Publicado em 01 Fevereiro 09
ASPJ  Em Português 1° Trimestre 2009

O Uso de Estimulantes em Combate:
Preconceito, Convenções Sociais e Aspecto Prático

Dr. John A. Caldwell

Abstrato Editorial: O uso de medicamentos pelas forças armadas durante as operações, como de costume, atrai bastante atenção da mídia, muitas vezes negativa e, às vezes também da comunidade científica. Contudo, o autor apresenta detalhes de, como normas claras para o uso de estimulantes (e, por consequência outros medicamentos que combatem a estafa) durante as operações, melhoram a segurança, o desempenho e o bem-estar geral do pessoal de combate aéreo dos EUA, preservando, ao mesmo tempo, seu direito de tomar decisões bem informadas acerca de suas vidas.

O Uso de Estimulantes em Combate: Preconceito, Convenções Sociais e Aspecto Prático

O uso de medicamentos pelas forças armadas durante as operações, como de costume, atrai bastante atenção da mídia e, às vezes também da comunidade científica. Infelizmente esta atenção, muitas vezes, é definitivamente negativa. Por exemplo, embora seja aceito, atualmente, que é apropriado vacinar as forças armadas Norte-Americanas contra agentes biológicos [germes], em 1998 o decreto do Ministro de Defesa William Cohen para que todo o pessoal recebesse vacina contra o antraz, deu lugar a inúmeras audiências do Congresso e controvérsias jurídicas. Ao mesmo tempo, a mídia reportou que grande número de pessoal estava “saindo das forças armadas”, porque não queria ser vacinado.”1 O uso do pré-tratamento com o agente-nervoso pyridostigmino causou controvérsia similar, após o conflito do Golfo Persa de 1991, em virtude do uso muito difundido de medicamentos para, o que se chama de indicação ‘fora-de-bula.’2 Embora decisões posteriores permitiram seu uso apropriado após ordem presidencial ou consentimento informado individual, as objeções continuaram acerca da segurança e sabedoria de diretrizes sobre esta intervenção profilática.3 Recentemente, o uso de dextroanfetamina pelas forças armadas para manter o desempenho de pilotos privados de sono causou preocupação, após o incidente de 2002 no qual dois pilotos foram culpados de abrir fogo em alvo amigo, após usar tal medicamento.4 A investigação feita pela Força Aérea deixou de implicar  a dextroanfetamina como uma das causas deste lamentável incidente. Apesar disso, o público em geral nada sabia a respeito;  assim, muitas pessoas continuaram a questionar o uso da dextroanfetamina e outros compostos farmacêuticos  para manter o desempenho das forças armadas.

Tais incidentes contribuem para que a controvérsia a respeito da ética do uso de medicamentos para proteger, manter (ou aumentar) o desempenho das forças armadas continue. Essa polêmica se torna mais renhida, quando tem a ver com o uso de medicamentos contra a estafa, em especial estimulantes, como anfetaminas. Uma vez mais a questão de que se o uso de medicamentos é apropriado para combater o cansaço e aumentar a segurança e o desempenho do combatente, é tópico de discussão acalorada.5 Alguns membros da Organização do Tratado do Atlântico (OTAN) consideram o uso de estimulantes receitados, como a anfetamina, contrário a ética.  Esta postura, com respeito as ramificações éticas do uso de “medicamentos para realce de desempenho” talvez seja a responsável pelo fato de que, atualmente, a única potência  mundial que autoriza o uso de anfetaminas e certos outros medicamentos contra o cansaço são os Estados Unidos.6

Como cientista de pesquisa, após levar a cabo inúmeros estudos referentes a vantagem de estimulantes receitados à tripulações Norte-Americanas em teatros de operação, acho difícil compreender por que certas pessoas levantam a questão de ética, a respeito do uso destes complexos.7 O uso de “realçantes de desempenho cognitivo” pelas forças armadas é ético se:  (1) a decisão para o uso de medicamento para realçar/manter o desempenho resta completamente com o indivíduo; (2) o uso é seguro, dentro do contexto no qual é usado; (3) o modo de usar a substância é consistente com a dose e a função farmacológica; e (4) em geral, as forças armadas apelam para o uso de medicamento só após esgotar todas as outras alternativas.8

