Documento criado em 01 Fevereiro 08
ASPJ Em
Português 1° Trimestre 2008
B-17 at War, de Bill Yenne. Zenith Press (http://www.zenithpress.com), 729 Prospect Avenue, P.O. Box 1, Osceola, Wisconsin 54020, 2006, 128 páginas, US$19.95 (brochura).
Quando as pessoas pensam no poder aéreo norte-americano na Segunda Guerra Mundial, destacam-se diversas imagens. Talvez não haja qualquer outro ícone mais atrativo do que a silhueta elegante do magnífico B-17 Flying Fortress (Fortaleza Voadora) da Boeing. Quer pintado de verdade oliva, quer resplandecente em seu acabamento prateado natural, sem pintura, essa aeronave, armada com metralhadoras calibre .50, causava medo e exigia respeito de seus adversários alemães da Luftwaffe. Contra esse fundo, Bill Yenne acrescenta uma obra à já superpopulada história desse surpreendente avião.
Residente em San Francisco, Yenne escreveu mais de duas dúzias de livros a respeito das forças armadas, aviação e outros tópicos históricos, inclusive o excelente Story of the Boeing Company (Zenith Press, 2005). Por seu conhecimento da história de uma das companhias mais importantes dos Estados Unidos, não é surpresa que o autor tenha decidido estreitar seu foco para se concentrar em uma das mais importantes aeronaves da Boeing. O que é surpreendente, todavia, é a falta de detalhes nessa brochura bastante cara.
Como outros autores da série At War da editora, Yenne provavelmente teve de restringir a história dos B-17, tanto quanto possível, para caber em um número limitado de páginas. Considerando-se a pletora de livros disponíveis a respeito do B-17, muitos deles com centenas de páginas, tentar colocar a história inteira de uma máquina tão magnífica em menos de 130 páginas não é uma façanha pequena. Não admira que o autor não chegue a conseguir o que tentou.
Embora B-17 at War contenha mais de 100 fotografias excelentes, 32 delas coloridas, não inclui desenhos em cortes, gravuras coloridas, comparações de perfil entre as diferentes versões dos B-17 ou mapas das áreas de operação na Europa, no Pacífico ou no Mediterrâneo. Embora o desenvolvimento de formações de combat box, que ajudaram a frustrar os ataques de caças da Luftwaffe, tenha contribuído para o êxito dos B-17, não se encontra qualquer menção ou ilustrações detalhadas delas. O livro, porém, narra a pouco conhecida e, entretanto, interessante história operacional dos B-17 no Pacífico. Embora B-17 at War faça um minucioso inventário da aeronave durante meses escolhidos, bem como do número de suas diversas versões e especificações, ele jamais decola completamente como uma obra significativa de história. Por exemplo, Yenne fala dos YB-40 (a versão armada do B-17), mas não apresenta qualquer foto dessa aeronave. Dito de modo simples, B-17 at War dá uma visão das operações dos B-17 em base quase cotidiana, todo ele ilustrado com fotografias, mas apresenta pouquíssimas informações novas, nenhuma análise minuciosa das operações de bombardeio e muito poucas histórias dos homens que pilotaram esse grande avião em combate.
Apesar de sua apresentação simples e honesta, acho difícil recomendar este livro, já que apresenta pouco ou nada em termos de significado histórico; em realidade, é uma repetição das dezenas de outros livros a respeito dos B-17 já existentes no mercado. Se os leitores quiserem outro livro sobre os B-17, com várias fotografias novas e muitas das outras que aparecem em outros livros, então talvez queiram acrescentá-lo à sua coleção. Se, porém, preferem uma visão nova dos B-17, juntamente com novas histórias de bravura e coragem sob o fogo, então B-17 at War não é para eles.
Ten Cel Robert F. Tate, USAFR
Maxwell AFB, Alabama
Responsibility of Command: How UN and NATO Commanders Influenced Airpower over Bosnia, de Col Mark A. Bucknam. Air University Press (http://www.au.af.mil/au/aul/aupress), 131 West Shumacher Avenue, Maxwell AFB, Alabama 36112-6615, 2003, 428 páginas, US$40.00 (brochura). Disponível para download em http://www.au.af.mil/au/aul/aupress/Books/Bucknam/Bucknam.pdf.
