Documento criado em 01 Novembro 08
ASPJ  Em Português 4° Trimestre 2008


Resenhas Críticas


Imagined Enemies: China Prepares for Uncertain War, de John Wilson Lewis and Litai Xue. Stanford University Press (http://www.sup.org), 1450 Page Mill Road, Palo Alto, California 94304-1124, 2006, 384 páginas, $60.00 (encadernado).

John Wilson Lewis e Litai Xue escreveram uma história ricamente pesquisada e esclarecedora a respeito da transformação do poder militar chinês a partir de 1949 e do nascimento da República Popular da China. De maneira inteligente, eles narram com detalhes a evolução de sua filosofia de defesa – desde Mao, com sua extrema paranóia quanto a inimigos aparentes e seu inevitável ataque à China, até os dias de hoje. O que torna este livro singular em relação aos outros que tratam do mesmo assunto, é sua profundidade de informações de primeira mão, de análise e interpretação do funcionamento interno do governo chinês e da liderança militar que influenciou o desenvolvimento da política externa da China e sua versão de uma estratégia de segurança nacional. O estudo investiga as amizades que a China forjou com outros estados-nações ao longo dos anos, por necessidade militar ou para obter poder político contra um inimigo mais urgente.

A despeito dos desafios estratégicos e da luta pelo poder, os autores revelam francamente como as lutas e rivalidades internas, a desconfiança, a repetida purgação da liderança sênior, a mudança de prioridades de defesa a respeito de inimigos aparentes e as limitações orçamentárias de defesa modelaram de modo adverso a postura de defesa da China: “Conflitos e crises estrangeiras raramente tomam precedência sobre estabilidade interna e ao poder político dos governantes estabelecidos” (pág. 26). Lewis e Xue descrevem o governo e as hierarquias de liderança militar de maneira pertinente e intencional – como evoluíram e influenciaram as prioridades da capacidade de defesa. Dedicam particular atenção à força aérea chinesa e à segunda artilharia (forças de foguetes estratégicos) – forças/capacidades percebidas como críticas para a estratégia de defesa ativa da China.

Imagined Enemies apresenta eficazmente uma articulação abrangente dos desafios contemporâneos de defesa e de política exterior que a China encara, à luz de suas complexidades sempre crescentes. Os autores enfatizam desafios como a superioridade tecnológica das forças armadas dos EUA e sua efetividade comprovada no Iraque e nos Bálcãs, associada com a crescente obsolescência do equipamento militar chinês, níveis inadequados de treinamento operacional relevante e as lutas de suas forças armadas para operarem de maneira combinada. As preocupações prementes da China a respeito da crise em andamento na Coréia do Norte e suas relações precárias com a Rússia e o Japão e pressionam ainda mais a China no palco diplomático internacional/regional. Essas questões têm como base as aspirações econômicas da China, no plano nacional e no plano internacional, sua emergência na economia global e seu crescente saldo de conta: “Enquanto muitos poderes atuais ainda podem ostentar uma vantagem em tais áreas críticas como ciência e tecnologia, a China está trabalhando para diminuir essa vantagem por meio de acordos comerciais favoráveis, aquisições de tecnologia estratégica e programas científicos selecionados. Se tal esforço continuar sem obstruções, a corrida da China para a grandeza poderá ter êxito dentro dos próximos vinte anos” (pp. 1-2).

Lewis e Xue também avaliam o grau de delicadeza e desconfortável tolerância quanto à situação de Taiwan, a probabilidade de intervenção militar dos EUA em resposta ao conflito militar entre China e Taiwan, ou a provável resposta da China se Taiwan proclamar sua independência. Além disso, eles postulam, de um modo que faz pensar, as prováveis respostas militares da China, de Taiwan e dos Estados Unidos em circunstâncias variadas, e seus prováveis resultados.
Imagined Enemies deixará os leitores com uma avaliação significativa da luta chinesa por uma existência estável e o ponto a que a China chegou para garantir suas fronteiras, bem como os sofrimentos e sacrifícios suportados para consegui-lo. O livro é uma grande leitura profissional para qualquer um interessado na evolução da filosofia de defesa chinesa e na psicologia que está por trás dela, e também para as pessoas que queiram uma boa perspectiva para compreenderem o que o futuro pode reservar nas relações EUA/Taiwan/China, no palco internacional.