A questão é, então, por que se considera erro médico receitar anfetaminas (ou outros estimulantes)  à pessoas completamente sadias, fora do serviço militar para que durmam menos, em virtude de trabalho ou jogos. Um exame minucioso demonstra que tal receita satisfaz o primeiro critério e possivelmente o terceiro, acima. Mas, receitar estimulantes à trabalhadores civis saudáveis, viola os critérios dois e quatro. Falha em satisfazer o segundo critério tem a ver com o fato de que, contrário à tripulação das forças armadas, que é muito bem monitorada por pessoal médico, a população, em geral, sai do consultório médico (ou farmácia) com um suprimento para vários dias de certo remédio que pode usar sem rigorosa supervisão médica. Isto é arriscado, especialmente quando se leva em consideração a possibilidade do abuso de anfetamina e o fato de que os pacientes têm a liberdade de modificar a dose receitada de várias maneiras (algumas delas até perigosas). Falha em satisfazer o quarto critério tem a ver com o fato de que o médico não esgotou todas as outras alternativas. Contrário aos pilotos militares que usam o estimulante no desempenho de possível missão para salvar vidas, o que não poderiam fazer  de modo eficiente sem a ajuda da substância, os pacientes civis (que neste exemplo não sofrem de certo tipo de desordem de atenção) na verdade têm a opção de ficar acordados por período de tempo mais curto e dormir o suficiente, em vez de optar pelo remédio, a fim de prolongar as horas sem dormir. Essa opção é menos inconveniente (dormir), porque embora o paciente civil não possa trabalhar ou jogar mais que o normal sem o estimulante, não é provável que isso vá resultar em dano. Assim, é claro que a receita de estimulantes diários à paciente civil saudável resulta em maior risco, comparada ao benefício e é uma postura ética menos favorável do que receitá-los à pilotos com poucas opções, fora de participar em operações de combate sem trégua.

Será que questões de “moral” entram no uso de “agentes cognitivos de realce”? É uma questão difícil, uma vez que diferentes pessoas definem moralidade de vários modos. Para alguns, as ações éticas também são morais; para outros, a moralidade se refere ao conceito de “correto” ou “incorreto” absoluto;  e ainda outros definem a moralidade em contexto, (i.e, se o objetivo final é “bom”,  sem a intenção de prejudicar outro ser humano inocente, violar os direitos de pessoa inocente ou defraudar pessoas de suas posses, então as ações são morais).9 O uso de medicamentos para realçar o desempenho de militares parece “moral”, porque seu uso se dedica a cumprir certos objetivos, com os quais nós, a nação, supostamente estamos de acordo – e fazem isso de maneira a aumentar a sobrevivência do pessoal que enfrenta circunstâncias para lá de favoráveis. Não forçamos o pessoal a ingerir estimulantes contra a vontade e, tampouco forçamos o inimigo a fazer o mesmo. Pelo contrário, oferecemos os medicamentos que provam ser “seguros”, a fim de proteger o bem-estar do pessoal que faz parte das forças armadas.10 Para todos os propósitos práticos nós, como nação, estamos de acordo que este tipo de intervenção médica é aceita para alcançar os resultados táticos desejáveis (diretrizes em existência autorizam tal uso). Sim, estes medicamentos vão contribuir para dano ao inimigo, mas já usamos uma variedade de outras estratégias (tecnológica, comportamento, etc.) para este fim. Não consideramos um ardil, a vantagem tática sobre o inimigo, ao usarmos agentes de realce cognitivo, da mesma forma que não é um ardil o uso de tecnologia superior de visão noturna. Também devo assinalar que, em termos estritos de imparcialidade, publicamos informes a respeito de uso ou intento de uso de realce ao desempenho, em literatura científica aberta, que o inimigo tem toda a liberdade de ler e usar. Assim, em minha opinião, o uso destes medicamentos é moral e ético.

