaçonaves no 2º Esquadrão de Operações Espaciais (GPS), Base Aérea Schriever, Colorado. Anteriormente, foi submetido ao Treinamento Inicial de Qualificação e Treinamento Específico para Oficiais de Operações Espaciais na Base Aérea Vandenberg, Califórnia. O Ten Ziarnick já tem outro artigo publicado na Air & Space Power Journal. |
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