Ficção
uma forma superior de verdade?
The Art of Uncontrolled Flight, de Kim Ponders. HarperCollins Publishers (http://www .harpercollins.com), 10 East 53d Street, New York, New York 10022, 2005, 192 pages, $19.95 (hardcover); 2007, 208 pages, $13.95 (trade paperback).
The Last Blue Mile, de Kim Ponders. HarperCollins Publishers (http://www.harpercollins.com), 10 East 53d Street, New York, New York 10022, 2007, 320 pages, $24.95 (hardcover).
Raramente resenho uma obra de ficção, e também é raro que o Air and Space Power
Journal publique
ensaios assim. Entretanto, The Art of Uncontrolled Flight éum
caso especial. Também o é The Last Blue Mile, uma espécie de prosseguimento.
Ambos têm como tema a atual Força Aérea, interesse principal desta revista, e
ambos são de Kim Ponders – major da reserva da Força Aérea. Ela se formou na
Universidade de Syracuse, cursou a Officer Training School, em 1989, e, em
seguida, serviu como controladora de armas, voando na extremidade traseira de
uma aeronave de alerta antecipado do sistema de controle e alerta
aerotransportado (AWACS). Isto ela fez em diversas partes do mundo, tendo sido
uma das primeiras mulheres a obter crédito por horas de vôos em combate na
operação Tempestade no Deserto. Nessa trajetória, conheceu seu futuro marido,
Bill Ponders, também um oficial de AWACS da Força Aérea. Agora, moram no sul de
New Hampshire, com seus dois filhos. Ela continua a ser major na Reserva da
Força Aérea e trabalha como redatora de discursos de seu chefe, o Tte Gen John
Bradley.
Sua primeira novela, The Art of Uncontrolled Flight, revelou-se um êxito. Algumas vezes penso que as novelas podem corporificar uma forma mais elevada deverdade do que, digamos, biografias ou narrativas históricas. Muitos de nós acha que algumas idéias não estão documentadas – mas aderimos fortemente a considerá-las verdadeiras pelo nosso discernimento intuitivo. Desse modo, um ficcionista pode introduzi-las em sua obra, mas o historiador ou biógrafo não podem, pela questão da documentação: elas não podem ser provadas no tribunal. Evidentemente uma escritora acima da média, Ponders aproxima-se, não obstante, às vezes, do uso de uma linguagem rebuscada. Neste livro, ela escreve em grande medida a partir de sua própria experiência, o que dá credibilidade à novela, embora permaneça uma questão aberta se ela alcança o nível de uma forma mais elevada de verdade.
A heroína, Annie Shaw, teve uma infância difícil, vivendo na companhia de um pai que troca freqüentemente de namoradas, depois que a mãe dela morreu, quando ela era muito jovem. Ela adora o pai e tem um complexo de culpa quanto à morte da mãe, o que complica sua trajetória na Força Aérea. Co-piloto de AWACS, Annie é casada com um homem bom e fiel – um civil empregado na indústria de petróleo – mas apaixona-se pelo comandante de sua aeronave. Mantendo-se no estilo atual do negócio das novelas, ela dorme com ele durante suas diversas viagens. Quando lhes toca o combate, nos momentos em que o comandante deixa a nacele e ela assume o comando da aeronave, ela comete um sério erro e um míssil inimigo atinge o avião. Após a derrubada, Annie é a última a abandonar a aeronave, ajudando, entrementes, um homem da tripulação a conseguir sair. Ponders não edulcora a imagem de sua heroína, relatando, com ironia, que tanto ela quanto o comandante de sua aeronave recebem a Distinguished Flying Cross, embora tenha sido o erro deles a origem da perda do aeroplano. Ela também descreve realisticamente o entusiasmo da mídia, que torna a medalha de Annie um acontecimento, enquanto ignora a do comandante. Ainda assim, o incidente leva ao fim da carreira dela na Força Aérea e à sua passagem para a reserva, indo viver com o marido em um rancho, no Texas. A história não é completamente fantasiosa e, embora a Força Aérea tenha perdido somente um AWACS em um acidente, a idéia de membros da tripulação receberem condecorações em vez da merecida corte marcial não se limita ao mundo da ficção. Sem ser excepcional, The Art of Uncontrolled Flight representa, não obstante um entretenimento aceitável como leitura de fim de tarde.