Em 1991, o poder aéreo norte-americano renasceu sobre as areias do deserto, entre a Cidade de Kuwait e Bagdá. Na década que se seguiu, os elaboradores da política fizeram uso intensivo do poder aéreo e de sua promessa de precisão e eficácia aparentemente ilimitadas. As florestas e as colinas da antiga Iugoslávia que se desintegrava representaram os desafios seguintes para o poder aéreo: a Bósnia, no período de 1992-95, e Kosovo, em 1999. Chamando-se esses esforços de êxito ou de fracasso, eles destacam os desafios políticos de se empregar e controlar a violência a partir do ar, em situações menos propícias ao emprego do poder aéreo do que a primeira Guerra de Golfo. O Coronel Bucknam trata da primeira dessas intervenções: a guerra aérea na Bósnia, que começou como a Operação Deny Flight e terminou como a Operação Deliberate Force.
Por meio de entrevistas e de um estudo de documentos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e das Nações Unidas, Bucknam mostra como os comandantes dos escalões superiores—de todas as nacionalidades—buscaram controlar o poder aéreo para alcançar seus objetivos particulares. Ele particulariza essas intervenções enquanto se desenvolveram, tanto através da cadeia de comando, quanto ao redor dela, conforme as circunstâncias impunham. Previsivelmente, ele conclui que os comandantes usaram a sua perícia militar para obter influência sobre o poder aéreo a partir dos elaboradores da política. O surpreendente é que ele mostra como os comandantes não só influenciaram os detalhes da intervenção militar, mas também começaram a atuar, eles mesmos, como elaboradores de política. O Coronel Bucknam mostra de que modo essa prática foi especialmente verdadeira no caso dos comandantes da OTAN, cujos planejamentos de poder aéreo (complementados pelos da Força Aérea dos EUA na Europa) freqüentemente dirigiram a escolha de possíveis opções de política. Essa conclusão é um dos muitos descortinos valiosos apresentados por Responsibility of Command, que deveria ser lido por qualquer um que queira saber mais a respeito de como o poder aéreo funciona, tanto na manutenção da paz quanto na guerra de coalizão.
Cap Tim Spaulding, USAF
Royal Air Force Lakenheath, Reino Unido
Prisoners: A Novel of World War II, de Burt Zollo. Academy Chicago Publishers (http://www.academychicago.com), 11030 South Langley Avenue, Chicago, Illinois 60628, 2003, 275 páginas, US$22.50 (encadernado).
Nos meses que se seguiram à invasão da Normandia, em junho de 1944, o Exército alemão começou sua longa retirada para leste. Ao fazê-lo, um número crescente de prisioneiros de guerra (PG) alemães caíram em mãos Aliadas. Por serem vinculados os recursos para as forças Aliadas que travavam a guerra—para terminá-la tão depressa quanto possível e, assim, poupar vidas—, cuidar de dezenas de milhares de PG alemães tornou-se uma baixa prioridade. Indubitavelmente, o fato de que muitos deles sofreram e morreram em cativeiro deu lugar à surpreendente acusação de James Bacque—que aparece em seu livro panfletário, Other Losses, em 1989—de que o Supremo Comandante Aliado, Dwight Eisenhower, tentou, deliberadamente, deixar morrer de fome e matar, de outros modos, os PG alemães. Historiadores militares respeitáveis examinaram rapidamente as declarações de Bacque e concluíram, de modo convincente, que tal política e massacre jamais existiram. Agora, chega Burt Zollo, antigo soldado do Exército dos EUA, que serviu em um desses campos de PG próximo do fim da guerra, e escreve um relato fictício de tal campo. Ao fazê-lo, ele dá credibilidade às acusações ridículas de uma política Aliada de inanição deliberada.