Contudo, uma vez que o uso de complexos farmacológicos é questão médica/condutivista e, uma vez que os padrões publicados demarcam os princípios de ações éticas em ambos estes campos, vamos basear-nos em tais padrões, a fim de verificar se o uso de tais medicamentos é apropriado. Em primeiro lugar, apresento breve sumário dos princípios básicos éticos que guiam o comportamento de médicos e psicólogos. Passo então, a explicar porque, como exemplo principal, o uso da dextroanfetamina pelas forças armadas é uma medida eficaz para combater a estafa em operações aéreas e, porque nossa postura atual referente ao uso deste medicamento e outros desta mesma natureza não apresentam dilema ético às Forças Armadas Norte-Americanas.

Os Princípios Éticos Básicos

Os princípios éticos básicos se destinam a inspirar indivíduos a agir de acordo com os padrões e ideais mais elevados em suas respectivas profissões. As características fundamentais do pensamento e ação éticos são cuidar do próximo, inspirar confiança, portar-se honestamente, tratar a outrem com justiça e respeitar o valor básico da vida humana. Os profissionais éticos estão empenhados em beneficiar aqueles com quem trabalham e a minimizar a possibilidade de dano. São dignos de confiança e sempre consideram a responsabilidade que têm para com o próximo. Dizem a verdade, são corretos e honestos. Estes indivíduos se esforçam a distribuir, de maneira justa, as contribuições entre aqueles pelos quais são responsáveis, respeitam os direitos de todo indivíduo à privacidade, seu bem-estar geral e livre-arbítrio. Em suma, os profissionais éticos fazem o máximo para tratar a todos com o mesmo tipo de justiça, dignidade e respeito que também esperam receber.11 Dados os princípios básicos de comportamento ético acima mencionados, examinemos o uso da dextroanfetamina pelas forças armadas, como exemplo, a fim de determinar se as normas que governam o uso deste complexo são eticamente apropriadas.

O Histórico da Diretriz
referente a
Dextroanfetamina

A estafa causada pela falta de sono e distúrbios de rítmo do relógio interno são problemas altamente disseminados durante as operações militares, particularmente nas ações recentes de rítmo intensificado, associadas à guerra global contra o terrorismo.12 Tais operações, sem interrupção, rápidas transições de fuso a fuso horário, e ambientes de descanso desconfortáveis são comum em campos de batalha; infelizmente, tais condições impedem que o pessoal obtenha as oito horas completas de sono que se requer para ótimo desempenho de funções cotidianas. O sono em tal ambiente é, muitas vezes, fragmentado por período de semanas e é, às vezes, inexistente durante dias a fim.13 Sem dúvida, essa privação de sono, rapidamente desgasta o tempo de reação, estado de alerta, atenção, disposição, levando a um desempenho e segurança seriamente debilitados.14 Em geral, cada 24 horas sem dormir acarreta 25 porcento de redução de desempenho em campo. De todos os sentidos, o mais comprometido é o grau elevado de percepção.15 Assim, não é de se surpreender que determinamos que a estafa acarreta grande custo social, financeiro e humano e é a causa ou um dos fatores que contribui a inúmeros acidentes militares aéreos.16

A fim de neutralizar problemas de desempenho causados pela estafa, as forças armadas vêm investindo muito no que se chama de pesquisa para o manejo da atenção. Esta pesquisa resultou em uma série de estratégias, inclusive limites de horas de trabalho durante diferentes períodos de tempo, contramedidas de comportamento, cochilos, e remédios destinados a realçar a oportunidade de sono disponível ou manutenção de desempenho apesar da falta de sono. A estratégia para o uso periódico de dextroanfetamina foi um dos resultados desta pesquisa e, vou usar os procedimentos que governam a terapia com a dextroanfetamina como exemplo principal neste artigo.