The Last Blue Mile (como os cadetes chamam o corredor que leva ao gabinete do
comandante da Academia da Força Aérea) é mais substancioso. Muitos leitores
deste periódico que se graduaram pela Academia terão interesse em uma narrativa
a respeito de sua alma mater. Contudo, novamente, é uma questão em aberto se
este livro pode reivindicar uma forma de verdade mais elevada do que as
narrativas históricas. Neste caso, Ponders está mais afastada da experiência
pessoal (já que ela não freqüentou a Academia), o que, de algum modo, limita a
credibilidade da novela. Ela passou lá um par de semanas, entrevistando pessoas,
inclusive os então cadetes. É evidente que ela também obteve muito de
conhecimento da instituição por meio da imprensa – o que, em certa medida,
transparece em sua obra. Ela sustenta que o fato de não se ter graduado pela
academia não a desqualifica necessariamente em termos de autoridade para
escrever sobre a instituição – ao contrário, de certo modo isto pode aprimorar
sua capacidade. Tal qual Ponders, não freqüentei a Academia, mas vivi no campus
por quatro anos e posso atestar que a maior parte da descrição física do local
está correta (com um par de possíveis exceções: durante a maior parte de sua
história, Fairchild Hall não abrigou o gabinete do superintendente, e se há
cabras montesas nas vizinhanças, jamais vi alguma).
O livro tem um fluxo rápido. Parece que Ponders aproveitou-se da leitura dos jornais, construindo a história em torno de acontecimentos que começaram em 2003. Ela se concentra menos no escândalo de ataque sexual que ocorreu naquele ano do que na questão religiosa que alcançou as manchetes um par de anos mais tarde. A história estrutura-se a partir da hipótese de que as pessoas mais velhas e republicanas-conservadoras que haviam controlado o desenvolvimento da Academia sofreram a pressão do grupo evangélico de extrema direita Cadetes da Fraternidade Cristã, que ameaçava uma reação extremada aos acontecimentos de 2003. Esta organização tinha um amigo na corte, na pessoa do Cel Silas Metz, vice-comandante e rígido disciplinador, que se reportava ao comandante, Brig Gen John Waller – conservador, mas um pragmático flexível e piloto de caça tradicional, ele próprio graduado pela Academia. Acima dos dois, está a primeira superintendente do sexo feminino (e primeira general de três estrelas), Susan Long – uma engenheira/burocrata ainda a caminho de uma patente superior, usando, como veículo, algo que Ponders chama “Cultura de Transformação” (na intenção evidente de recordar a Agenda for Change, programa que o Estado-maior da Aeronáutica impôs à Academia, reagindo ao escândalo de ataque sexual de 2003.*
*A Força Aérea verdadeira tem, atualmente, uma Tenente-General, Terry Gabreski, mas a Academia ainda não teve uma superintendente do sexo feminino.
A heroína dos cadetes é uma moça de Massachusetts, Brook Searcy – basicamente honesta, porém um pouco ingênua. Outra cadete, Paula Snowe, filha de um senador que foi colega de faculdade da General Long, não é tão honesta assim e, na verdade, surge como principal figura em um escândalo de cola. Os cadetes do sexo masculino, em sua maior parte, têm, na história, papéis secundários. Um deles, contudo, um cadete de terceira classe chamado Bregs, comporta-se como um troglodita atormentando os novos cadetes. (A narrativa de como ele trata com quatro pedras nas mãos um cadete de quarta classe quanto a uma questão religiosa parece-me irrealista).
O tema do conflito religioso, no livro, parece-me exagerado – ainda mais do que nas reportagens dos jornais de 2005 e muitíssimo mais do que o que aparece no relatório dos investigadores que o chefe do estado-maior enviou, naquele verão, para examinar o problema. Ponders o constrói como um conflito trilateral, com Waller defendendo um tratamento ético, mas pragmático, Metz representando os evangélicos de extrema direita e a General Long preocupando-se o tempo todo com suas possibilidades de conseguir a quarta estrela, mantendo a situação sob controle. As complicações aparecem quando a filha do senador é apanhada colando. O General Waller quer aplicar o código de honra e expulsá-la, mas Long evita esse resultado, em parte por motivos egoístas de promoção e em parte pelo bem maior da causa feminista em nível nacional (à qual o senador serve como recurso).
The Last Blue Mile contém um par de cenas de sexo explícito, que parecem obrigatórias no atual mercado de novelas, uma envolvendo o General Waller e outra, a Cadete Searcy. Fora o jogar para a platéia, não fica claro, para mim, o propósito delas no desenvolvimento do enredo, especialmente no caso de Waller. No caso de Searcy, as circunstâncias do incidente parecem um tanto bizarras, mas não além do domínio das possibilidades. O que ocorre com ela cabe, certamente, na definição de ataque sexual e estupro durante um encontro romântico; além disso, o raciocínio que a leva a recusar queixa pela violação é palatável e certamente ajuda a compreender porque esses crimes são os menos denunciados em nossa sociedade.