O enredo de Zollo não é brilhante: “Sandy” Delman, jovem soldado americano e judeu, trabalhando em um dos campos de PG, sente-se tão revoltado com o tratamento infligido aos alemães que decide entrar em ação e vai diretamente ao Tenente-Coronel Nelson, chefe do campo, para propor um plano. Delman sugere tomar um comboio de caminhões—dirigidos por PG alemães—para abastecer depósitos próximos da linha de frente e requisitar diretamente alimentos e materiais. Os pedidos de Nelson de comida, roupa e medicamentos permaneceram ignorados pelos superiores, que, aparentemente, estavam satisfeitos em deixar que os prisioneiros morressem por negligência. Com efeito, Zollo faz um oficial de alta patente exclamar: “Não tenho que alimentar e vestir nazistas [palavrão suprimido]” (pág. 160). Nelson concorda com o esquema de Delman, mas um dos motoristas PG—oficial da SS disfarçado de soldado—planeja uma fuga e leva um refém (coincidentemente, o melhor amigo de Delman). Delman rastreia o foragido sozinho, ajusta as contas com o oficial da SS, salva seu amigo e volta para o campo com um comboio repleto de mantimentos. É claro que ele não recebe qualquer crédito por suas ações. Parece que o Exército é assim.
Prisoners mal merece uma resenha e, certamente, não vale a pena ser lido, mas julguei necessário chamar a atenção à premissa falha subjacente a respeito da “política” norte-americana de matar prisioneiros. Simplesmente não foi esse o caso.
Cel R1 Phillip S. Meilinger, USAF
West Chicago, Illinois
Realizing the Dream of Flight: Biographical Essays in Honor of the Centennial of Flight, 1903-2003, organizado por Virginia P. Dawson e Mark D. Bowles. NASA History Division (http://www.hq .nasa.gov/office/pao/History/history.html), 300 E Street SW, Washington, DC 20546, 2005, 326 páginas, US$20.00 (encadernado). Para encomendar, escrever para NASA Center for Aerospace Information, 7121 Standard Drive, Hanover, Maryland 21076. Disponível online em http://history.nasa.gov/sp4112.pdf.
Realizing the Dream of Flight, antologia organizada por Virginia Dawson e Mark Bowles, consiste em trabalhos acadêmicos apresentados na conferência que comemorou os 100 anos da aviação; também inclui um DVD que traz os registros da conferência. Organizado com competência, muito bem produzido e contendo um índice bastante útil, esse livro, como a maioria das antologias, não se prende a um tema comum além da aviação e do espaço, e a qualidade dos trabalhos varia. Seus autores, muitos dos quais tratam de seus próprios interesses particulares da pesquisa, são historiadores altamente qualificados e bons escritores, mas apenas Alan Gropman tem alguma experiência prática em aviação de combate.
Seu ensaio refere-se ao Gen Benjamin O. Davis Jr., um dos principais participantes da penosa integração dos negros nas Forças Armadas dos Estados Unidos e um dos alicerces do livro seminal de Gropman, The Air Force Integrates, 1945-1964 (1978). Outro ensaio, na categoria “Military Strategists” (veja-se a introdução do livro, pág. xi), é uma composição de Tami Davis Biddle a respeito do Gen Curtis E. LeMay, participante central de seu importante livro Rhetoric and Reality in Air Warfare: The Evolution of British and American Ideas about Strategic Bombing, 1914-1945 (2002). Nem Davis nem LeMay estavam presentes na criação da aviação, que já havia amadurecido muito na época em que adquiriram seus brevês. Se a conferência precisava incluir as equipagens operacionais na história, então fica-se surpreso com a ausência total de aviadores navais.
Nos dois primeiros ensaios, as estudiosas feministas Amy Sue Bix e Susan Ware escrevem, respectivamente, a respeito de Bessie Coleman e Amelia Earhart. Mais próxima do início da aviação, Coleman não alcançou a fama de Earhart, e ambas morreram em acidentes aéreos enquanto eram jovens, interrompendo quaisquer outras contribuições que pudessem ter feito. Ware certamente consegue defender o ponto de vista válido de que as mulheres pareciam desempenhar um papel maior na era pioneira, do que o fizeram depois que a aviação tornou-se mais lucrativa, atribuindo o fato à discriminação sexual. Todavia, o grande livro de Betty Friedan, The Feminine Mystique (1963), defende o ponto de vista de que a primeira onda de feminismo desapareceu após a passagem da 19ª Emenda e só ressuscitou quando a segunda onda começasse a se formar, nos anos de 1960. Penso que ela explicou que, como fenômeno cultural, o movimento incluiu as idéias de muitas mulheres, bem como os preconceitos masculinos. Em todo caso, as duas aviadoras tiveram um importante apoiador moral e financeiro: em ambos os casos, um homem.