Os medicamentos à base de anfetamina já se encontram a disposição para receita médica desde 1937. Durante a Segunda Grande Guerra Mundial, as forças armadas Alemãs, Japonesas e Britânicas faziam uso deles para realçar o desempenho em campo de batalha. Embora alguns relatos indiquem que as forças armadas Norte-Americanas usaram esta substância durante o conflito na Coréia, o uso da dextroanfetamina para manutenção de desempenho em campo não foi oficialmente aprovado até 1960.17 O uso disseminado de anfetaminas pelas tripulações aéreas militares, ocorreu provavelmente durante o conflito em Vietnam. As diretrizes referentes à estimulantes passou a fazer parte do Regulamento da Força Aérea 161-33 / Suplemento do Comando Tático Aéreo 1, Programa de Medicina Aeroespacial, 1 de janeiro de 1984, que autorizava o uso de anfetaminas a pilotos de aeronaves de um só assento, especialmente devido a suscetibilidade ao tédio e estafa, durante desdobramentos e patrulha aérea prolongados. Em 1996 as autoridades da Força Aérea rescindiram a autorização já de longo prazo para o uso de anfetaminas durante as operações aéreas.

Embora fosse evidente que a dextroanfetamina não havia causado acidente algum durante a Operação Tempestade no Deserto, assim mesmo a Força Aérea decidiu não mais permitir seu uso (a estafa sim, foi a causa de vários acidentes). Além disso, um estudo feito durante a Tempestade no Deserto, notou a vantagem do uso da anfetamina para manter a mente alerta durante operações aéreas. Um comandante de esquadrão descreveu a disponibilidade do medicamento como questão de “segurança em voo”.18 Estes resultados, juntamente com os informes de quatro estudos da aviação controlados por meio de placebo, entre 1995 e 2000 levaram, em parte, a nova autorização em 2001 para o uso de dextroanfetamina em certas operações de combate da Força Aérea.19

A Questão Real em Meio
às Diretrizes Atuais

Atualmente, os três setores militares Norte-Americanos autorizam a dextroanfetamina para manter o desempenho de piloto em combate, quando sob condições particularmente cansativas. Ao considerarmos as inferências éticas do uso de medicamento receitado para manter alerta o pessoal, que não tem outros problemas de saúde, fora da deprivação de sono, devemos considerar certos pontos:

Em primeiro lugar, os que criticam as diretrizes de uso de estimulantes, muitas vezes descrevem situações em que pilotos bem descansados voam missões sem usar drogas e, comparam este cenário com o de pilotos que estão sem dormir, voando missões sob a influência de estimulantes. Entretanto, como já mencionei, as operações militares frequente e inevitavelmente acarretam alto nível de estafa. Assim, a opção jaz entre obrigar os pilotos que estão sem dormir a cumprir missões de voo com a ajuda de medicamentos já comprovados, que realçam a atenção ou, requerer que permaneçam acordados sem ajuda. Além disso a pesquisa demonstra, claramente, que tentar ficar acordado, quando a tendencia é dormir, devido a estafa, é perda de tempo.

Em segundo lugar, os críticos muitas vezes gostam de fazer comparações entre a aeronáutica civil, que não permite estimulantes, e as operações militares aéreas, que sim, permitem. Perguntam por que as forças armadas permitem estes medicamentos, quando o setor civil está oposto a isso. A fim de responder esta pergunta devemos compreender muito bem porque não podemos compará-las.

Uma grande diferença é que missões de combate aéreo são muito mais estressantes que operações de transporte aéreo civil. Por exemplo, embora os pilotos de transporte civil, sem dúvida, passem por estafa, devido a responsabilidade pela segurança de até 400 passageiros, raramente são alvo de ataque inimigo. Entretanto, pilotos de combate, de rotina, cumprem missões sob ameaça iminente e palpável à propria segurança e vida. Além disso, as tripulações aéreas, dia a dia estão sujeitas a escalas de voo contínuas e árduas, que requerem, às vezes, missões sucessivas e contínuas, apesar da falta de descanso adequado, a fim de manter o rítmo de operações. Mas, requisitos específicos e rígidos referentes ao descanso e desempenho da tripulação, contidos nos regulamentos de Administração da Aviação Federal protegem tripulações civis de tal circunstância.