Ponders gasta algumas páginas tratando das glórias do vôo em planador, talvez com base em entrevistas, que aparecem de novo quando o livro vai chegando ao clímax. Nossa cadete-heroína, junto com a filha do senador, sai da base e vai a uma festa, na qual a falta de juízo é responsável pelo consumo excessivo de bebida alcoólica. Um dos dois cadetes que as acompanhavam cai com um planador no dia seguinte, e a autópsia revela a presença de álcool, o que resulta em consternação geral.
O próprio clímax envolve tanto Searcy, subindo em um vôo não-autorizado que coloca sua sobrevivência em risco, quanto o General Waller, que corre atrás dela em um planador motorizado. Deixarei para os que lerem o livro a descoberta de se ele a impede ou não de seguir seu colega à sepultura, colidindo com uma montanha.
Quais são, então, as mensagens de The Last Blue Mile? Suponho que uma delas é transmitir a idéia de que a educação de oficiais não é um doce de coco. Os jovens têm suas próprias idéias. A política é importante. A ambição pessoal vai bem, obrigado. Outro tema sugere a existência de uma contradição intrínseca entre a necessidade que tem a Força Aérea de especialistas técnicos e a exigência de guerreiros. Um terceiro, ainda, implica a necessidade de um sistema de honra, que nem sempre é observado (em diversos níveis). Talvez se possa capturar tudo isso na idéia de que há um eterno conflito entre os valores tradicionais (e alguns deles são válidos) e os valores modernos (e alguns deles também são válidos). Infelizmente, a tendência da autora de estender-se em diversas excursões descritivas que não parecem ter conexão direta com o desenvolvimento dessas mensagens desvia a atenção da obra.
Por que deveria um estudioso-guerreiro ocupar-se com esta novela? Sem dúvida, ela é um entretenimento para o fim da tarde. Além disso, porém, os graduados pela Academia não encontrarão muito que seja novo para eles e também considerarão trechos como irrealistas – não como uma forma superior de verdade. Os que não a freqüentaram devem ser cautelosos, por causa da necessidade da novelista de exagerar para construir o drama e de usar estereótipos populares para fazê-lo (o que também não é, na verdade, uma forma superior de verdade). O primeiro livro de Ponders, The Art of Uncontrolled Flight, é preferível, porque reflete mais de perto a própria experiência dela. Os leitores que busquem uma visão realística da Academia estariam melhor servidos com uma história como The Air Force Academy: An Illustrated History, de George Fagan. Embora seja um livro promocional e um tanto datado, oferece, não obstante, a documentação adequada e um tratamento franco de acontecimentos como o escândalo de cola de 1965 e a integração das mulheres. Os que procurarem entretenimento junto com descortino militar devem consultar a enorme lista de ficção militar que seria de mais auxílio do que esta obra. Um de meus autores favoritos, C. S. Forester (Captain Horatio Hornblower, Sink the Bismarck, etc.) cobre mais do que apenas aspectos navais. A Guerra Civil Americana, dá oportunidade a um grande conjunto de obras – por exemplo, The Red Badge of Courage, de Stephen Crane. Os leitores que querem ficção que envolva o poder aéreo só precisam voltar-se para a Segunda Guerra Mundial, que deu origem a uma literatura imensa e que vale a pena, como The War Lover, de John Hersey. No final, porém, precisa-se concluir que não há uma forma superior de verdade – talvez verdades superiores, mas todas as visões, desde as semelhantes a de Ponders até as de Fagan, jamais podem ser senão aproximações da verdade. Recordamos, nesse sentido, o homem cego mandado examinar um elefante e relatar o que percebia, que produziu descrições diferentes – todas elas verdadeiras e nenhuma contendo toda verdade. Algumas aproximações são melhores do que outras, mas nenhuma é perfeita. Em seu estudo da guerra, os aspirantes a guerreiros aeronáuticos só podem esperar tornar abrangente seu programa de leitura profissional estudando tantas descrições diversas da guerra quanto seja possível e, então, acercando um pouco mais da realidade suas próprias aproximações.
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O Dr. David R. Mets (Bacharelado, Academia Naval dos EUA; Mestrado, Columbia University; Doutorado, University of Denver) é Analista Militar de Defesa no Centro de Desenvolvimento e Ensino Doutrinário da Força Aérea (AFDDEC), Base Aérea Maxwell. Alabama. Foi professor da School of Advanced Air and Space Studies, Base Aérea Maxwell, Alabama, e foi editor da Air University Review. Durante sua carreira de 30 anos, pertenceu à Marinha dos EUA e foi piloto e navegador da Força Aérea. Realizou mais de 900 missões de C-130B no Vietnã e, em sua última comissão em unidade de vôo, comandou um esquadrão de AC-130 no exterior. Lecionou tanto na Academia Militar dos EUA quanto na Academia da Força Aérea dos EUA. O Dr. Mets é o autor de Master of Airpower: General Carl A. Spaatz (Presidio, 1988) e de mais quatro livros. | |||
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