Dr. David A. Anderson,
Lieutenant Colonel, USMC, na Reserva

US Army Command and General Staff College

The North Korean People’s Army: Origins and Current Tactics, de James M. Minnich. Naval Institute Press, (http://www.usni.org/press/press.html), 291 Wood Road, Annapolis, Maryland 21402-5034, 2005, 164 páginas, $27.95 (encadernado).

A ocorrência de certos acontecimentos durante a última década resultou na publicação de muitos livros sobre o programa nuclear da Coréia do Norte, a diplomacia entre a Coréia do Norte e os Estados Unidos e os problemas geopolíticos criados pelo regime stalinista de Kim Jong II. Em sua maior parte, a literatura carecia de um trabalho que oferecesse uma análise erudita e em profundidade do Exército Popular da Coréia do Norte (NKPA) – uma força militar que permanece a quinta maior do mundo e continua a oferecer uma ameaça para a estabilidade e a segurança da Península Coreana. Este trabalho, escrito por um oficial da área estrangeira do Exército dos EUA, foi uma tentativa de preencher essa lacuna.

Minnich divide o livro em duas partes. Os capítulos da primeira parte tratam da origem partidária do NKPA; sua organização formal, original, sob estreita tutela dos soviéticos; a expansão que ocorreu antes da invasão da Coréia do Sul; e o estado do NKPA em 1950. Os capítulos surpreendentemente curtos carecem da importante profundidade e detalhamento que permitiriam aos leitores compreenderem verdadeiramente as origens do NKPA, as forças motrizes por detrás de sua formulação e capacidades, e as razões para suas surpreendentes vitórias iniciais nos primeiros meses da Guerra da Coréia. A segunda seção trata das táticas atuais, em capítulos que examinam a estratégia nacional e a formulação da política militar, táticas de ataque e defesa e táticas de grupamento de artilharia.

A segunda seção é particularmente desapontadora, porque não considera as mudanças em grande escala para as forças militares convencionais da Coréia do Norte que ocorreram desde que Kim Jong II subiu ao poder em 1994. Em virtude de um ambiente geopolítico cambiante e restrições de recursos além do controle de Pyongyang, as capacidades ofensivas das forças armadas evoluíram amplamente, de modo que, agora, ameaçam a Coréia do Sul com forças assimétricas, como artilharia de longo alcance, unidades de operações especiais e um corpo de mísseis balísticos que ostentam, em seu estoque, pelo menos 600 Scuds e outros mísseis balísticos de curto alcance. O autor não trata com detalhes o modo pelo qual as forças de mísseis tornaram-se agora doutrinariamente integradas com as unidades de artilharia, para formarem um “primeiro soco” mortífero em qualquer guerra contra a Coréia do Sul. Também não examina de que modo o aumento significativo no número de sistemas de artilharia de longo alcance, que a Coréia do Norte desdobrou ao longo da zona desmilitarizada, alterou em grande parte o status quo das forças militares convencionais na península. Na segunda parte do livro, o autor parece estimar que a Coréia do Norte atacaria o Sul quase do mesmo modo que o fez há 20 anos – um prospecto muito improvável.