A antologia também inclui três excelentes ensaios da autoria de William M. Leary, W. David Lewis e Roger Bilstein, a respeito do surgimento da aviação como empreendimento lucrativo durante os anos de 1930. Leary trata da colaboração de Charles Lindbergh e Juan Trippe na construção da Pan-American Airways; Lewis escreve a respeito do papel representado por Eddie Rickenbacker, Johnny Miller e a Eastern Airlines no correio aéreo militar; e Bilstein apresenta um relato da ascensão e queda de Donald Douglas. Posteriormente, Tom D. Crouch, Michael Gorn, Andrew J. Dunar e Roger Launius—todos excelentes historiadores da tecnologia aérea e espacial—contribuem com capítulos a respeito da gênese e do amadurecendo da era espacial. A maioria deles trata de figuras não muito conhecidas pelos oficiais da Força Aérea: Willy Ley, um escritor a respeito do espaço; Hugh Dryden, cientista e administrador; e Robert Gilruth, um influente dirigente do programa de vôo espacial tripulado, que viveu à sombra dos astronautas. O outro ensaio—a respeito de Wernher von Braun, que estava presente na criação da era espacial—é um artigo estimulante.
Os demais capítulos são provavelmente considerados suficientes para qualquer programa de leitura profissional do oficial da Força Aérea, mas este ou esta gostará mais do livro de Gropman, a respeito da integração, e do de Biddle, acerca de bombardeio estratégico, para as minúcias necessárias à carreira militar. Os ensaios a respeito da aviação comercial e do desenvolvimento espacial da NASA são resumos freqüentemente tirados de outros livros, mas suficientes para o combatente aéreo moderno. Embora Realizing the Dream of Flight não forme um todo coerente, talvez mereça um lugar mediano nas listas de leituras dos oficiais, se estes já tiverem um conhecimento razoavelmente seguro da história do poder aéreo e espacial.
Dr. David R. Mets
Maxwell AFB, Alabama
Pacific Skies: American Flyers in World War II, de Jerome Klinkowitz. University Press of Mississippi (http://www.upress.state.ms.us), 3825 Ridgewood Road, Jackson, Mississippi 39211-6492, 2004, 256 páginas, US$32.00 (encadernado).
O professor inglês Jerome Klinkowitz escreveu extensamente a respeito da Segunda Guerra Mundial com livros como: Their Finest Hours: Narratives of the R.A.F. and Luftwaffe in World War II (1989), Yanks over Europe: American Flyers in World War II (1996) e With the Tigers over China, 1941-1942 (1999). Em Pacific Skies, ele leva o que é familiar para uma nova direção, deixando os arquivos para os historiadores e usando como material as narrativas escritas por participantes, tanto durante a guerra quanto no meio século que se seguiu. Tendo espaço para apenas 100 das milhares de memórias e biografias disponíveis, Klinkowitz é necessariamente seletivo em suas escolhas. Sua seleção parece representativa, incluindo as obras clássicas, bem como as relativamente obscuras, e usa os textos de veteranos tanto norte-americanos quanto japoneses.
O livro tem duas partes. Primeiro, o autor retraça a guerra cronologicamente, dividindo-a em quatro partes: tempo de paz e a súbita eclosão da guerra, a vantagem japonesa, a virada da maré e a mudança de tratamento no final da guerra, incluindo-se os kamikazes e o bombardeio a baixa altura. Essa não é uma clássica narrativa sobre batalhas e seus líderes; o livro apresenta não só os velhos relatos familiares de Curtis LeMay, Jimmy Doolittle e “Pappy” Boyington, mas também (e mais freqüentemente) os de diversos ases, heróis e aviadores comuns. Relaciona uma guerra pessoal, em vez da guerra oficial. A primeira seção consiste na introdução e em todos os capítulos temáticos (“Going to War in Peacetime”, “An Air War at Sea and on Land”, “Tales of the South Pacific” e “Endgame”), exceto um.