Outra grande diferença tem a ver com as consequências de cancelamento de voo commercial e militar. Se um piloto comercial se recusa a voar, devido à preocupações com sua capacidade de desempenho, pode ser que a companhia aérea não goste da decisão mas, é claro que isto não vai prejudicar a segurança de pessoa alguma. A companhia aérea vai substituir o piloto cansado por um de reserva, para preencher a escala de voo. Toda companhia aérea civil está preparada para esta contingência. Entretanto, no setor militar, já com número limitado de pilotos, se um deles decide não voar em determinada missão isso, provavelmente, vai resultar em atraso ou, simplesmente, cancelamento da missão. Os passageiros aéreos anteriormente mencionados, com voo marcado na aeronave afetada, provavelmente vão estar mais seguros.  Mas, que tal os soldados que estão aguardando transporte do campo de batalha ao hospital? Que tal os grupos que esperam suprimentos, munição, água e comida? E que tal as pessoas que estão baixo ameaça de fogo inimigo? Que tal sua segurança, após o cancelamento ou atraso da missão de voo?

Ao considerarmos a postura das forças armadas referente ao uso de estimulantes, devemos lembrar que (1) o combate não é um evento esportivo, mas sim um empreendimento cansativo, ameaçante, imprevisível, estressante, que exige o emprego de toda ferramenta razoável para êxito e, (2) a fim de proteger e defender a vida de amigos e aliados, os pilotos Norte-Americanos devem pensar mais além das ramificações imediatas das decisões referentes ao aceite e cumprimento da missão. É dentro deste contexto que devemos considerar a ética do uso de estimulantes (bem como o uso de outros medicamentos que realçam o desempenho).

As Diretrizes Atuais para
o Uso de Anfetamina Durante
as Operações Aéreas

As diretrizes atuais acerca do uso de dextroanfetamina pelas forças armadas Norte-Americanas passaram por rigoroso planejamento, tendo em vista a proteção de combatentes individuais, especialmente aviadores e, o cumprimento de objetivos militares.20 Além disso, como demonstrado abaixo (especialmente ao citar os procedimentos e diretrizes da Força Aérea como exemplo), a orientação garante que vamos alcançar os objetivos, sem comprometer os princípios éticos profissionais. Os seguintes princípios asseguram o uso apropriado de dextroanfetamina:21

1.  Pautas claras ditam as circunstâncias sob as quais o uso da dextroanfetamina é permitido em operações; seu uso também é permitido em circunstâncias especiais. Especificam a duração de missões e a dose do medicamento.

2.  Antes de usar a dextroanfetamina, todo piloto deve ler e assinar um acordo detalhado de consentimento informado, a fim de garantir conhecimento suficiente referente à efeitos positivos e possíveis efeitos negativos do medicamento. Falha em se obter o consentimento inteligente impede que tal indivíduo use o medicamento durante operações.

3.  O grupo autorizado a usar o estimulante (pilotos militares) é, por natureza, jovem, saudável e, provavelmente livre de quaisquer complicações médicas para as quais seu uso seria contra indicado. Os pilotos militares devem, de rotina, passar por exames físicos contínuos, a fim de documentar boa saúde para continuar voando.

4.  Além disso, uma vez que é difícil predizer as reações individuais a quaisquer tipos de medicamento, até mesmo em meio a população mais saudável, as forças armadas requerem um exame em solo pré-desdobramento, documentado, levado a efeito sob a supervisão de médico militar, para evitar problemas com reações idiosincráticas.

5.  Um pessoal médico qualificado controla o suprimento de dextroanfetamina durante as operações, dispensando-a em quantidades apropriadas, quando necessário e registrando, cuidadosamente, seu uso. Este pessoal coleta o medicamento não usado, após o término da missão para mantê-lo seguro, quando apropriado.

6.  A última palavra, referente ao uso da dextroanfetamina em missões, recai sempre sobre os ombros do membro da tripulação. Ninguém é obrigado a ingerir estimulantes.