Este texto curto é interessante por fornecer algum contexto para a história e a filosofia do NKPA em seus primeiros estádios. Apresenta problemas em seus últimos capítulos, porque Minnich não trata de assuntos importantes como doutrina, evolução da organização, impacto dos materiais e recursos no treinamento, desenvolvimento da liderança de pessoal, e a capacidade (e motivações) que tenha o NKPA para agressão em grande escala, baseadas nas atuais capacidades de suas forças militares convencionais. Para leitores que buscam um livro que os instrua quanto aos atuais aprestamento, capacidades e ameaça das forças militares convencionais da Coréia do Norte, The North Korean People’s Army não alcança o alvo. Para os que gostariam de uma descrição curta e com traços largos da história e da filosofia inicial do NKPA, o texto fornece algum contexto útil. Em seu conjunto, este livro não preenche a falta de uma literatura erudita para os leitores que desejam uma análise profunda da ameaça militar da Coréia do Norte.

Bruce E. Bechtol Jr., PhD
Marine Corps Command and Staff College

Al enemigo primero lo descerebramos, de Comodoro Miguel Angel Silva, Fuerza Aérea Argentina, na reserva. Revista de la Escuela Superior de Guerra Aérea (RESGA), Argentina, 2003, 168 páginas. (Não vendido comercialmente.)

Al enemigo primero lo descerebramos, uma cartilha publicada pela Fuerza Aérea Argentina (força aérea argentina), trata de comando, controle, comunicações, computadores, inteligência, vigilância e reconhecimento (C4ISR). Dividida em dois capítulos e três apêndices, enfatiza como os conceitos de C4ISR afetam a guerra convencional. O capítulo 1, “Primeira Análise: O Novo Modo de Travar a Guerra”, extrai conceitos doutrinários básicos de um breve levantamento de guerras passadas. A maior parte da discussão é séria, mas uma passagem bem-humorada graceja: “Quando se fala de guerra de informação, a imagem que vem à mente da maioria das pessoas é a de um adolescente sentado diante de um computador, segurando um refrigerante enquanto o queijo do seu hambúrguer cai no teclado” (pág. 18). O capítulo 2, “Segunda Análise: Informação para Degradar/Proteger”, faz comentários reveladores sobre muitos tópicos, inclusive os perigos da sobrecarga de informação (pp. 71-72). Escrito da perspectiva de um país que possui recursos militares limitados, o estudo adverte contra “a tentativa de imitar os EUA, uma utopia para países como o nosso” (pág. 77). Os apêndices apresentam avaliações técnicas concisas dos radares, laseres, infra-vermelhos e outros tipos de sensores que operam no espectro eletromagnético.

O livro não é sobre guerra de informação por si, mas analisa sistematicamente os conceitos e as tecnologias de C4ISR. Grande parte do livro adota deliberadamente um estilo didático e repetitivo, para tornar claramente compreendidos preceitos como “tudo que é transmitido pode ser interceptado. Tudo que pode ser interceptado pode ser degradado” (pág. 49). Embora uma referência acessível que examina seu tópico principalmente de uma perspectiva da força aérea, ele se concentra mais nas peças componentes dos sistemas de informação do que nas sinergias que podem resultar da integração desses sistemas, conforme concebidas pela guerra centrada em rede. O autor também diz pouco a respeito de como a Internet se relaciona com operações de informação ou de como os sistemas de informação podem ser usados contra terroristas, criminosos organizados ou outras ameaças não-estatais. Os leitores que buscam mais informação a respeito dos tópicos discutidos não encontrarão notas de pé de página nem uma bibliografia, mas o glossário, o índice remissivo e as ilustrações simples são úteis. Todavia, as letras muito pequenas do livro tornarão difícil a leitura para algumas pessoas. A maioria das informações é factualmente precisa, mas alguns erros secundários se intrometem. Por exemplo, o texto afirma que o olho humano só pode enxergar 64 cores (pp. 56 e 70); na verdade, o número é de milhões. E a batalha de Alam Halfa, de 1942, aconteceu no norte da África – não em um lugar que é agora parte de Israel, como o autor afirma (pág. 71).