“Endgame” expõe a fase final da guerra, caracterizada por kamikazes e o bombardeio do Japão. A brutalidade crescente da guerra nesse período fornece um gancho natural para a outra parte do livro, a parte temática. Nessa seção, Klinkowitz examina as atitudes dos adversários, as bases filosóficas e as motivações, e o modo pelo qual o inimigo era percebido. Também traça distinções entre a natureza da guerra no Pacífico e na Europa. Além disso, trata de um fenômeno estranho: a porcentagem invulgarmente grande de veteranos do Pacífico, que se voltou para a religião de um modo ou outro, depois da guerra.
Escritor refinado e experiente, Klinkowitz tem 40 livros publicados e sabe contar uma história. A narrativa é bem entrosada, praticamente em todo o trabalho. Encontramos um pequeno deslize no final, quando Klinkowitz discute de maneira unilateral os debates a respeito do lançamento das bombas atômicas. Sua tentativa de tornar os kamikazes explicáveis é adequada, mas insatisfatória. Ele também parece ter escrito a seção filosófica sem levar em consideração Wartime: Understanding and Behavior in the Second World War, de Paul Fussell, escrito em 1989, mas que se pode argumentar ainda ser o melhor estudo das atitudes e motivações da guerra no Pacífico. Apesar dessas deficiências, porém, Pacific Skies compensa as horas que se leva para lê-lo.
John H. Barnhill, PhD
Houston, Texas
Soldiers and Ghosts: A History of Battle in Classical Antiquity, de J. E. Lendon. Yale University Press (http://www.yale.edu/yup), P.O. Box 209040, New Haven, Connecticut 06520-9040, 2005, 480 páginas, US$35.00 (encadernado), US$20.00 (brochura).
Era uma vez uma campanha de anúncios promovendo bibliotecas públicas, cujo tema declarava: “Você é o que lê”. Essa promoção enfatizava a idéia de que o aumento da quantidade de material lido moldaria a pessoa, tornando-a mais instruída e mais produtiva. Nada poderia ilustrar esse conceito de maneira mais efetiva do que usar a Grécia e Roma antigas como exemplos a serem seguidos. O livro Soldiers and Ghosts, de J. E. Lendon, algo muito distinto de um conto de fadas ou de uma campanha publicitária, dá ao leitor uma avaliação muito completa a respeito da razão pela qual as forças militares dessas duas culturas se tornaram o que leram. Através das páginas da história grega e romana, ele nos mostra decisivamente que nenhuma dessas culturas sofria de escassez de leitura e que ambas tiveram ampla oportunidade para pôr em prática o que leram.
Lendon começa com uma revisão da mentalidade e da cultura militar dos gregos—uma importante introdução, porque estabelece o palco histórico para o livro inteiro. Observando que os antigos gregos basearam muitos de seus princípios de combate na Ilíada, escrita ao redor de 700 a.C., ele acentua que vários historiadores se referem aos poemas homéricos como a bíblia dos gregos (pág. 36). Lendon observa, além disso, que os gregos basearam seus princípios de combate não tanto na disciplina e na ordem militares, familiares aos combatentes modernos, mas nas características de uma equipe esportiva. Quer dizer, a guerra tornara-se uma competição, com os concorrentes batalhando mais pelo reconhecimento como o mais bravo ou o mais glorioso (como na Ilíada) do que por ter seu general ordenado que eles lutassem.
Essa mentalidade atua ao longo de toda a história militar dos gregos—a partir da filosofia e da cultura de conduta na guerra, de Esparta—e culmina com a discussão da campanha de Alexandre Magno no Oriente Médio (ela própria homérica em proporção e ação). Tal mentalidade também se insinua no uso e na evolução das formações militares dos gregos, desde 500 a.C. até o começo de 200-300 d.C. A tecnologia raramente efetuou mudanças no método grego; com efeito, os gregos haviam abandonado os progressos em tecnologia militar em favor da implementação de interpretações dos escritos e debates históricos a respeito da “maneira certa” de conduzir a guerra e comportar-se nela.
Em toda essa revisão da história e análise dos escritos gregos, Lendon mostra ao leitor como a filosofia militar grega operava, por que operava daquele modo e as conclusões naturais dessa conduta. Optando por não se preocupar apenas com o lado militar do assunto, Soldiers and Ghosts também explora as conexões civis e políticas da sociedade grega, já que os gregos acreditavam inicialmente em um cidadão-soldado, tanto quanto os norte-americanos (mas em um contexto um pouco diferente). Ao longo deste estudo, a pessoa encontra o suporte de que os escritos gregos, arraigados em ideais e nas interpretações da Ilíada, constituíram o alicerce para a psique e a doutrina militar dos gregos.