7.  O pessoal médico autoriza o uso da dextroanfetamina como medida contra a estafa, somente após esgotar todas as outras opções não farmacológicas. As forças armadas nunca optam pelo medicamento como primeiro passo para solucionar problemas de estafa em campo e não a considera substituto a bom planejamento de períodos de descanso e ação para o pessoal de voo.

8.  Em suma,  com todas as opções à mesa, os líderes, juntamente com o pessoal médico consideram, com todo o cuidado, a opção do uso de estimulantes durante missões críticas, probabilidade de riscos dos quais estão cientes e a definitiva segurança do pessoal afetado.

Será que esta lista de garantias otimiza o uso ético de dextroanfetaminas (e, provavelmente, outros medicamentos) durante operações aéreas?Ao seguir esta pauta, diminuimos os riscos já conhecidos de estafa com um método científico comprovado, validado por pesquisa de laboratório e exames práticos. Todo indivíduo recebe uma dose experimental pre-desdobramento, para prevenir efeitos colaterais idiosincráticos. Assim, satisfazemos o princípio ético de “não causar dano”. A decisão do uso de medicamento para apoiar o objetivo em campo é tomada em conjunto pelos líderes, o médico e o piloto de guerra individual para assegurar que a preocupação com a operação não supere a segurança e a saúde da tripulação. Assim, a comunidade médica demonstra confiança, confiabilidade e responsabilidade para com o pessoal militar. Antes da administração do medicamento (ou colocá-lo a disposição) aos indivíduos, o pessoal médico obtém o documento de acordo de consentimento com conhecimento de causa, a informação alí contida baseada em conhecimento científico atualizado sobre os efeitos positivos e negativos da dextroanfetamina. Assim, o processo transmite informação verdadeira, correta e honesta ao pessoal. Após a autorização, os pilotos em todo o grupo têm acesso ao medicamento, os benefícios deste combate a estafa está a disposição para todos dentro deste grupo. Finalmente, nenhum piloto é obrigado a usar a dextroanfetamina e, muitas vezes, quando chega a hora H, o tripulante toma sua decisão, sozinho, baseado na necessidade durante a missão de voo em si (quando nem o médico, nem o comandante estiverem presentes). Assim a diretriz, em suma, respeita o princípio de privacidade, bem-estar geral e livre-arbítrio.22

Conclusões

As forças armadas Norte-Americanas têm a responsabilidade de equilibrar objetivos militares e direitos individuais, bem como proteger a saúde da força. Este equilíbrio é problemático, especialmente durante operações de combate cansativas e estressantes. Apesar de tudo, as forças armadas se dedicaram, com afinco, ao desenvolvimento e execução de programas comprensivos de gerenciamento de estafa que empregam estratégias administrativas, condutivistas e farmacológicas. Quando nada funciona, a opção farmacológica oferece importante intervenção para combater a estafa. Contudo, no clima atual de “sempre diga não às drogas”, tratamentos deste tipo muitas vezes, abrem a porta à debate acalorado. As forças armadas formularam um método conservador referente ao uso de medicamento para a manutenção de desempenho, a fim de fazer face aos objetivos administrativos, sem comprometer o bem-estar ou a autonomia individual. Como acabo de demonstrar neste artigo, normas claras acerca do uso de estimulantes (e, por inferência, outros medicamentos que combatem a estafa) durante as operações, otimizam a segurança, o desempenho e o bem-estar geral do pessoal de combate aéreo das forças armadas Norte-Americanas e, ao mesmo tempo, preservam seu direito de tomar decisões bem informadas a esse respeito. A pesquisa recente sugere que as diretrizes atuais funcionam e que se percebe pouca pressão para o uso de estimulantes, se o indivíduo se sente constrangido.23 Este resultado, e o fato de que a estafa sem ser tratada já custou um número sem conta de vidas através dos anos, juntamente com os dados de que os estimulantes nunca estiveram conectados a sequer um acidente da Força Aérea, é bom motivo para dizermos que o uso de medicamentos contra a estafa é ético.