Esta cartilha é útil em, pelo menos, dois diferentes aspectos. Primeiro, é projetada como um livro-texto para um público militar, como alunos de faculdades de guerra em países de língua espanhola. Segundo, os apêndices apresentam a leitores militares, que não são cientistas ou técnicos, uma explicação compreensível das características técnicas básicas dos sistemas típicos de C4ISR. Os princípios científicos subjacentes discutidos têm valor permanente; não obstante, a tecnologia e os métodos operacionais de C4ISR evoluem depressa. O livro usa muitos exemplos históricos para ilustrar seus pontos de vista sobre a natureza cambiante da guerra, porém, embora publicado em 2003, não se refere aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 ou aos acontecimentos subsequentes. Espera-se que a força aérea argentina atualize o texto à luz da recente experiência de guerra.

Lt Col Paul D. Berg, USAF
Maxwell AFB, Alabama

Atlas: The Ultimate Weapon, de Chuck Walker, com Joel Powell. Apogee Books/Collectors Guide Publishing (http://www.apogeespace books.com), 1440 Graham’s Lane, Unit no. 2, Burlington, Ontario L7S 1W3, Canada, 2005, 304 páginas, $29.95 (brochura).

Em Atlas: The Ultimate Weapon, Chuck Walker conta a história do desenvolvimento do míssil balístico intercontinental (ICBM) Atlas, da perspectiva de um iniciado. O trabalho captura bem a importância do foguete Atlas, tanto como míssil balístico quanto como veículo de lançamento espacial. Um dos três principais sistemas de lançamento desenvolvidos nos anos de 1950 pelo Departamento de Defesa (DOD) que teve uso tanto militar quanto comercial, o Atlas começou com o pedido do Army Air Corps dos EUA por uma proposta, em outubro de 1945. Em 10 de janeiro de 1946, os engenheiros da Consolidated-Vultee (Convair), sob a liderança de Karel Bossart, nascido na Bélgica, apresentaram sua proposta de míssil balístico de 6.000 milhas náuticas. As novas tecnologias propostas para o míssil incluíam um peso estrutural extremamente baixo devido ao uso de tanques construídos com parede única de aço monocoque, mantidos rígidos pela pressão interna; um motor de foguete no estado da arte com argolas de suspensão únicas para ajudar a controlar a atitude; uma seção destacável para carga ou ogiva bélica; e um desempenho de quase entrar em órbita com um único estágio por meio da abordagem “estágio-e-meio” de ejetar os motores propulsores durante a subida em vez de toda uma fase. Em 19 de abril de 1946, a Convair recebeu um contrato no valor de US$1,893.000 para fabricar e testar 10 mísseis a fim de verificar os conceitos inovadores de Bossart. Mas o programa da Atlas era natimorto; os cortes do DOD forçaram o término do contrato em julho de 1947.

Com a renovação das tensões internacionais em 1951, o DOD deu à Convair um novo contrato para projetar um míssil balístico incorporando as características básicas já validadas. Em 1953, a Convair apresentou à Força Aérea um plano para um programa de desenvolvimento amadurecido e, em janeiro de 1955, recebeu a aprovação para desenvolver o que foi chamado na época de MX-774. Na Convair, o projeto era conhecido como Modelo 7 (na Rússia, Korolev estava então trabalhando no rival R-7 ICBM – evidentemente ambos os lados queriam usar o número da sorte). Em setembro de 1955, diante dos relatórios de inteligência a respeito do progresso dos russos com o seu ICBM, o DOD deu para o Atlas a mais alta prioridade nacional de desenvolvimento. O projeto tornou-se um dos maiores e mais complexos programas de produção, teste e construção jamais empreendidos. Beneficiando-se da administração dura do Brig Gen Bernard A. Schriever, que gerenciou o projeto para a Força Aérea, o Atlas tornou-se o primeiro ICBM no arsenal dos EUA. Teve seu primeiro teste de fogo em 11 de junho de 1955, e um foguete de última geração tornou-se operacional em 1959.