Lendon utiliza a segundo metade de Soldiers and Ghosts para discutir Roma e sua elevação como república, bem como sua queda como império. Os romanos também acreditavam no conceito de cidadão-soldado, mas com um toque romano. Como os gregos, eles basearam sua psique e doutrina militar em suas leituras históricas (algumas das quais foram provavelmente falsas narrativas remotamente baseadas em algum acontecimento histórico). À medida que a consciência cultural dos romanos crescia durante os primeiros dois séculos d.C., também crescia o interesse deles na Grécia “antiga”. Sem insistir nesse ponto já discutido, é suficiente dizer que o autor faz um trabalho igualmente admirável ao avaliar a psique civil e de guerra romanas, bem como sua aplicação a campanhas militares, enquanto Roma crescia e, depois, entrava em decadência.
Por que um livro tão obscuro como Soldiers and Ghosts é importante para os defensores do poder aéreo e espacial de hoje? Todos nós nos lembramos do bordão de Sun Tzu: “Conhece teu inimigo como a ti mesmo”. Para melhor prever o inimigo, é importante não apenas descobrir o que ele faria, mas também por que faria “essa coisa” daquela maneira. Essa é a base racional que Lendon apresenta—de modo muito eficaz! Os gregos e romanos se comportaram como se comportaram, na maior parte das vezes, por causa das leituras que incorporaram a suas culturas militar e civil. Nossas forças armadas empregam sua doutrina do modo que o fazem, baseando-se em lições aprendidas e leituras profissionais continuadas; de maneira parecida, as pessoas em nossa sociedade vêem os ideais militares como vêem, baseadas no que lêem e vêem. Não é irrealista dizer que outras forças armadas e sociedades, do passado e do presente, funcionam de modo semelhante.
Minha única queixa a respeito de Soldiers and Ghosts envolve as constantes digressões colaterais dentro dos capítulos, que o autor usa para elaborar argumentos ulteriores. Imagine você ir a uma conferência sobre matemática e ver um tópico de ciências sociais surgir na lousa do professor e ser discutido durante 10 minutos. Finalmente, todos esses pontos que Lendon levanta voltam no final do capítulo. Alguns ajudam a esclarecer os pontos principais ou até mesmo expor novos pontos que os outros capítulos desenvolvem. Ainda assim, os saltos repentinos de um tópico para outro completamente diferente, na mesma página, distraíram a atenção—eu freqüentemente me perguntava aonde ele queria chegar.
Não obstante, o estudo de Lendon é uma leitura muito agradável a respeito da Grécia e de Roma antigas. E o que é mais importante, oferece ao leitor as ferramentas para refletir quanto a outras forças armadas e suas sociedades—uma habilidade que pode, sem dúvida, revelar-se benéfica para os analistas e planejadores futuros na presente guerra global contra o terrorismo. Soldiers and Ghosts ganha meu voto como leitura obrigatória.
Maj Paul Niesen, USAF
Scott AFB, Illinois
The Intelligence Archipelago: The Community’s Struggle to Reform in the Globalized Era, de Melanie M. H. Gutjahr. Joint Military Intelligence College (http://www.dia.mil/college/index.htm), 200 MacDill Boulevard, Washington, DC 20340-5100, 2005, 283 páginas.
The Intelligence Archipelago examina os esforços para reformar a comunidade de inteligência que remontam à Segunda Guerra Mundial. Escrito por Melanie Gutjahr (profissional de inteligência com mais de 25 anos de experiência), durante uma permanência de um ano no Centro de Pesquisas de Inteligência Estratégica da Joint Military Intelligence College, o livro mostra que reformar a inteligência é difícil e, às vezes, impossível, graças a lutas por influência, disputas parlamentares, falta de recursos e conflitos de personalidades. O que é mais importante, o estudo documenta a luta para alterar os caminhos da comunidade de inteligência após o colapso da União Soviética e o surgimento de um mundo novo, globalizado.