Notas:

1. Randall D. Katz, Friendly Fire: The Mandatory Military Anthrax Vaccination Program, Duke Law Journal 50, no. 6 (Abril 2001): 1838, http://www.law.duke.edu/shell/cite.pl?50+Duke+L.+J.+1835.

2. A Agência Food and Drug Administration aprovou o pyridostigmine bromide para o tratamento de miastenia grave, mas considera ser um medicamento pré-tratamento em investigação para envenenamento com fosfato orgânico. Embora certos relatos da mídia sugerem que este medicamento esteve por demais vinculado ao, assim denominado, Síndrome do Golfo Persa, a ocorrência real de efeitos colaterais neurológicos foi de 1 porcento.

3. D. O. E. Gebhardt, Off-Label Administration of Drugs to Healthy Military Personnel: Dubious Ethics of Preventive Measures, Journal of Medical Ethics 31, no. 5 (maio 2005): 268.

4. Tina-Maire O’Neill, US Pilots Blame Drug For Canadian Bombing, Sunday Business Post Online, 19 janeiro 2003, http://archives.tcm.ie/businesspost/2003/01/19/story437452528.asp.

5. Michael B. Russo, Recommendations for the Ethical Use of Pharmacologic Fatigue Countermeasures in the U.S. Military, Aviation, Space, and Environmental Medicine 78, no. 5, sec. 2 (maio 2007): B119.

6. Erich Roedig, German Perspective: Commentary on ‘Recommendations for the Ethical Use of Pharmacologic Fatigue Countermeasures in the U.S. Military,’? Aviation, Space, and Environmental Medicine 78 no. 5, sec. 2 (maio 2007): B136.

7. John A. Caldwell, J. Lynn Caldwell, and Kecia K. Darlington, The Utility of Dextroamphetamine for Attenuating the Impact of Sleep Deprivation in Pilots, Aviation, Space, and Environmental Medicine 74, no. 11 (novembro 2003): 1125-34; and John A. Caldwell et al., Modafinil’s Effects on Simulator Performance and Mood in Pilots during 37 Hours without Sleep, Aviation, Space, and Environmental Medicine 75, no. 9 (setembro 2004): 777-84.

8. Russo, Recommendations for the Ethical Use, B123. O termo, seguro, neste contexto se refere ao fato de que os medicamentos foram testados em ambiente controlado de laboratório, bem como em experimentos clínicos e, a determinação foi de que não causam dano fisiológico ao indivíduo. Também, a declaração de que é “seguro” foi baseada no fato de que estudos controlados em simuladores de voo e durante voo, levados a cabo com pilotos militares resultou em prova que a percepção e desempenho não foram afetados de forma negativa pelo medicamento. Na verdade, os resultados demonstraram que melhora o desempenho. Finalmente, possuímos prova de que é “seguro” para indivíduos em geral, uma vez que todo piloto que usa um estimulante receitado em combate, deve completar, de maneira satisfatória, uma dose-prova do medicamento, sob supervisão médica.

9. No contexto de “guerra,” ou “ação policial” autorizada pelos E.U.A. ou outro conflito militar, não se consideram inocentes os inimigos dos Estados Unidos que usam armas contra o país com o intento de causar dano.

10. Ver nota 8.

11. American Psychological Association, Ethical Principles of Psychologists and Code of Conduct, American Psychologist 57, n°12 (dezembro 2002): 1060-73.

12. John A. Tirpak, The Force Seeks a New Baseline, Air Force Magazine 86, n°1 (janeiro 2003): 36, http://www.afa.org/magazine/jan2003/0103force.pdf.

13. S. Elliot, Chief of Staff Shares Views on Global Strike Task Force, Air Force News Archive, 31 outubro 2001, http://www.combatsim.com/memb123/cnews/arch/cnewsarc146.htm#chstff.