Embora substituído como míssil balístico em 1965, o Atlas desfrutou, depois disso, de uma importante carreira como lançador espacial, com mais de 440 lançamentos a seu crédito. Serviu como veículo de lançamento para os vôos orbitais da Mercury, colocando John Glenn, Wally Schirra, Scott Carpenter e Gordon Cooper em órbita, em 1962-63. Com o uso das etapas superiores da Agena e do Centauro, o Atlas também se tornou o burro de carga e transporte no meio para missões espaciais americanas, humanas, planetárias e de órbitas geo-síncronas. Após um esforço de reengenharia, na última década do século 20, o Atlas V continua a operar como um dos veículos de lançamento descartáveis críticos utilizados pelos Estados Unidos.

Como deveria ser óbvio, essa história importante é merecedora de séria atenção histórica. Infelizmente, Atlas: The Ultimate Weapon só conta parte dela. Sendo essencialmente a memória de um engenheiro que trabalhou no programa, o livro relata certos aspectos da história do Atlas envolvendo muito bem Chuck Walker, mas dá pouca atenção para o contexto maior do desenvolvimento e do emprego do sistema de armas. É quase exclusivamente um relato da experiência na Convair, baseado na memória pessoal e em entrevistas com colegas. Isso é especialmente desapontador, devido à amplitude da história do Atlas. O estudo deveria não só examinar os assuntos técnicos com que a Convair teve de lutar (o que faz relativamente bem), mas também muitos outros aspectos da história do foguete. Por exemplo, deveria cobrir a história política das origens e do desenvolvimento do Atlas, explorando as rivalidades entre as Forças, entre a Força Aérea e o Exército, a respeito do desenvolvimento de mísseis balísticos (como o desafio feito por Wernher von Braun, do Exército, ao conceito de estrutura inflável do Atlas) e as rivalidades inter-organizacionais entre o projeto Atlas e o esforço competidor do Titan. Também crítica é a discussão do gerenciamento do programa Atlas – o primeiro a usar o conceito de administração de sistemas e controle de configuração, com Simon Ramo (que iria, afinal, para a TRW, Inc.) supervisionando a integração de sistemas.

Alguns livros bons tratam da história do desenvolvimento e das operações de mísseis balísticos. Titan II: A History of a Cold War Missile Program (University of Arkansas Press, 2000), de David K. Stumpf representa o padrão áureo de registro da história de um programa de ICBM. Embora Atlas: The Ultimate Weapon forneça alguns detalhes técnicos úteis sobre o desenvolvimento do míssil, não se compara ao trabalho excelente de Stumpf sobre o Titan. A história do programa do Atlas ainda precisa ser contada.

Dr. Roger D. Launius
National Air and Space Museum
Smithsonian Institution
Washington, DC

The Tet Offensive: A Concise History, de James H. Willbanks. Columbia University Press (http://www.columbia.edu/cu/cup), 61 West 62d Street, New York, New York 10023, 2006, 272 páginas, $29.50 (encadernado).

Em cada guerra americana, uma batalha define o conflito em nossa memória nacional. Yorktown, Gettysburg, Normandia e Inchon estão marcadas em nossas mentes como representativas da coragem de nossos combatentes e de seu compromisso com a vitória na Revolução Americana, na Guerra Civil, na Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Coréia, respectivamente. A respeito da Guerra do Vietnã, só é necessário mencionar a ofensiva do Tet para invocar recordações de coragem, mas não de vitória. O Tet tornou-se o símbolo da inutilidade, se não do fracasso puro e simples, de nossa guerra no Vietnã. The Tet Offensive: A Concise History é a mais recente tentativa de examinar o que aconteceu e como ela veio a ser interpretada como derrota.