Gutjahr recorre à Agência de Segurança Nacional e sua luta para interceptar e monitorar os novos meios de comunicação, como a Internet, com que a agência não teve de lidar durante a Guerra Fria. À medida em que os componentes da comunidade de inteligência debatiam-se com novas tarefas, uma série de fracassos de inteligência parecia acompanhar o surgimento de novos grupos de terroristas radicais islâmicos. Os testes nucleares da Índia, o lançamento de mísseis pela Coréia do Norte e a proliferação de materiais nucleares foram acrescentados aos males da comunidade. As tentativas do Congresso para mudar a comunidade depois do colapso da União Soviética e o aparecimento de uma nova ordem global, nos anos de 1990, ilustram a dificuldade de algumas dessas disputas entre os poderes executivo e legislativo. Do ponto de vista de uma historiadora, a autora presta um serviço útil para qualquer um que tenta coletar informação a respeito do que vazou das Comissões de Inteligência da Câmara e do Senado durante esses anos turbulentos.
Segundo Gutjahr, a definição de “reforma de inteligência” e o que ela deve abranger envolvem a maioria dos movimentos de reforma, não importa se provenientes do poder executivo ou do poder legislativo. Outros argumentaram que, na era global do pós-Guerra Fria, a inteligência é adaptável e a comunidade precisa se reformar o tempo todo. A reforma deveria acontecer como uma série perpétua de tarefas de aperfeiçoamento de processos ao longo da comunidade. Os processos e procedimentos que garantem êxito contra os oponentes de hoje não funcionarão com o inimigo de amanhã, que mostrou sua adaptabilidade e capacidade de manobrar dentro de nossos ciclos de decisão—daí a necessidade de reformar a inteligência. Acreditando que a comunidade de inteligência permanece cativa da estrutura de 1947, a autora defende mudanças de longo alcance, que o Congresso, em 2004, não pôde reunir os votos para aprovar.
The Intelligence Archipelago cobre toda a questão da comunidade de inteligência durante os últimos 15 anos—incluindo assuntos transnacionais que surgiram com a proliferação de tecnologias, a criação da National Imagery and Mapping Agency (agora, a National Geospatial-Intelligence Agency) e o aparecimento de terroristas com apoio estatal. Os oficiais da inteligência reconhecerão todos os problemas e situações descritas no livro, emprestando-lhe a credibilidade que falta a tantos outros textos sobre a reforma.
Gutjahr também trata dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e das tentativas subseqüentes de reforma, utilizando dados da Comissão Nacional sobre Ataques Terroristas aos Estados Unidos (a Comissão 11/9), para ilustrar a natureza sistemática das falhas da inteligência. Em seguida, ela examina, em detalhes, o relatório da comissão e volta sua atenção para as lutas que acompanharam a criação do cargo de diretor da inteligência nacional. Sua exposição pormenorizada ajuda o leitor a compreender as colocações complexas na comunidade de inteligência, enquanto o Congresso inevitavelmente tornava a reforma obrigatória. Tal reforma é emperrada pela falta de uma visão compartilhada entre a comunidade de inteligência, de um lado, e o Congresso e o presidente, do outro. Algumas das histórias de Gutjahr sugerem que houve melhoras, mas outras mostram que os processos burocráticos profundamente imbuídos na comunidade não mudaram.
Vamos admitir, o texto tem problemas que surgem tipicamente quando autores tentam transformar uma tese acadêmica em um livro—quer dizer, demasiadas citações, diagramação imperfeita e verbosidade que tornam difícil para o leitor acompanhar os argumentos principais da autora. Não obstante, essas falhas não deveriam de modo algum deter o profissional de inteligência, o historiador ou o cientista político de estudar os dados que ali se encontram. The Intelligence Archipelago é uma mina de ouro de informação, e os anexos—uma coleção de decretos e leis—mostram o caminho da reforma para a atual comunidade de inteligência. Recomendo-o enfaticamente aos oficiais, profissionais de inteligência e qualquer um que se interesse pela reforma do governo.
Cap R1 Gilles Van Nederveen, USAF
Fairfax, Virginia
As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade do Ar ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.
[ Home Page |
Emita sua opinião via Email a: aspjportuguese@maxwell.af.mil]