14. David F. Dinges et al., Cumulative Sleepiness, Mood Disturbance, and Psychomotor Vigilance Performance Decrements during a Week of Sleep Restricted to 4-5 Hours per Night, Sleep 20, no. 4 (1997): 274, http://www.journalsleep.org/Articles/200403.pdf.

15. Greg Belenky et al., The Effects of Sleep Deprivation on Performance during Continuous Combat Operations, in Food Components to Enhance Performance, ed. Bernadette M. Marriott (Washington, DC: National Academy Press, 1994), 128.

16. Jeffrey S. Durmer and David F. Dinges, Neurocognitive Consequences of Sleep Deprivation, Seminars in Neurology 25, no. 1 (março 2005): 117; and Tom Luna, Fatigue in Context: USAF Mishap Experience, Aviation, Space, and Environmental Medicine 74, no. 4 (abril 2003): 388.

17. Lt Col Rhonda Cornum, Dr. John Caldwell, and Lt Col Kory Cornum, Stimulant Use in Extended Flight Operations, Airpower Journal 11, no. 1 (primavera 1997): 54-55, http://www.airpower.maxwell.af.mil/airchronicles/ apj/apj97/spr97/cornum.pdf.

18. Kory Cornum, Rhonda Cornum, and William Storm, Use of Psychostimulants in Extended Flight Operations: A Desert Shield Experience, in Advisory Group for Aerospace Research and Development (AGARD) Conference Proceedings 579 (Neuilly sur Seine, France: North Atlantic Treaty Organization, outubro 1995), 37-1 to 37-4.

19. O Brig Gen Gary H. Murray, Comandante, Agência de Operações Médicas da Força Aérea, ao Departamento da Força Aérea, carta, 26 de junho de 2001 (carta de diretrizes sobre a implementação de mensagem dos quartéis generais USAF/XO, acerca de medidas para combater a estafa de tripulações aéreas na Força Aérea de Combate).

20. Departamento da Força Aérea (Maj Stephen Moulten, ponto de contato), ao Comandante de Combate Aéreo, carta, 20 de fevereiro de 2001 (carta de diretrizes sobre o programa de gerenciamento de estafa em tripulações aéreas).

21. O mesmo se dá com respeito ao uso de modafinil (Provigil), recém aprovado pelo Cirurgião Geral da Força Aérea para certas operações de combate aéreo. (Sem dúvida os outros setores também irão aprovar seu uso dentro em breve).

22. Devemos acrescentar certas advertências: (1) É claro que quando se pede ao piloto ao término de sua missão de voo que preste contas com respeito aos medicamentos que lhe foram entregues antes da missão, o cirurgião de voo vai então estar ciente da decisão do piloto tomada durante o voo; entretanto, isto vai ocorrer após o evento (o que vai diminuir sua influência no momento da tomada de decisão). (2) Sem dúvida, em certas situações, pode ser que certo membro da tripulação se sinta “pressionado” a usar um medicamento de manutenção de desempenho, porque os outros membros da mesma tripulação decidiram usá-lo, mas os dados de pesquisa sugerem que é mais uma exceção do que regra. (ver nota 23).

23. Sarady Tan and John Caldwell, A Survey of the U.S. Air Force Aviation Personnel on Flying, Fatigue and Fatigue Countermeasures, Aviation, Space, and Environmental Medicine 77, no. 3 (março 2006): 293.


Colaborador

Dr. John A. Caldwell Dr. John A. Caldwell (BS, Troy State University; MA, University of South Alabama; PhD, University of Southern Mississippi), autor, cientista senior da Archinoetics, LLC, Honolulu, Hawaii. Trabalhou como psicólogo chefe de pesquisa do Laboratório de Pesquisa da Força Aérea, Cientista Catedrático de combate à estafa no Centro de Pesquisa Ames da NASA, e Psicólogo de pesquisa do Comando de Equipamento e Pesquisa Médica do Exército Norte-Americano. O Dr. Caldwell recebeu inúmeras distinções pela contribuição feita à segurança aérea, pesquisa e desenvolvimento, empreendimentos científicos e técnicos e setor público.

As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade da Força Aérea ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.


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