Este livro é completo, bem escrito e singularmente construído. De suas seis partes, a narrativa compreende as duas primeiras (“Historical Overview” e “Issues and Interpretations”), mas constituem menos da metade do trabalho inteiro. Essas duas partes fornecem uma base sólida de fatos críticos para a compreensão como o Tet foi uma vitória tática e uma derrota estratégica dos EUA – mas encontra-se muito mais ali.

Os leitores vão se descobrir voltando regularmente para a parte 3, uma cronologia quase diária de acontecimentos ao longo de 1967 e 1968, e agradecerão ao autor por tê-la incluído, porque tal referência ajuda a manter os acontecimentos na ordem adequada. A parte 4, “The Ted Offensive, A to Z”, um glossário exaustivo que complementa a cronologia, inclui termos militares, nomes de pessoas e localizações que até o estudante mais erudito da Guerra do Vietnã achará útil. A parte 5 é um compêndio de 10 documentos importantes de norte-vietnamitas, das forças armadas dos EUA e de fontes de mídia, concernentes à ofensiva do Tet. A leitura desses documentos fornece o pano de fundo que normalmente falta em trabalhos inferiores.

A parte final inclui uma lista de recursos. Muito mais que uma simples bibliografia, apresenta um catálogo de livros, documentos e mídia, divididos em categorias específicas relacionadas à ofensiva do Tet. Adicionalmente e com muito proveito, Willbanks inclui um curto comentário acerca de cada fonte. Esses comentários ajudarão a orientar os leitores para ampliar seu estudo dos acontecimentos.

Ao contrário de ser uma simples versão da ofensiva, esse livro é em verdade um trabalho de referência que pode ser lido no todo ou em parte, a depender das necessidades da pessoa. A própria narrativa, embora curta, é excelente. O autor segmenta a discussão para fornecer especificidade sem sacrificar a clareza geral. A cobertura que ele faz das questões táticas, estratégicas e perceptuais da ofensiva do Tet dá aos leitores um retrato completo.

Ao contrário de alguns escritores, que deixam Khe Sanh de fora da ofensiva do Tet como se fosse uma operação completamente separada, Willbanks inclui uma discussão do sítio que ali ocorreu, reconhecendo-o como um elemento importante do Tet. Com relação à pergunta sobre se Khe Sanh foi planejado como um ataque diversionário ou um elemento principal do Tet, o autor apresenta ambos os lados da discussão, deixando aos leitores tirarem suas próprias conclusões.

Curiosamente, a adesão rígida do autor à objetividade pode frustrar alguns leitores, sendo tão raro de se encontrar uma postura como essa. Isso é especialmente evidente na discussão sobre o papel da mídia na interpretação dos acontecimentos e no significado do Tet. É comum culpar-se a mídia por falsear o ataque e voltar a opinião pública americana contra a guerra. Todavia, pode-se argumentar de modo convincente que a mídia não modelou a opinião pública, mas foi modelada por ela. O autor não toma qualquer posição específica nesse assunto, mencionando evidências que poderiam apoiar qualquer posição. Uma vez mais os leitores precisam ponderar os fatos e decidir por si mesmos.

The Tet Offensive: A Concise History atrairia os entusiastas informais da história militar ou estudantes sérios da Guerra do Vietnã. Os primeiros ganharão um descortino de uma parte muito importante de nossa história militar e política, enquanto os últimos se encontrarão reavaliando crenças previamente estabelecidas. Qualquer livro capaz de fazer isso vale bem o investimento de tempo e de dinheiro.

CSM James H. Clifford, E.U.A., na Reserva
McDonough, Georgia

Children at War, de P. W. Singer. University of California Press (http://www.ucpress.edu), 2120 Berkeley Way, Berkeley, California 94704-1012, 2006, 278 páginas, $16.95 (brochura).

O livro Children at War, de P. W. Singer, dá uma visão triste e perturbadora de um problema crescente no mundo de hoje: crianças que servem como soldados. Ele contempla os precedentes históricos do uso de crianças na guerra, a partir da idéia válida desde tempos e memoriais de que os guerreiros merecem honra e poder em troca da garantia de proteção para os que não usam armas – especialmente “os velhos, os inválidos, as mulheres e, muito especialmente, as crianças” (p. 3) –, para sustentar que, atualmente, em grande parte do mundo, já não existe civilidade ou honra no conflito. “Frequentemente, os que participam de batalhas já não são guerreiros honoráveis, guiados por um código de ética, mas, antes, predadores que alvejam o que há de mais fraco na sociedade” (p. 4). Ao longo de todo o livro, acham-se entremeados depoimentos de crianças soldados que cortam o coração e fazem os leitores desejarem abraçar seus próprios filhos e agradecerem a Deus por terem nascido em um país livre sob o império da lei.

É impressionante o número de crianças que servem como soldados. Singer examina o que ocorre no planeta e dá exemplos como o da guerra civil de Serra Leoa (1991–2001), em que 80 por cento dos combatentes eram de idades entre 7 e 14 anos, muitos tendo sido seqüestrados (p. 15). Ele indica que em 68 por cento dos atuais conflitos do mundo, crianças menores de 18 anos serviram em missões de combate. Os métodos pelos quais muitas crianças são recrutadas para a guerra têm exemplos especialmente perturbadores: “Estávamos em um estado pavoroso. Eles mataram meus pais diante de mim; as mãos de meu tio foram cortadas e minha irmã foi estuprada diante de nós pelo comandante deles, que se chamava ‘Não Poupa Ninguém’. Depois que isto aconteceu, disseram a nós, os garotos mais novos, que nos juntássemos a eles; se não, iam nos matar” (p. 61).

O autor faz excelente trabalho quantificando o problema e tratando de muitas das causas subjacentes, como pobreza e falta de oportunidades educacionais e econômicas. Contudo, a solução é uma tarefa muito mais assustadora. Alguma das causas têm existido por muito mais tempo do que o problema das crianças soldados. Singer reclama maior quantidade de ajuda, indicando que “os Estados Unidos patinam muito atrás do resto do mundo desenvolvido na ajuda a esses menos favorecidos” (p. 136). Embora isto seja verdade no que diz respeito à ajuda governamental, ele não registra as quantias significativas doadas por americanos por meio de organizações caritativas não-governamentais. Outras providências, mais praticáveis, que ele apresenta como parte da solução, envolvem mudança na política do governo dos Estados Unidos, que deveria apoiar esforços das Nações Unidas e de outros elementos da comunidade internacional para acabar com o comércio ilegal de armas ligeiras e criminalizar a prática de manter crianças soldados de modo que, pelo menos, os exércitos de Estados legítimos parassem de usar crianças.

O capítulo dedicado às questões e ao impacto de ter de combater crianças é, talvez, o mais importante para o atual militar dos Estados Unidos. Embora seja improvável que todos os garotos de 14 anos entrem em luta singular com pilotos de F-22, é completamente possível que uma criança portando um AK-47 chegue aos portões da “Base X”. Na verdade, o Iraque, o Afeganistão e outras localidades de desdobramento potencial dos Estados Unidos não estão imunes ao uso crescente de crianças como soldados. Singer está correto ao indicar que o treinamento e a doutrina atuais das forças armadas dos Estados Unidos não preparam adequadamente nosso pessoal para reconhecer crianças como ameaças potenciais nem lidam com o impacto psicológico de matar crianças, mesmo em legítima defesa; por essa razão, eles precisariam ser alterados de acordo com esse entendimento. Recomendo Children at War para a leitura de qualquer líder militar dos Estados Unidos que tenha a possibilidade de desdobrar pessoal a qualquer lugar que não seja a Europa Ocidental.

Cel Gregory J. Lengyel, USAF
Air Force Fellow Brookings Institution, Washington DC


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